Entrevistas

Nelson Rodrigues: Os cretinos fundamentais desprezam o Brasil

“Nelson Rodrigues ainda é um grande mistério a ser desvendado”, diz Ruy Castro, autor de Anjo Pornográfico – A vida de Nelson Rodrigues (Cia. das Letras). De fato, a obra do escritor, jornalista e dramaturgo revelava um sujeito de difícil classificação. Na época, então, não raro seus escritos eram mal interpretados. Foi chamado de indecente, maluco, reacionário. Mas nunca se furtou de esmiuçar o caráter insincero e hipócrita da sociedade brasileira.

Ele viveu entre 1912 e 1980. Neste meio termo foi autor de inúmeros livros e de 17 peças de teatro. Suas crônicas de jornal, no entanto, foram o que o tornaram uma figura popular. Não poupava esquerdistas de qualquer espécie, uma das vítimas preferidas do seu deboche mordaz. Também não se dava com a direita conservadora, que torcia o nariz para seus textos sobre sexo, vida conjugal e traição. Só unia todas as tribos quando dedicava suas linhas para falar sobre o futebol.

O Almanaque resolveu bolar uma entrevista póstuma para tentar entender melhor sua personalidade, a partir de seus livros, crônicas e depoimentos à imprensa. Ele, certamente, validaria a missão, como escreveu em O Reacionário (Nova Fronteira), seu livro derradeiro: “Nada mais falso, nada mais apócrifo, nada mais cínico do que a entrevista verdadeira. A entrevista verdadeira é uma sucessão de poses e de máscaras. Ao passo que a entrevista imaginária, pelo fato de ser imaginária e irresponsável, não mente jamais”.

Você realmente acredita que as pessoas da vida real são tão mórbidas e vis como em suas peças e contos?
A ficção, para ser purificadora, tem que ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. E no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a plateia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros, de insanos, e, em suma, de uma salada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.

Em 1957, você atuou na peça Perdoa-me por Me Traíres, de sua autoria. Não teve medo de passar vergonha por não ser um ator profissional?
Absolutamente. E digo mais: só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando. Além do mais, o ator possui uma técnica, uma tarimba, um charme, que o envaidece. Ao morrer em cena, não conseguem esconder sua satisfação ilimitada de estar morrendo tão bem. Não lhe ocorre que o personagem morreria mal, morreria pessimamente.

A sua peça Vestido de Noiva é considerada o marco inicial do moderno teatro brasileiro. Como vê o teatro nacional desde então?
Não sei se notaram, mas o nosso teatro anda inteligentíssimo e de uma inteligência insuportável. Nem sempre foi assim. Por toda a Belle Époque e até 1930, o teatro não pensava. Cada qual fazia as coisas simples e profundas no seu métier. O ator começava e acabava no palco. Cá fora, na vida real, babava fisicamente na gravata. A atriz, idem. E o contrarregra não passava de contrarregra. Por isso mesmo, o teatro chegava mais depressa e com um impacto mais firme e mais puro ao coração do povo. Havia o sucesso, sem o qual, diz Jouvet, não há teatro. Um dia vi uma peça minha em São Paulo. Se o jovem diretor não fosse inteligente, seria fidelíssimo ao texto. E, então, o público veria O Beijo do Asfalto, e veria Nelson Rodrigues. Desgraçadamente, estávamos diante da inteligência. Todos autorizados a improvisar.

Você costuma dizer que a beleza é uma desvantagem para a mulher. Por quê?
A beleza feminina é uma terrível enfermidade. De fato, a beleza causa na mulher um desgaste interior, macio, insidioso, fatal. E, no fim, a mulher bonita se volta contra si mesma, com tédio e ira de todos os seus dons plásticos. Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão na alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma. Olhe a Marilyn Monroe. Morreu tão linda e tão só.

Mas a ditadura da beleza está aí, exigindo medidas perfeitas, corpos magros…
Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, veja: pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro. É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que conheci são, fatalmente, magros. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor. Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória.

Por que passou a escrever tanto sobre política?
Eu sou um ex-covarde. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos. Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Depois de tudo o que passei, meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: “Sou um ex-covarde”. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Vermelho ou de Mao Tsé-Tung, ou de Guevara.

Mas há muita gente boa que defende o marxismo…
Quando esteve por aqui, Jean-Paul Sarte deu uma entrevista coletiva. Em um momento, cravou o seu olhar na cara mais próxima e disse: “O marxismo é inultrapassável”. Não houve um murmúrio, um muxoxo, um oh, nada, nada. Está claro que era uma opinião de torcedor do Bonsucesso. Mas o gênio pode ousar opiniões de torcedor do Bonsucesso. De mais a mais, Sartre tinha, ao seu lado, a língua francesa, a prosa francesa. Qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas. E não ocorreu a ninguém que, dali a 15 minutos, o marxismo poderia estar mais ultrapassado que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Minhas últimas palavras seriam: “Marx é uma besta”.

