Brasil hoje

No Vaticano, brasileiro não entende cor de convite e acaba encontrando o papa

Parecia mentira. Ele, Diogo Albuquerque, ainda nem era padre e estava de viagem marcada para o Vaticano. Faltando pouco mais de um mês para ser ordenado, o jovem diácono de Caieiras, cidade de classe média baixa da Grande São Paulo, iria como convidado de um padre à celebração dos 50 anos do movimento da Renovação Carismática Católica.

Até pouco tempo antes, tal possibilidade, para Diogo, figuraria em algum lugar entre o sonho e o devaneio. Mas agora em 2017 era real, e tinha tudo para melhorar. O homem de 31 anos, porte de lutador de MMA, conseguiu também uma autorização para participar de uma missa ao lado do papa Francisco.

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Diogo Albuquerque (foto: arquivo pessoal)

Ele talvez ficasse longe do papa, talvez não tivesse a oportunidade de trocar uma única palavra, mas ele estaria lá, na mesma celebração daquele que é, para os católicos, o homem vivo com mais ligação entre a Terra e o Céu.

Ao tirar os convites para a missa de pentecostes do envelope, porém, Diogo se viu diante de um enigma. Seu bilhete tinha a cor creme. O do padre brasileiro que o acompanhava em Roma, laranja.

O papel que Diogo tinha em mãos mais parecia uma carta em branco para ele adentrar a sede da Igreja Católica como bem entendesse.

Não se tratava apenas de uma questão visual. As informações grafadas também destoavam bastante. No do padre, instruções bem claras a respeito de horário, local e vestes para participar da missa com o papa. O papel que Diogo tinha em mãos mais parecia uma carta em branco para ele adentrar a sede da Igreja Católica como bem entendesse. Não continha nenhuma das informações muito bem especificadas para o colega, superior na hierarquia clerical.

Precavido, o diácono chegou três horas antes do horário marcado. Às sete e meia da manhã de um domingo de junho, ele já estava no Vaticano. Lá, avistou os padres aguardando em uma longa fila para passar pelo detector de metais.

Diogo decidiu testar se o misterioso convite creme lhe conferiria algum tratamento diferente. Em vez de entrar na fila, abordou diretamente um dos tradicionais guardas suíços que ajudam na segurança local. A decisão se mostrou acertada: só precisava seguir reto, disse o guarda, e depois virar à esquerda, para adentrar o prédio administrativo onde, finalmente, alguém o orientaria sobre a participação na missa.

Bastaram, porém, poucos passos para um guarda do Estado do Vaticano – que não é um dos suíços – indagar o diácono sobre onde, afinal, ele achava que ia. O homem deixou claro que ele mandava no pedaço. Mas permitiu a entrada de Diogo. Já era uma grande vantagem em relação aos padres que, ali ao lado, torravam na fila doses cavalares de paciência cristã.

“Quando vi, eu estava no corredor que dá acesso direto à Basílica de São Pedro. O guarda pediu para eu seguir em frente, e de repente eu estava dentro da basílica.”

“Quando vi, eu estava no corredor que dá acesso direto à Basílica de São Pedro. O guarda pediu para eu seguir em frente, e de repente eu estava dentro da basílica”, conta Diogo. Mesmo maravilhado, ele não esqueceu: ainda precisava descobrir o que fazer para estar na missa com o papa.

“Era cedo e só tinham alguns bispos e guardas na basílica. Nem padres havia. Pedi informações de novo, e dessa vez me disseram que a sacristia dos diáconos aconteceria em frente à Capela do Santíssimo, passando a Pietá e o túmulo de João Paulo 2º”, lembra Diogo.

Quase tudo resolvido. De quebra, sobrava um tempinho para explorar a Basílica de São Pedro e rezar, na Capela do Santíssimo, pensando em tudo o que ele passara para chegar até ali. Abandonara uma graduação em Letras, uma bolsa de estudos, um bom emprego em um banco, a namorada.

“Mas eu ainda precisava encontrar alguém que falasse português para esclarecer onde eu pegaria a roupa para a missa, qual roupa seria e o que exatamente eu faria durante a missa”, explica. “E nada de chegar alguém. Eu ouvia tudo quanto é língua, menos português”.

O diácono apelou então à Nossa Senhora. Pegou seu terço e rezou por um anjo fluente em português. “Eis que três jovens de batina, também diáconos, vêm na minha direção. Pedi ajuda a um deles que, apesar de albanês, falava português. Nunca uma oração havia sido atendia tão rapidamente”, conta Diogo. Mas, apesar de prestativos, os jovens tampouco souberam elucidar o convite creme. O melhor a fazer seria aguardar um superior, sugeriram.

