Brasil hoje

Opinião: O gol mais poético da história do futebol

Na infância, há a criação de lendas que vai acompanhar qualquer ser humano pelo correr da vida, mesmo após descobrir que o mito era de carne, ossos e erros. A minha era a seleção brasileira de 1970. Se eu conseguisse um recorte da revista Placar sobre a competição no fim da década de 1980, passaria a madrugada acordado para ver e rever cada palavra e cada foto. Nos aniversários da conquista, então, os lances poderiam ser relembrados pelo Globo Esporte ou pelo Show do Esporte. Lá estaria eu, de olhos abertos cinco horas antes do início dos programas, para não correr o risco de perder nenhuma imagem.

Se a Copa de 1970 era meu mundo da fantasia – e invejava profundamente qualquer sujeito mais velho só por estar vivo durante a competição -, o momento maior do Mundial, claro, era a final contra a Itália. E, dentro da finalíssima, nada batia o instante sublime do gol de Carlos Alberto, que sacramentou a terceira estrela sobre o distintivo da seleção.

O tento derradeiro é de uma beleza sem igual. Tudo começa com a sequência de dribles desmoralizantes de Clodoaldo contra atônitos italianos. A bola chega a Rivellino pela lateral esquerda que, paralelamente à linha lateral, lança a Jairzinho. Ele domina fácil e, como um cachorro bravo, parte para cima de outro italiano qualquer.

Depois, passa redondo para Pelé, que a domina com o pé direito. O Rei para a bola com a elegância de quem veste smoking. Um pouco menos elegante, na entrada da área, Tostão berra para o Rei, alertando sobre a entrada de Carlos Alberto. Pelé, sem olhar, rola a bola pela direita, que, caprichosamente, bate em um montinho que a eleva um pouco do solo a um milésimo de segundo da bomba indefensável de Carlos Alberto. É o gol mais poético da história do futebol.

A minha lenda da infância (e obrigado, Youtube, você é melhor que os recortes da Placar) é compartilhada por muita gente, muito mais séria do que eu, que vive a prestar loas ao maior acontecimento da história das Copas. O neurocientista Miguel Nicolelis, por exemplo, já comparou, em revistas científicas, o funcionamento do cérebro com a jogada do gol de Carlos Alberto. Em entrevista a este Almanaque, explicou:

“É o gol mais impressionante da história do futebol, principalmente por ter sido feito em uma Copa do Mundo. A jogada é uma propriedade que emergiu da colaboração dos jogadores. Um gol igual nunca vai sair de novo. No cérebro acontece o mesmo. A combinação de como os neurônios participam para gerar um comportamento ocorre muito provavelmente uma só vez na vida”.

Para o jornalista Sérgio Xavier Filho, “se a gente tivesse que resumir o futebol brasileiro em 40 segundos, a melhor ideia era mostrar o gol de Carlos Alberto”. Para o também jornalista Mauro Beting, “é o gol mais bonito das Copas. Uma obra coletiva tão bonita quanto aquela nunca mais vai ter”.

A escalação do time eu sabia de cor desde os oito anos de idade: Félix; Carlos Alberto, Britto, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson, Rivellino e Pelé; Tostão e Jairzinho (na minha cabeça sempre foi no 4-4-2, e assim permanecerá).

Desses, Everaldo se foi precocemente em 1974. Félix nos deixou em 2012. E, desde 25 de outubro de 2016, não temos mais Carlos Alberto. É estranho demais. Jogadores de futebol são super-heróis de muitas gerações e, como todos sabemos, super-heróis não devem morrer. Eles ajudaram a criar uma nação. Imagine o Brasil ser exatamente como é porém sem cinco Copas do Mundo. A auto-estima de parte do povo, que já não é lá essas coisas, seria inexistente, seria calculada em pontos negativos.

Não podemos mais perder nenhuma oportunidade de entrevistar nossos campeões mundiais. Homenageá-los dia sim, dia não, até eles pedirem pelamoderdedeus para deixá-los em paz. Devemos passear de mãos dadas com eles pelos parques e pagar-lhes um algodão doce para agradecer por estarem no imaginário de tantas gerações.

Para Carlos Alberto não poderemos mais.

Bruno Hoffmann é editor do Almanaque Brasil