Histórias do Brasil

Dzi Croquettes colocaram purpurina nos palcos e na vida

Nasceu no bar o nome de um dos grupos teatrais mais revolucionários que já tivemos. A paródia ao norte-americano The Coquette teve inspiração no petisco sobre a mesa. “Como croquete, todo mundo é feito de carne”, pensaram. A música Tá Boa, Santa? define: Não sou dama nem valete / Eu sou um Dzi Croquette.

Os 13 homens peludos no palco, ora trajando vestidos, ora apenas enormes asas de borboletas, sempre com muita maquiagem e brilho, tinham algo de andrógino. Uniam textos cômicos a incríveis números de dança, combinando linguagem de cabaré com samba e bossa nova. O dançarino norte-americano Lennie Dale, saído da Broadway, encontrou no grupo seu paraíso e acrescentou profissionalismo aos corpos talentosos.

(foto: divulgação)

Os Dzi Croquettes lotaram cabarés e teatros cariocas em uma época de repressão. Tiveram até as primeiras tietes brasileiras. Pudera: foram eles que criaram o termo para as garotas que não perdiam uma apresentação. As mais fiéis chegaram a formar um grupo secundário – quem não lembra ou nunca ouviu falar de As Frenéticas? “Eu, hein?”, “Meu amor, te contei…” “Já foi!”. A turma que participava da cena usava as gírias próprias do vocabulário “dzi”.

Em documentário sobre a trupe, Gilberto Gil defende que talvez tenha sido “a primeira manifestação do movimento gay brasileiro, ao mesmo tempo com discurso político”. As bandeiras ali eram da inovação, revolução de comportamento, libertação sexual.

A comunidade Dzi, que vivia na mesma casa, embarcou para a Europa, sem produtor ou agenda. Em Paris, o grupo virou coqueluche. “No dia em que eu morrer, quero que o espetáculo que substitua o meu seja o do Dzi Croquettes”, elogiou Josephine Baker. Ninguém esperava que a vedete morresse mesmo e que sua vontade fosse cumprida. Assim, ela tirou os artistas da penúria. De volta ao Brasil, acabaram se desfazendo, apenas três anos depois de sacudir do Rio a Paris.

Da Redação do Almanaque Brasil