Ilustres Brasileiros

Mussum: a vida do trapalhão mais engraçado

A fórmula para Mussum ser considerado o personagem mais divertido dos Trapalhões era simples: ser ele mesmo. O humorista e músico encantou gerações e continua a ser exaltado, seja em camisetas bem-humoradas ou em montagens nas redes sociais.

“O Mussum é o único dos Trapalhões que não fazia força para ser engraçado”, afirmou o emocionado Dedé Santana após a morte do companheiro, em 29 de julho de 1994. O seu estilo escrachado e espontâneo marcou época. O personagem de morro carioca, sambista, bebedor de cachaça e sorridente era exatamente quem era Mussum por trás das câmeras, “um sujeito que ficava horas e horas conversando com os contrarregras”, lembra o diretor de cinema José Alvarenga Júnior.

Houve um tempo em que sua figura fazia tanto sucesso que amigos o pressionavam a forçar a barra para ter um programa próprio. O estrelato, porém, não o deslumbrava. O humorista definiu com rara felicidade a sua visão sobre a fama: “Sucesso é igual a cachorro correndo atrás de pneu de caminhão. Corre, corre, quando o caminhão para no sinal, ele não sabe o que faz com o pneu”.

Ele se alegrava em atuar como comediante, mas o que gostava mesmo era de ser músico. Deu nova cara ao samba carioca com os Originais do Samba. “Encontrar alguém com o seu mesmo suingue no reco-reco é como achar uma agulha num palheiro”, afirma o sambista Jorge Aragão. O carisma o levou para a televisão, veículo pelo qual encantaria gerações de telespectadores sendo ele mesmo. “Não me lembro de ter visto o Mussum triste na vida”, diz a cantora Alcione.

Da Aeronáutica para o samba
Antonio Carlos Bernardo Gomes nasceu no morro da Cachoeirinha, subúrbio do Rio de Janeiro. Ainda na infância, Carlinhos, como era chamado, defendia algum trocado carregando sacolas de feira ou qualquer outra ocupação que lhe rendesse uns cruzeiros em Copacabana, onde passou a morar na casa de patroas da mãe, cozinheira. Depois, mudou-se para a Mangueira.

Estudou em colégio interno, de onde saiu com diploma de técnico em mecânica, ao mesmo tempo em que começava a aprender a batucar. Após o colégio, entrou na Aeronáutica. Oito anos depois, o samba falou mais alto. Primeiro fundou Os Sete Modernos do Samba, no início da década de 1960. Em seguida, Os Originais do Samba, formado por integrantes de escolas carnavalescas. Com o grupo, gravou 12 discos. Os Originais lançaram sucessos como A Tragédia no Fundo do Mar, Esperanças Perdidas e Do Lado Direito da Rua Direita. Apresentaram-se com Jorge Ben, Elis Regina e outros nomes importantes da música nacional.

50 anos muito bem bebidos
Carismático, Mussum foi convidado a participar de programas de tevê. Ficou em dúvida um bom tempo, mas aceitou. Estreou no programa Bairro Feliz, da Globo. Nos bastidores, ganhou de Grande Otelo o apelido com o qual se tornaria conhecido, inspirado numa espécie de peixe escorregadiço. Na sequência participou de programas de Chico Anysio, que lhe deu a sugestão de colocar os “is” ao fim das palavras, o que se tornaria sua marca registrada.

No início da década de 1970, Renato Aragão e Dedé Santana faziam uma dupla de humor na TV Excelsior. Estavam a procura de um novo integrante. Ao ver o sambista fazer graça em um programa, Didi teve a ideia de convidá-lo. Quase não havia negros na tevê, e consideraram a novidade positiva. Sobre o tema de racismo, aliás, Mussum afirmou: “Não vejo problema nisso, não. Pra mim, todo mundo é preto”.

O grupo viraria um quarteto com a entrada de Zacarias. Com os colegas, Mussum protagonizou grandes momentos da tevê brasileira, sempre em busca de cachaça e cerveja, ou “mé e suco de cevadis”, como preferia chamar as bebidas. “Eu tenho 50 anos muito bem bebidos”, afirmou em uma entrevista. Além dos programas, gravou 27 filmes com os Trapalhões, dois como roteirista.

Um Brasil menos alegre
O sucesso não lhe fez esquecer o amor pela música. Ao mesmo tempo em que encantava os telespectadores, desfilava como diretor de harmonia da Ala das Baianas da Mangueira. Em 1981 gravou o seu único disco solo, com sambas de Baden Powell, Vinicius de Moraes e Martinho da Vila.

No início de 1994, planejava formar um novo grupo. Não deu tempo. Precisou de um transplante de coração, o que acarretou sua morte aos 53 anos. Sem ele, Os Trapalhões se desfizeram.

“Mussum deixa mulher, quatro filhos e um Brasil menos alegre”, escreveu o Jornal do Brasil no dia seguinte. “Ele era o mais engraçado de nós todos. Deixa um buraco na tevê que nunca será ocupado”, afirmou Renato Aragão.

Até hoje, Mussum é o personagem dos Trapalhões mais exaltados, seja em camisetas bem-humoradas com seu rosto, em montagens de Facebook ou em acessos no Youtube (o seu vídeo ao lado de Grande Otelo, armando uma “pindureta” num bar, já foi visto mais de quatro milhões e meio de vezes). “Ele se eternizou, faz sucesso até hoje com a garotada e o pessoal mais velho. Naquela época, ser humorista negro era muito difícil. Ele encantou muita gente”, diz o filho Mussunzinho.

Da Redação do Almanaque Brasil