Histórias do Brasil

Só quando virou Milton, Bituca pôde entrar no clube da cidade

No fim do ginásio, Bituca foi o melhor aluno da turma e representou a classe como orador da formatura. Terminada a cerimônia, correram os formandos, alvoroçados, a se preparar para o baile de gala. Bituca, porém, pegou o diploma, a medalha, rumou para casa e fechou-se no quarto. O Clube Literário Recreativo Trespontano, da mineira Três Pontas, não permitia a entrada de negros em suas dependências.

Foi nesse dia que a proibição mais lhe doeu. Apesar de não ser a primeira vez que lhe atrapalhava a vida. Bem menino, lá pelos 14 anos, já tocava como profissional no conjunto Luar de Prata, mas não podia assistir às grandes bandas que passavam pela cidade. Ele e Dida, também músico e também negro, tentavam ouvir o som de cada instrumento sentados no banco da praça.

Bituca seguiu em frente. Fez colégio técnico em Comércio, já fora da cidade, e nunca abandonou a música. No 2° Festival Internacional da Canção, em 1967, consagrou-se Milton Nascimento. Travessia era a segunda colocada e ele, o melhor intérprete, recebia propostas de várias gravadoras. A Prefeitura de Três Pontas mandou um ônibus a São Paulo para buscar o cidadão ilustre, seu parceiro Fernando Brant e quem mais quisesse ir.

Chegando à cidade, Milton foi ovacionado pelas ruas. Para a noite, fina ironia, a Prefeitura organizara uma homenagem no tal Clube Literário Recreativo Trespontano. Por insistência da mãe, Bituca compareceu. Em tapete vermelho, passou pela porta que sempre lhe fora fechada.

Da Redação do Almanaque Brasil