Histórias do Brasil

No Ceará, Profetas da Chuva rivalizam com meteorologistas

Para profetas da chuva, natureza é bola de cristal

Apesar de o termo sugerir, os profetas da chuva não são adivinhos nem místicos. Suas profecias, na verdade, baseiam-se no que há de mais natural. Exatamente por isso chamam atenção. Num mundo regido pela tecnologia, esses homens espalhados pelo Sertão Central cearense sabem entender o que a natureza diz. Analisam os sinais do céu, das matas e dos bichos, para saber como será o tempo.

Eles atraem imprensa, pesquisadores americanos, canadenses e universitários paulistas para Quixadá, no Ceará. É a cidade onde se encontram, no segundo domingo do ano, para dividir opiniões e anunciar ao povo da região as profecias sobre o inverno. Ou seja, se as chuvas, tão esperadas para a quadra de fevereiro a maio, virão fertilizar a terra dos pequenos agricultores.

Tem profeta que começa a colher observações – ou experiências, como eles chamam – em junho, na festa de São João. Prestam atenção para onde vai a fumaça da fogueira. Pode ser útil também saber em que época “fulora” o juazeiro, Para profetas da chuva, natureza é bola de cristal o pau-d’água, a oiticica. Atentar para quando o cupim perde as asas, para que direção andam as formigas, como está o brilho do sol, como cantam os pássaros. Aves e tatu na toca esperam água. O enxu, espécie de vespeiro, também anuncia precipitações se está cheio de mel. Já a estrela-dalva, envolta por neblina, revela “inverno pouco” – ou seja, pouca chuva.

O Encontro de Profetas Populares da Chuva, reunião anual, começou a ser promovido em 1996 pela Câmara de Diretores Lojistas de Quixadá. Cerca de 30 profetas costumam comparecer. A maioria é agricultor. Raros são acadêmicos. Cada um tem suas táticas, aprendidas com os pais e os avós por muitas gerações. Os filhos e os netos já começam a participar dos encontros, garantindo a continuidade das profecias.

Elas não têm a precisão dos laudos meteorológicos, mas são mais poéticas. Os sertanejos acostumaram-se a controlar a ansiedade em relação ao tempo ouvindo os astutos. Por muito tempo, os profetas foram a única orientação dos lavradores, que iam escutar as previsões na praça, para então decidir quando gastar suas sementes. Nos anos 1950, a meteorologia entrou em cena, mas a tradição não perdeu espaço. O clima muitas vezes castiga os caboclos, e eles não brigam com a natureza. Aprendem a lidar com ela.