Não tardou a aparecer o monsenhor responsável pelos diáconos. De maneira ríspida, ele puxou um pedaço de papel da batina, consultou os nomes nele listados e cravou: o brasileiro não constava, e logo não havia nada a ser feito para ajudá-lo. Prestes a ver seu sonho virar uma sucessão de mal-entendidos, Diogo insistiu. Explicou que ele apenas acompanharia a missa, não faria parte da equipe de cerimoniários que participaria exercendo alguma função.

“Eu estava tão nervoso que nem percebi que estava de frente para a Pietá.”

“Então o monsenhor voltou atrás e mandou que eu esperasse ali. Eles iriam ensaiar para a missa e na volta me diriam o que fazer”, explica. “Eu estava tão nervoso que nem percebi que estava de frente para a Pietá.”

Agora bastava esperar. Uma pena que um guarda assistia a tudo de longe. Ele se aproximou e, ao saber que Diogo era um diácono, ordenou: lá não era seu lugar, ele deveria voltar à Capela do Santíssimo imediatamente.

Diogo solta um palavrão ao rememorar esse momento. Ele não podia acreditar no que estava acontecendo. Se saísse dali, o monsenhor não o encontraria. “Pensei: lascou tudo. Faltava menos de uma hora para a missa”. Mas o monsenhor voltou a tempo de evitar que o guarda o enxotasse. Poucos minutos depois, Diogo tinha em mãos as vestes litúrgicas necessárias à missa.

Foi então que o albanês surgiu cheio de suspense. O colega diácono, que já ajudara tanto Diogo, avisou: assim que ele o chamasse, o brasileiro deveria ir ao seu encontro. Não explicou o porquê.

Logo Diogo se viu com o albanês em uma capela lateral. Conversaram sobre amenidades, até que o colega fez uma revelação. O papa entraria pela porta diante deles. Em cinco minutos. E iria cumprimentá-los.

“Perguntei se ele estava brincando comigo e já comecei a chorar”, lembra o brasileiro. Um risco, porque, se chamasse muito a atenção dos demais, eles poderiam notar que Diogo, mesmo sem querer, era um intruso. Receber os cumprimentos do papa era um privilégio da equipe de cerimoniários. Não de quem, como Diogo, apenas acompanharia a missa.

O papa Francisco surgiu, e Diogo sentiu suas pernas bambearem. Ele queria pedir uma benção especial. Seria ordenado padre dali a poucas semanas. Não havia se preparado para dirigir a palavra ao papa. Afinal, até então as chances de isso acontecer eram quase tão remotas quanto as de uma criança que sonha em ser astronauta de fato pisar na Lua um dia.

“Mas, quando o papa ficou na minha frente, me olhou com tanto amor, com tanta acolhida, que desmontou todos os protocolos”, lembra Diogo.

“Mas, quando o papa ficou na minha frente, me olhou com tanto amor, com tanta acolhida, que desmontou todos os protocolos”, lembra Diogo. O albanês interveio decisivamente mais uma vez, contando ao papa que aquele diácono brasileiro se tornaria padre muito em breve e gostaria de uma benção especial.

“Então eu abaixei a cabeça e o papa colocou a mão nela. Nesse momento, senti a leveza da confirmação da minha busca”, diz o brasileiro. “Foi o carimbo de Deus dizendo: eu te escolhi.”

O teólogo preferido de Diogo é São Paulo. Recebida a bênção papal, ele descobriu o nome do diácono albanês: Paulo.

Diogo achou as mãos de Francisco incrivelmente macias. Firmes, porém. Ser tocado por elas é algo que muitos padres longevos, e famosos, jamais conseguem mesmo indo ao Vaticano durante a vida toda.

O teólogo preferido de Diogo é São Paulo. Recebida a bênção papal, ele descobriu o nome do diácono albanês: Paulo.

Diogo foi ordenado padre em uma pequena igreja do bairro de Laranjeiras, em Caieiras, no início de julho. Soube depois que brasileiros presentes no momento em que encontrou Francisco perceberam que ele não podia estar ali.

Reclamaram com Paulo por permitir que um estranho colocasse em risco a vida do papa. E se fosse um louco?

Paulo não deu bola. Diogo até hoje não sabe o que, exatamente, significava o creme do convite.

Por Daniel Lisboa, jornalista, escritor e autor do livro Aberrações Casuais (Editora Kazuá)