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“David Bowie de Alagoas” tira músicas e poesias da gaveta para recuperar tempo perdido

Pela aparência física, há quem o chame de Mick Jagger de Alagoas. Mas Sebage refuta a comparação: “Se eu for alguma coisa de Alagoas, que seja o David Bowie”. Considera seu par britânico o nome mais importante da música mundial. Em menor escala, Sebage também modificou a cena artística de Maceió.

O músico e jornalista foi figura decisiva na década de 1980 para dar uma nova cara à produção cultural jovem maceioense, seja no teatro, na literatura ou, principalmente, na música. Hoje, depois de um longo período longe das artes, lança um álbum e um livro de poesias para retomar o tempo perdido.

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Sebage (foto: Dionísio Freitas/Divulgação)

Jorge Barboza, seu nome real, carrega uma melancolia discreta em relação aos tempos idos com o entusiasmo de seu novo momento musical. Sua carreira teve uma sequência de altos e baixos. Fã desde adolescente de Wanderléa, Rita Lee & Tutti-Frutti, Mutantes e do rock internacional, formou no início da década de 1980 – ao lado de mais de uma dezena de amigos da Universidade Federal de Alagoas – a irreverente banda Caçoa Mas Não Manga.

Tratava-se de um grupo musical de difícil classificação. A imprensa local topou o desafio e deu o carimbo de “a Blitz Caetés”, em referência à banda carioca liderada por Evandro Mesquita. “Nunca fizemos um só show que fosse para pouca gente”, relembra Sebage.

Bastou ouvir Let’s Dance, disco de Bowie lançado em 1983, para deixar as brasilidades um pouco de lado e voltar a se inspirar pela new wave internacional. Depois, The Cure e The Smiths o influenciaram a formar bandas de pós-punk. Algumas com nomes curiosos, como Sangue de Cristo e Cachorros da Família.

No fim daquela década, resolveu se mudar para São Paulo em busca de sonhos maiores. Sem conhecer muita gente do meio artístico, precisou voltar ao jornalismo. Trabalhou até no mítico Notícias Populares enquanto gravava algumas músicas, mas, devido à rotina das redações, não havia tempo para fazer a divulgação necessária.

Maceió o receberia de volta em 2005. A música seria deixada cada vez mais de lado. Uma pena para quem queria ser uma espécie de Patti Smith dos trópicos, conhecida como “a poetisa do punk”. A vida não deixou.

Agora, aos 56 anos, quer recuperar o que largou pelo caminho. Só em 2017 lançou Álbum de Família (Imprensa Oficial Graciliano Ramos), seu primeiro livro de poesia, e o álbum Beatnik (Crooked Tree Records), uma compilação de músicas feitas durante a carreira. Já prepara um novo trabalho musical, mais conceitual, para o ano que vem. Também está retornando aos palcos da capital alagoana.

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(foto: Hugo Taques/Divulgação)

“Quando dei por mim”, explica Sebage, “o tempo já tinha passado. Apesar de me saber velho, a sensação é de ter 27 anos de novo. Meus desejos essenciais estão de volta”.

Garante que vai gravar todas as canções que compôs durante a vida – folk, rock, punk, new wave – e tirar suas poesias da gaveta para novas publicações. “Serei o mesmo menino que ouvia Tutti-Frutti 40 anos atrás”, conta. “Hoje, não adio mais nada”.

Por Bruno Hoffmann