Histórias do Brasil

Gentileza pregou amor e bondade contra males do “capetalismo’

Na tarde de 17 de dezembro de 1961, um funcionário demitido do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, ateou fogo à lona durante um espetáculo. Cerca de 400 pessoas morreram, em sua maioria crianças. Seis dias depois, um empresário de nome José da Trino (ou Datrino) deixou tudo o que tinha, incluindo mulher e filhos, para consolar as vítimas. Mudou-se para o local, onde plantou um jardim com flores.

Nos 35 anos seguintes, andaria pelas ruas, ônibus e barcas do Rio pregando a bondade. Seu lema: gentileza gera gentileza, e daí veio o nome que passou a ser conhecido: Profeta Gentileza. Quando criança, amansava animais em Cafelândia, interior de São Paulo. Andarilho na Cidade Maravilhosa, dizia-se “amansador dos burros-homens da cidade que não tinham esclarecimento”.

Via o circo como metáfora do mundo: redondo e pegando fogo por culpa do capitalismo, ou “capetalismo”, como costumava dizer. Não professava religião, pelo contrário. Repetia: “Não dê esmola a padre, não dê esmola a pastor. São tudo traidor. O padre tá esmolando. O pastor tá pastando. E o Papa tá papando, papão. Papão do Capeta Capital.”

Gentileza
(foto: reprodução)

Nos anos 1980 pintou mensagens em 55 pilastras do Viaduto do Caju, próximo à rodoviária da cidade. “Meus filhos, bem vindo ao Rio. Gentileza gera gentileza amor beleza perfeição bondade e riqueza”.

Em 1997 a companhia de limpeza urbana da cidade jogou uma camada de cal em cima dos escritos. Como cantou Marisa Monte na música Gentileza, que o homenageia, só ficou no muro tristeza e tinta fresca. Dois anos depois, o projeto Rio com Gentileza, sob a coordenação do professor Leonardo Guelman, da Universidade Federal Fluminense, iniciou a restauração das pilastras, que receberam proteção especial de poliuretano para aguentarem as intempéries.

Também chamado de Jozze Agradecido, o Profeta aconselhava as pessoas a dizerem “por gentileza”, em vez de “por favor”, já que devemos nos relacionar por amor, e não por favor; e “agradecido” no lugar de “obrigado”, já que ninguém é obrigado a nada. Lógica desconcertante.

A túnica branca adotou em viagem a Ouro Preto, por sugestão de estudantes que lá o acolheram. Com o tempo, foi ganhando bordados. Eram quatro. Um deles: Não usem problemas. Não usem pobreza. Usem amor e gentileza.

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Carregava um estandarte com flores, bandeira do Brasil, catavento e dizeres. Assim justificava: “As flores são porque eu sou o jardim ambulante”; a bandeira, porque “é a mais linda do universo”; e o catavento, “para refrescar a mente da humanidade”.

Durante a Eco-92, colocou-se estrategicamente no caminho dos participantes. Queria que sua mensagem de amor chegasse a outros cantos do planeta. Por vezes foi confundido com mendigo. Quando alguém lhe oferecia esmolas, recusava: “Não quero seu dinheiro. Quero seu espírito para Deus.”

Em 1996, doente, passou seus últimos meses de vida na cidade de Mirandópolis, em São Paulo. Morreu em 29 de maio daquele ano, próximo à família.

Da Redação do Almanaque Brasil