Ilustres Brasileiros

Hebe: a mulher mais importante da tevê brasileira

Sorriso franco, conversa animada, vestidos e joias exuberantes. Essa é a imagem mais forte de Hebe Camargo após seis décadas de vida artística, seja como cantora, atriz ou, principalmente, no comando de programas de extrema popularidade. Entre os que a conheceram pessoalmente não havia quem falasse mal da apresentadora. Hebe era unanimidade.

Porém, a mulher de cabelos loiros escutou críticas pesadas durante a carreira por algumas gafes, posicionamentos políticos e uma pretensa cafonice. Sobre isso, o radialista Walter Silva, o Pica-Pau, disparou: “Cafona? Como a maioria dos nossos homens e mulheres de televisão, só que a maioria esconde sua cafonice atrás de uma sofisticação vergonhosamente mentirosa”. Hebe não se incomodava com os comentários: “Sou brega mesmo”.

Entre críticas e afagos, a paulista do interior trilhou uma das carreiras artísticas mais bem-sucedidas do País. Inaugurou a programação televisa voltada às mulheres e só saiu do ar quando quis. Fez aborto aos 18 anos e, apesar de católica, defendia que as mulheres poderiam fazer o mesmo em alguns casos. Voltou à televisão para não depender do marido. Falava sobre desejo sexual aos 70 e poucos anos e soube sempre ser uma mulher livre, autêntica e corajosa. Por uma feliz coincidência, nasceu no Dia Internacional da Mulher: 8 de março de 1929.

Moreninha do samba
Hebe Maria Monteiro de Camargo Ravagnani cresceu ao lado de cinco irmãos em Taubaté, no interior de São Paulo. O pai, Fêgo Camargo, era músico e se apresentava nas sessões de cinema-mudo da cidade. Sentindo-se desamparado artisticamente, juntou a família e foi tentar a vida em São Paulo, onde Hebe chegou aos seis anos.

Na capital, a família passou necessidades – a garotinha teve até que trabalhar como empregada doméstica. Logo mostrou que, como o pai, também tinha talento musical. Participou de concursos de rádio e era comparada a Carmen Miranda. Para ajudar a família, só participava dos concursos em que havia prêmios em dinheiro – e ganhava quase todos.

Na adolescência, formou com irmãs e primas o quarteto Dó-Ré-Mi-Fá. Depois, passou a se apresentar ao lado da irmã como a dupla caipira Rosalinda e Florisbela. “Passei a vida inteira sem saber se eu era a Rosalinda ou a Florisbela”, brincava.

Já em carreira-solo, arrancava elogios de apresentadores de rádio. E também epítetos: Estrelinha do Samba, A Estrela de São Paulo, A Moreninha do Samba. Sim, Hebe só se tornaria loira em 1957, ao viajar aos Estados Unidos e se deslumbrar com as estrelas de cinema norte-americanas.

Faltou na estreia
Em 1950, na inauguração da primeira emissora de televisão do País, a TV Tupi, o empresário Assis Chateaubriand convidou Hebe para cantar o Hino da Televisão Brasileira. E não é que ela deu o cano? Alegando estar gripada, foi substituída pela amiga Lolita Rodrigues. O que se conta é que havia preferido fazer programas mais animados com um namoradinho da época. Com seu humor característico, dizia não ter se arrependido da ausência na estreia da tevê brasileira: “A letra do hino era um horror”, divertia-se.

Hebe participou como convidada em vários programas e, em 1955, se tornou apresentadora do primeiro dedicado ao público feminino: O Mundo É das Mulheres, da TV Paulista.

O casamento com o empresário Décio Capuano, em 1964, a fez se afastar da televisão. O marido sentia ciúme de sua vida artística. Porém, pouco tempo depois voltava à TV Record, em um dos programas com mais audiência da emissora. “Não aguentei. Não nasci para depender de homem”. Na Record, além do Programa da Hebe, protagonizou momentos hilariantes ao participar de quadros da Família Trapo ao lado de Ronald Golias.

“Pena de morrer”
Em 1986, foi contratada pelo SBT, emissora na qual apresentaria 1.286 programas até 2010, quando foi para a Rede TV!. A relação com o patrão Silvio Santos era amorosa, mas com momentos de broncas. Reclamava que o patrão mudava os horários a esmo e queria que os programas fossem gravados. “Eu gosto do ao vivo, quero as minhas gafes no ar”.

Em uma de suas vindas ao Brasil, o estilista francês Pierre Cardin garantiu: “Hebe é uma das melhores pessoas que já me entrevistaram”. A opinião era compartilhada por muitos que se sentaram em seu famoso sofá. Quando a cantora Rita Lee foi a seu programa, resolveu tascar um selinho na apresentadora, que depois transformaria o ato em uma das suas marcas registradas.

Em 2010, Hebe foi diagnosticada com câncer. Lutou com braveza e elegância contra a doença. Quando negociava a volta ao SBT, morreu do coração, em 29 de setembro de 2012, aos 83 anos. Em seu velório, milhares de fãs foram dar o derradeiro adeus.

Em uma de suas últimas entrevistas, com o habitual bom-humor que distribuiu vida afora, declarou: “Não tenho medo de morrer. Tenho pena de morrer”.

Da Redação do Almanaque Brasil