Histórias do Brasil

Ceará aboliu escravidão 4 anos antes da Lei Áurea

Em janeiro de 1881, ouviu-se em Fortaleza o grito: “No porto do Ceará não se embarcam mais escravos!”. Vinha de um grupo de jangadeiros liderados por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde. Com o apoio da população e até mesmo de militares, eles decidiram não mais fazer o transporte de negros até o porto – a profundidade da região não permitia que os navios atracassem. O governo manda tropas, mas não consegue obrigar os jangadeiros a retomar a travessia. Chico é demitido do posto de prático na Capitania dos Portos.

A ação dos trabalhadores não foi isolada. Em 10 de janeiro de 1883, o movimento emancipador articulado pela Sociedade Cearense Libertadora consegue a alforria de todos os escravos da vila de Aracape (hoje Redenção). José do Patrocínio comparece à solenidade. Em maio, Fortaleza adere ao movimento. Em setembro, é a vez de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

A 25 de março de 1884, o presidente da província do Ceará declara a abolição da escravatura em todo o seu território. O estado entra para a história por ter sido o primeiro a acabar, ao menos oficialmente, com o trabalho escravo no País. A participação de Chico da Matilde é relembrada nas celebrações do acontecimento. Apelidado de Dragão do Mar, ele e sua jangada Liberdade são levados para o Rio de Janeiro. Desfila pelas ruas, é aclamado pela multidão. A embarcação entra no acervo do Museu Nacional, mas desaparece tempos depois.

Com o movimento cearense, o governo imperial se vê pressionado. Em 1885 decreta a Lei do Sexagenário, que alforriava os escravos com mais de 60 anos. Três anos depois, em 13 de maio de 1888, vem a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel. Nas palavras de Joaquim Nabuco, “a emancipação do Ceará foi o acontecimento decisivo para a causa abolicionista”.

Da Redação do Almanaque Brasil