Ainda perdura o racismo no Brasil?
O Brasil gaba-se de sua democracia racial. No entanto, poderíamos indagar uns aos outros: “E os negros? Onde estão os negros?”. É uma pergunta sem resposta. Um visitante ilustre passou um mês no Brasil. E, de repente, vira-se para a grã-fina brasileira que o acompanhava. Perguntou com uma irritação quase imperceptível: “E os negros? Onde estão os negros?”. Só via, e só esbarrava, e só tropeçava em brancos e brancas. Num amargo escândalo, constatava que o Itamaraty é uma paisagem sem negros. Quando foi embora, o rapaz do Itamaraty, que o fora levar, respondeu com a maior polidez e descaro: “Realmente, não temos uma grã-fina preta”. Aqui, ser preto é provar todas as renúncias. Lembro-me de um mulato que, no pileque, ficava repetindo, obtusamente: “Parece que tem um preto aí, o Zé do Patrocínio”.

O brasileiro não gosta do Brasil?
Os cretinos fundamentais desprezam o Brasil. O Brasil é muito impopular no Brasil. Mas o Brasil vai substituir os Estados Unidos, a Rússia. O Brasil vai dizer a grande palavra nova. O brasileiro é um sujeito formidável, que faz piada, nenhum povo faz piada. Acontece qualquer coisa: uma chanchada, uma catástrofe, o brasileiro inventa uma piada na hora. Olhe todos os homens das outras terras: nenhum consegue ser cafajeste. O brasileiro é cafajeste. Digo cafajeste como um sujeito que planta bananeira até num velório.

Vamos falar de futebol. Qual é a importância do esporte para o povo brasileiro?
Diziam que até 1958 no Brasil tinha analfabeto demais. A Copa da Suécia operou um milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização súbita. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra de todos os tempos, o Brasil descobriu-se a si mesmo. Os simples, os bobos, os tapados hão de querer sufocar a vitória nos seus limites estritamente esportivos. Ilusão! Os cinco a dois, lá fora, contra tudo e contra todos, são um maravilhoso triunfo vital de todos nós e de cada um de nós. Ninguém tem mais vergonha da sua condição nacional. O povo já não se julga mais um vira-latas. O brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.

Mas, em contraposição ao nosso complexo de vira-latas, não podemos nos tornar uma nação de vaidosos e soberbos?
Vou lhe contar uma história: uma senhora brasileira foi recebida pelo papa no Vaticano. Ao se despedir, Sua Santidade pediu, num sussurro: “Reze por mim”. Podia ter essa humildade porque era o papa. Devemos deixar a modéstia, a humildade, para os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Itália, o Japão. Nós precisamos de mania de grandeza. A mania de grandeza é o nosso único luxo de subdesenvolvimento.

Entre todos os boleiros, você sempre dedicou especial atenção ao Garrincha. Por quê?
Esse rapaz da raiz da serra compensou-nos de todas as nossas humilhações pessoais e coletivas. De 1958 a 1962, o mais indigente dos brasileiros pôde tecer a sua fantasia de onipotência. Na primeira bola que recebia o povo já começava a rir. O povo ria antes da jogada, da graça, da pirueta. Ria adivinhando que Garrincha ia fazer a sua grande área como ópera. Como se sabe só o jogador medíocre faz futebol de primeira. O craque, o virtuoso, o estilista prende a bola. Sim, ele cultiva a bola como uma orquídea de luxo. Todos nós dependemos do raciocínio. Não atravessamos a rua, ou chupamos um Chica-bon, sem todo um lento e intrincado processo mental. Ao passo que Garrincha nunca precisou pensar. Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto. E, por isso mesmo, chega sempre antes,sempre na frente, porque jamais o raciocínio do adversário terá a velocidade genial do seu instinto.

Qual a sua religião?
Eu sou profundamente cristão. Mas eu só entro nas igrejas vazias. Na minha opinião, os crentes e o padre é que estragam a missa. A solidão começou para o verdadeiro católico. Tome nota: ainda seremos o maior povo ex-católico do mundo.

O que acha da morte?
Eu tenho uma certeza: a alma é imortal. Tenho o maior desprezo por todos que não acreditam na eternidade da alma.

Por Bruno Hoffmann