Histórias do Brasil

Geraldo: o assoviador rubro-negro teve vida breve

Irreverente, bom de bola e indisciplinado. O meio-de-campo Geraldo Assoviador foi uma das figuras mais carismáticas surgidas no futebol nacional no início da década de 1970. Da mesma geração de Zico, o craque foi dono da camisa 8 do Flamengo e convocado para a seleção. A sua morte aos 22 anos encerrou uma das carreiras mais promissoras do futebol brasileiro.

Nascido na mineira Barão de Cocais, seu apelido surgiu pelo hábito de assoviar em qualquer situação. Principalmente as músicas de discoteca, febre entre a juventude da época. O amigo Zico relembra: “Se fosse Your Song, de Billy Paul, então, parava tudo para dançar e cantar, não importa onde estivesse”. A relação entre ambos era de irmãos. Seu Antunes, pai do Galinho, chamava o rapaz de “meu filho marronzinho”.

O que mais chamava atenção da torcida e dos companheiros era que Geraldo assoviava também em campo, seja em um jogo contra o Madureira ou em um Fla x Flu com o Maracanã lotado. Passou a se firmar como titular do clube em 1974, a despeito da fama de indolente e descompromissado. Porém, o talento incomum dava poucos argumento aos desafetos. Era considerado um cabeça-de-vento genial, uma espécie de Garrincha que vestia rubro-negro.

Para o historiador Luiz Antonio Simas, a maneira de ser de Geraldo era uma marca de sua brasilidade. “Esse hábito de jogar assoviando deu a Geraldo a fama de irresponsável, irreverente, descompromissado, chupa-sangue e outras baboseiras do gênero. Queriam que o neguinho Geraldo, mineiro de Barão de Cocais, se comportasse como um respeitável centro-médio europeu, de cenho franzido e olhar de touro brabo, uma espécie de candidato a meia direita da seleção da Escócia. Mas Geraldo era brasileiro”.

Além da paixão pela música norte-americana, o atleta também dedicava especial atenção ao cancioneiro nacional. O craque morava no mesmo prédio do cantor e compositor Raimundo Fagner. E mantinha um hábito: quase todo dia, pela manhã, batia à porta do apartamento do música cearense e pedia para ouvir Canteiros, um dos grandes sucessos da música brasileira à época. Só depois ia para o treino, todo feliz. “O Geraldo era muito alegre, muito cheio de vida”, exalta Fagner.

Seleção e morte aos 22 anos
Devido ao sucesso pelo Flamengo, coroado com as conquistas dos Campeonatos Cariocas de 1972 e 1974, Geraldo foi convocado para a seleção pelo técnico Osvaldo Brandão para disputar a Copa América de 1975. Era considerado nome certo para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina. “O Brandão adorava o futebol de Geraldo. Ele gostava mais do Geraldo do que de mim”, lembra Zico.

Não deu tempo. Em 1976, o clube carioca determinou que o jogador passasse por uma cirurgia de retirada de amígdalas. Coisa simples. No dia anterior, a delegação foi para Fortaleza disputar um jogo contra o Ceará. Só Geraldo ficou no Rio. Com mau pressentimento, foi à contragosto à mesa de operação. A anestesia causou sua morte por choque anafilático. “Parou o coração do Flamengo”, estampou uma revista na semana seguinte.

A morte prematura do habilidoso Geraldo causou comoção no País, principalmente entre os companheiros de profissão. O meio-campista Carlos Alberto Pintinho – jogador do Fluminense e melhor amigo de Geraldo – resolveu jogar na Europa por não suportar a dor da perda. Um jogo entre Flamengo e seleção brasileira foi realizado no Maracanã para homenagear o atleta, com renda revertida para sua família. Pelé veio dos Estados Unidos especialmente para disputar a partida. Nas tribunas de honra, até o presidente-militar Ernesto Geisel marcou presença.

Para Jairzinho, campeão mundial pelo Brasil em 1970, Geraldo “foi um dos jogadores mais técnicos e inteligentes de todos os tempos”. O nome do craque que poderia ter sido e que não foi continua a ser lembrado pelos fanáticos flamenguistas. O jornalista Marcio Mará chegou a comparar Geraldo com outros ícones que também partiram prematuramente, como Che Guevara, James Dean e Jimi Hendrix. “A vida breve de Geraldo teve a duração de um afinado e alegre assovio”, desmancha-se.

Da Redação do Almanaque Brasil