ARIANO SUASSUNA

Na infância você lia almanaques? Assim que me alfabetizei, comecei a ler de tudo. E lia muito os almanaques. Gostava muito de um almanaque português, o Almanaque Bertrand. Prestei minha homenagem a ele em meu romance A Pedra do Reino. Uma coisa que me entusiasma muito no almanaque é que ele se volta à figura do humanista. Neste mundo técnico, de especializações, o que me encanta é que ele tem uma visão geral. Quando surgiu seu interesse pela literatura? Foi muito cedo. Meu pai tinha uma biblioteca muito boa, de maneira que eu comecei logo a ler. Além disso, meus irmãos mais velhos, que já estavam estudando no Recife, levavam livros para o sertão da Paraíba, onde eu morava. Lia tudo. Gostava dos livros de aventura, como Scaramouche, de Rafael Sabatini. Esse livro foi profundamente importante para mim, e ainda hoje é. De modo geral, gosto mais de reler do que ler. E esse livro leio várias vezes, ainda hoje.
Qual sua primeira publicação? Publiquei um poema em jornal aos 18 anos, em 1945. Um professor de Geografia corrigiu uma prova que fiz e descobriu que tinha vocação literária. A prova era sobre o relevo brasileiro. E, como não sabia muito, danei-me a fazer divagações, falei de Aleijadinho, citei Drummond. Quando ele foi entregar as provas, deixou a minha por último, e disse: “Fiquei com esta, pois de Geografia ela tem muito pouco, mas essa pessoa que escreveu tem vocação literária”. Pediu que eu trouxesse um poema. Levei e ele pediu emprestado sem dizer para quê. Aí levou para o Jornal do Commercio, que publicou. Tive uma alegria enorme. Como você entrou em contato com a cultura popular? Muito menino vi duas coisas que me impressionaram. Uma foi a primeira cantoria. Vi dois cantadores lá em Taperoá. Um deles era um dos maiores cantadores que já existiram no Nordeste, Antonio Marinho. Depois vi, no mercado de Taperoá, um espetáculo de mamulengo, o teatro popular de bonecos. Me deixou deliciado. Como a cultura popular se tornou objeto de trabalho para você? Foi muito importante a leitura dos livros de um pesquisador cearense, hoje injustamente esquecido, chamado Leonardo Motta. Ele foi um dos pioneiros em recolher os versos dos cantadores, os folhetos, as histórias populares. A essa altura os livros já tinham se tornado sagrados para mim. Quando vi aqueles cantadores serem objetos de livro, percebi que eram mais importantes do que eu pensava. Isso me chamou a atenção para a
relevância, inclusive literária, do romanceiro popular do Nordeste. Antonio Nóbrega defende que cultura popular não é folclore. O que acha da diferenciação? A palavra folclore é muito antipática, inclusive tem um sentido pejorativo. Ele tem razão. Não gosto quando a aplicam em relação à minha obra por dois motivos. Primeiro, porque não gosto
desse espírito. E, em segundo lugar, porque está errado. A obra folclórica é anônima, ou o autor foi esquecido. E, além disso, tem contribuições da coletividade ao longo de anos em um mesmo espaço. Dizer que uma peça minha é folclore, além de ser antipático, é um absurdo. Você acompanha as publicações da imprensa? Eu leio muito, mas só literatura. A maioria das revistas é de uma frivolidade muito grande. Tenho horror ao chamado “gosto médio”. Prefiro o mau gosto ao gosto médio. Você se considera otimista em relação ao futuro do País? Estou perfeitamente consciente da distância entre meus sonhos – e o de todos nós – e a realidade. Sou um escritor que vê o mundo através
de emblemas. Acho que o dever de todos nós, escritores brasileiros, é colocar, mesmo que a realidade seja dura e cruenta, um sonho mais belo e alto que possa mover o povo. Porque se perdermos até a esperança, não haverá caminho para nós.

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