Entrevistas

Chico Barney crava: O brasileiro tem um eterno desconforto consigo mesmo

A coluna de Chico Barney é uma das mais lidas do UOL. Pudera. Ele escreve diariamente sobre os temas e personalidades mais populares do País. Com manchetes como “Não existe ninguém mais importante para a sociedade do que Faustão” e “Annita é motivo de orgulho para ser brasileiro”, o colunista dedica palavras respeitosas a figuras que estão no inconsciente coletivo mas que costumam receber tratamento debochado ou desdenhoso de parte da imprensa nacional.

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“Quem cobre cultura no Brasil, em geral, tem uma visão muito elitista”, afirma o publicitário catarinense radicado em São Paulo, sócio de uma agência de conteúdo digital, que começou a escrever sobre o universo pop há 15 anos em blogs pessoais, sempre com humor. Ganhou notoriedade ao comentar sobre o Big Brother Brasil, da TV Globo. Garante que nunca errou um prognóstico sobre o vencedor das 17 edições do BBB. Carece de fontes.

Não é toda hora que seus textos são bem recebidos pelos leitores. O caso mais notório foi a comparação feita entre Chico Science e o funkeiro MC Kevinho. Até jornais de Pernambuco dedicaram espaço para comentar a relação proposta pelo colunista. Muita gente, no entanto, entendeu suas palavras.

Nesta entrevista, Barney defende um olhar mais cuidadoso à “cultura extremamente popular”, diz que Faustão é mais importante do que Silvio Santos e lembra que figuras como Ariano Suassuna e Chico Anysio também foram criticados quando surgiram. “O brasileiro, eternamente, considera que o Brasil está culturalmente devastado”.

Você se diz um especialista em “cultura extremamente popular”. É por aí?
A minha coluna tem um olhar mais cuidadoso sobre as coisas populares, que todo mundo consome, mas depois diz que estava passando no quarto da empregada e assistiu sem querer… Existe uma carência muito grande de se olhar a produção cultural de entretenimento no Brasil. Quem cobre cultura, em geral, tem uma visão muito elitista, sempre com o viés de Chico Buarque e outros nomes semelhantes. Mas há uma riqueza de manifestações que todo mundo consome mas ninguém analisa com o carinho merecido.

O Brasil tem preconceito com suas manifestações mais populares?
O brasileiro se odeia. Sempre parte do princípio de que o que está fazendo sucesso é uma porcaria e que outros tempos eram muito melhores. O brasileiro, eternamente, considera que o Brasil está culturalmente devastado. Só vai mudando a referência do bom e do ruim. O ruim é sempre o que está na parada de sucessos. Chico Anysio, por exemplo, era (visto como) um babaca e hoje falam que “aquilo que era humor de qualidade, não esses youtubers”, ou “Os Trapalhões que eram bons, não esse politicamente correto de hoje”. É um eterno desconforto consigo mesmo. O brasileiro sempre se olha no espelho e, sei lá, se acha gordo demais.

Como é lidar com os leitores no UOL, muitos, por vezes, bravos com o que você escreve?
Eu sou da primeira geração de blogueiros. Escrevo para a internet há 15 anos. Quando estava falando só com a minha turma, o pessoal me elogiava, me chamava de gênio. Mas, hoje, o que tenho de acesso em um dia no UOL levava um ano para conquistar no blog. É muito enriquecedor ouvir todo tipo de feedback. Muitas vezes escrevem absurdos, mas o cara que se dá ao trabalho de comentar está indignado, cheio de raiva, então tudo bem, é bacana aprender com isso. Considero os comentários uma parte fundamental da minha coluna. Há um diálogo, que quase sempre acaba em quebra-quebra, mas ainda assim um diálogo.

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Leitores não muito felizes com Chico Barney (imagem: reprodução)

Houve um pessoal que não gostou da comparação de Chico Science a MC Kevinho. Qual semelhança vê entre ambos?
O MC Kevinho tem transitado em diversos ritmos populares, como o sertanejo universitário e o axé. Fiz a comparação nesse sentido. Chico Science misturava uma série de influência e ritmos. A mistura que o Chico Science fazia nos anos 90 era muito nova, muito high end. Hoje, com a internet, a molecada não está tão interessada se é rock, funk ou axé. Quer tomar uma jurupinga e curtir o baile. Tudo bem. O jeito como a música evoluiu, principalmente para uma parte mais livre da galera, tem muito a ver com o que Chico Science, de certa forma, começou. Hoje é feita de um jeito muito natural, mais comercial, sem intuitos artísticos de inovação, mas de juntar e trocar referências. Era o que tinha de mais legal no Chico Science.

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Matéria do Jornal do Commercio, do Recife (imagem: reprodução)

O escritor Ariano Suassuna, inclusive, também criticava Chico Science naquele época…
Depois que passa um tempo a galera admira o que veio antes, mas, no momento, qualquer ruptura causa um desconforto no status quo. Quando Ariano Suassuna começou a lançar seus livros com certeza tinha uma galera que falava: “O que esse cara está fazendo?”.

