Papo Cabeça – Fernanda Montenegro

Ela soma mais de seis décadas de carreira. Começou a trabalhar aos 15 anos, no rádio. Aos 20, nos primórdios da televisão, já havia ganhado lugar nas telinhas – foi a primeira atriz contratada da tevê brasileira. Pouco depois já brilhava nos palcos. “De lá para cá, posso dizer que foi teatro todos os dias.” Fernanda se considera de uma geração privilegiada, para a qual não faltaram trabalho, paixão nem estímulos. “Somos de uma geração ainda com muita influência do humanismo, e já botando um pé no contemporâneo.” Protagonista de algumas das cenas mais comoventes do cinema brasileiro, em filmes como Central do Brasil, A Falecida e Eles Não Usam Black-Tie, vê nessas produções uma característica comum que, segundo ela, diz também muito sobre o Brasil: as dificuldades que o destino impôs, sejam elas financeiras, sejam políticas, proporcionaram momentos de rara beleza. É o que ela chama de acerto na carência. “Brasil, Brasil, Brasil. Berço das artes reunidas. Acho que é isso que nós somos.”

Você começou a trabalhar cedo, aos 15 anos. Não foi um início prematuro?

Eu sou de uma geração que acumulou muito trabalho. O pós-guerra, o rock, a revolução de 1968, a contracultura. Foi uma época de deixar a gente sem fôlego. Comecei a trabalhar em 1945, na Rádio Ministério da Educação e Cultura, com 15 anos. Entrei para ser radioatriz, depois atuei como locutora, redatora. Em 1951, começou uma programação na TV Tupi do Rio de Janeiro e fui a primeira atriz contratada de televisão. Dois anos depois, casei com o Fernando Torres e fomos para a companhia da Henriette Morineau. A partir daí, posso dizer que foi teatro todos os dias.

Como foram os primeiros anos de televisão?

Era tudo ao vivo. Durante dois anos conciliamos a tevê no Rio de Janeiro com o Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. Era uma loucura. Não sei como não morríamos de tanto trabalhar. A gente trabalhava de terça a domingo no TBC. Nos fins de semana, fazíamos até cinco espetáculos. Eu devo ter feito uns 400 teleteatros assim. Da maior qualidade, no que diz respeito aos textos usados, à dramaturgia, às adaptações. Como diria Brecht, foram anos muito difíceis, muito lutados, mas foram os melhores anos
das nossas vidas.

A Falecida, seu primeiro longa, tem uma das cenas mais lindas do cinema brasileiro, em que a sua personagem toma um banho de chuva. Como ela aconteceu?

Eu fico emocionada quando falo dessa cena. Não tinha mais dinheiro, não tinha mais nada e era o último dia de gravação. Os bombeiros chegaram e arrumaram a mangueira. Eu coloquei a roupa – não tinha substituição; se estragasse, acabava a cena. E o Leon Hirszman, o diretor, disse: “Vai, Fernanda, resolve aí”. E assim foi feito. Acabou a cena, acabou a água, acabou o filme. É assim: às vezes a gente acerta na carência. Muitas vezes no Brasil a gente acerta por carência. E aí sai bonito.

E a sua cena preferida, qual é?

Todo filme tem uma cena emblemática. No Central do Brasil ela está no fim do filme. É muito bem resolvida a despedida entre o menino e a mulher, a carta que é escrita, a comoção de terem se achado e não terem ficado juntos. Em Casa de Areia também há uma cena de que gosto muito, em que, com 90 anos, falo comigo mesma, como filha, com 60. Gosto muito das personagens que fiz no cinema. São perfis de mulheres bem brasileiras e bem ligadas a uma carência social. Não posso me queixar das personagens que vivi. Fui muito olhada pelos deuses.

Há quem acredite que o ator guarda em si todos os personagens que
representou. Você concorda?

Eu sou de um tempo em que se ensaiava até 12 horas por dia. Evidentemente, depois disso, ficamos com aquilo impregnado. O sujeito passa a ter uma vida dupla, a ser um esquizofrênico. Ao mesmo tempo, tem a vida comum em volta. Junto, corre uma outra intensidade que às nove da noite é preciso pôr em cena. Tem gente que saiu de casa para ver isso. E essa gente aceita que você se transforme. Ela acha que você está representando algo que toca muito a ela também. Acho que nós, atores, somos necessários, senão já teríamos nos acabado. Senão, depois de um tempo, na Grécia, essa coisa tinha morrido. Se continuou através dos milênios é porque alguma utilidade nós temos, apesar de não desempenharmos profissões utilitárias, como padeiro, pedreiro, médico, engenheiro, biólogo, costureiro, gari.

O que mais a emociona na cultura popular brasileira?

Eu acredito em “cultura”. Não acredito na contraposição entre a cultura popular e a cultura erudita. Não conheço nada mais erudito do que esses cantores de feira, essas quadrinhas, modinhas e desafios. Não conheço nada mais erudito do que moda de viola ou chorinho. Tem coreografia mais rica do que a desses reisados? Do que a das escolas de samba, aquelas velhas baianas? Tem um samba-enredo que diz assim: “Brasil, Brasil, Brasil. Berço das artes reunidas”. Acho que é isso que nós somos.

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