Histórias do Brasil

Ataque marciano causou pânico em São Luís

“O fato aconteceu é notícia”, soou a vinheta da rádio Difusora, de São Luís, na manhã de 30 de outubro de 1971. O locutor Rayol Filho então anunciou, com voz grave: “O observatório de Monte Palomar informou ter observado várias explosões de gás incandescente em intervalos regulares sobre a superfície do planeta Marte”. E brincou, antes de colocar mais uma música no ar: “Pois é, vamos seguindo com o nosso programa, antes que as partículas cheguem por aqui”. Logo depois, porém, Rayol retomou os microfones para anunciar uma invasão marciana em vários pontos estratégicos da Terra: Estados Unidos, Europa, Rio de Janeiro e, é evidente, São Luís (ouça a transmissão).

Não é preciso dizer que marciano algum havia sido visto do lado de cá do sistema solar. Tratava-se de uma brincadeira do produtor Sérgio Brito, convidado a criar um programa especial em comemoração ao aniversário da emissora. Brito se inspirou no norte-americano Orson Welles, que, em 1938, produziu uma transmissão radiofônica intitulada A Guerra dos Mundos. Em tom jornalístico, o futuro diretor de Cidadão Kane dizia que a Terra estava sendo invadida por marcianos, causando pânico nos Estados Unidos. Brito talvez não esperasse tamanho estardalhaço, mas provocou algo parecido entre os ludovicenses.

Capa do jornal O Imparcial, no dia seguinte à transmissão (imagem: reprodução)

A Difusora entrou em rede com uma emissora fictícia do Rio de Janeiro, pela qual um “especialista” confirmava a invasão. O sonoplasta Manoel Pereira criou ruídos que soavam como espaçonaves. O repórter Jota Alves foi “deslocado” para o aeroporto Tirirical, onde conversou com populares que confirmavam o ataque alienígena. Também anunciou que aviões comerciais estavam sendo perseguidos por naves, e que havia avistado um objeto não identificado no Campo de Perizes, que ligava São Luís ao continente. Não foi à toa a presença de um OVNI no local: “Eu tinha medo de uma fuga em massa acontecer, então coloquei uma nave espacial ali”, afirma Brito.

O clima de desespero foi maior quando Jota Alves saiu abruptamente do ar durante uma entrevista. O repórter só podia ter sido morto pelos marcianos. Logo entraram músicas tristes, até a marcha fúnebre. Não havia dúvidas: o mundo estava para acabar. O centro da cidade fechou as portas e os taxistas tiveram trabalho dobrado – todos queriam passar os últimos instantes junto aos entes queridos.

Ao longo do programa, por duas vezes, uma vinheta entrou no ar explicando que se tratava de uma peça de ficção. De pouco adiantou. Quando o povo percebeu que tudo não passava de uma brincadeira, era tarde. O exército já havia invadido e lacrado a emissora, que ficou três dias fora do ar. “As pessoas ficaram com muita vergonha de terem sido enganadas, o que ajudou a esfriar o assunto”, explica Manoel Pereira, o responsável pelos assombrosos efeitos especiais. Para sorte da equipe da rádio, ninguém foi preso. E nem o mundo acabou.

Por Bruno Hoffmann