Você é um defensor ardoroso do Faustão. Qual a sua importância para o Brasil?
A gente se acostumou a ouvir todo mundo falando que odeia o Faustão, mas o cara é, definitivamente, uma influência fundamental para a sociedade brasileira nos últimos 30 anos, seja no jeito de falar ou vestir. O look do senhor de 50 ou 60 ano é o Faustão. Tenho amigos que já se vestem igual e não sabem. É algo maravilhoso. Há também todo um universo narrativo e dramatúrgico influenciado por ele. Ele popularizou, por exemplo, o termo cunhado, o “cunhadão folgado”. Cunhado, até então, era só o irmão da sua mulher. Faz tanto tempo que ele chega na casa das pessoas, com tanta força, que não à toa qualquer coluna com seu nome é uma das mais lidas, nem que seja para comentar: “Chico Barney, seu idiota, não acredito que eu li isso”. Mas leu.

Faustão é tão importante quanto Silvio Santos?
Faustão é até mais importante. O Silvio Santos é um grande apresentador, uma figura folclórica, obviamente um grande gênio, mas muito desconectado da vida cotidiana das pessoas. Ele fala sobre coisas muito pouco relevantes para o dia a dia da nação.

Como vê a popularização dos youtubers?
É bacana qualquer pessoa com uma câmera e acesso à internet poder fazer seu próprio canal. Vai ter gente com um milhão de inscritos e outros com 25 mil. E vai se ganhar a vida com esses 25 mil seguidores. O Youtube não vai matar a televisão. É meio que se dizia quando surgiu a tevê, que ia matar o rádio. São coisas complementares e pode haver uma transição bacana dos artistas entre as mídias.

Os Irmãos Neto são os apresentadores infantis mais importantes da história do Brasil desde a Xuxa, são os novos reis dos baixinhos.

Qual youtuber você admira?
Gosto muito dos Irmãos Neto (produzido por Felipe e Lucas Neto). O tamanho da influência e relevância deles para a molecada é gigantesca. Por mais que o Felipe Neto seja uma figura controversa, o que os caras estão fazendo com as crianças é muito inteligente. Eles são os apresentadores infantis mais importantes da história do Brasil desde a Xuxa, são os novos reis dos baixinhos. A criançada estava carente de novos ídolos.

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Quais outros canais brasileiros recomenda?
O Soul Vaidosa, da Xan Ravelli. Ela fala sobre beleza, moda e estilo de vida sob o ponto de vista de uma mulher negra. Traz, também, visões interessantes sobre questões sociais. Outro é O Brasil Que Deu Certo, que eu acho particularmente horroroso, mas que acaba divertindo até pela ruindade. É um conteúdo pobre, um conteúdo bobo, dois apresentadores muito ruins que tratam as questões da brasilidade com muito pouco jogo de cintura, mas que recomendo a todos que prestigiem para entender que nem tudo está tão bem assim (risos).

Qual personalidade popular merece mais carinho do povo brasileiro?
Eu, principalmente (risos). Sacanagem. O primeiro que me vem à cabeça é o João Kléber. Ele ganhou um carimbo de trash e sensacionalista, mas o cara é um showman completo. É roteirista, diretor, apresentador, comediante, animador de auditório. Ele merecia, inclusive, uma estrutura melhor do que tem hoje. O cara é muito bom.

Essa visão de que ele produzia programas trashs, então, é injusta?
Não acho que seja trash, não gosto do termo. Não é lixo. O Teste de Fidelidade, por exemplo, parte de conceitos muito inteligentes. Montar uma câmera escondida para ver se seu marido vai te trair com uma modelo seminua é uma coisa genial. Mesmo fora do ar há um tempo sempre pedem para voltar com o quadro. Marcos Oliver é uma celebridade. O cara hoje está dançando na 25 de Março para vender roupas? Está. Mas todo mundo sabe quem é Marcos, o sedutor.

Você é um entusiasta dos realities shows. O que considera bacana neles?
É muito legal ver até onde vai a cabeça das pessoas que se relacionam 24 horas por dia. Elas estão o tempo inteiro numa posição extremamente desconfortável. Eu não gosto de ficar com a minha mulher 24 horas por dia, imagina com um cara que estou disputando uma grana. É um negócio muito intenso e que gera conflitos e situações interessantes para quem gosta de uma boa narrativa.

Nunca errou mesmo um vencedor de realities?
Nunca errei. Estou caminhando para acertar o 18º campeão do BBB. Já acertei o da Fazenda deste ano. Quem eu falei – e basta procurar na internet para descobrir – é quem vai ganhar o programa no começo de dezembro.

Há quem diga que não é bem assim…
Infelizmente tenho que lidar com a inveja das pessoas. As pessoas fazem montagens, hackeiam meu perfil. É a sordidez do inimigo.

 

Por Bruno Hoffmann