Histórias do Brasil

“Apesar de você”: sarro de Chico Buarque se tornou hino contra a ditadura

Havia um ano que Chico Buarque estava auto-exilado na Itália. Soube por um amigo que a situação por estas terras havia melhorado. Não foi o que o compositor viu quando desembarcou no Rio em 1970. O cenário era de censura, tortura e arbitrariedades promovidas pelo governo. A situação o inspirou a criar Apesar de Você, que sairia em compacto, com Desalento do outro lado. Era uma mensagem quase direta ao governo militar.

O compositor enviou a canção à censura sem muita esperança que fosse aprovada. Não se sabe como, mas a música voltou liberada e sem cortes. O compacto vendeu mais de 100 mil cópias em menos de um mês. Quando o governo se tocou que o “você” da letra poderia ser o presidente-militar Emílio Garrastazú Médici, o refrão já estava na boca do povo: Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia

A polícia invadiu a gravadora. As cópias foram destruídas. O censor que liberou a letra foi punido. O compositor foi chamado para explicar quem era o “você” da canção. Chico saiu-se com essa: “É uma mulher muito mandona”. A partir daí, as composições do ex símbolo do bom-mocismo começariam a ser recebidas com má vontade especial pelos censores.

A canção tornou-se uma espécie de hino contra a ditadura militar. Numa carta a Vinicius de Moraes, Chico explicava com despojamento a experiência de gravar uma de suas primeiras músicas contra a ditadura: “Deu bolo como o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro”.

Por Bruno Hoffmann