Histórias do Brasil

Briga entre Noel e Wilson Baptista rendeu 9 clássicos da música nacional

No início dos anos 1930, Noel Rosa ouviu um samba chamado Lenço no Pescoço, gravado por Silvio Caldas. A canção era uma lavada exaltação à malandragem, com versos como Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho de ser tão vadio. Apesar de várias de suas composições se mostrarem simpáticas aos malandros, resolveu responder ao compositor, o jovem e então desconhecido Wilson Batista. Mas musicalmente. Nascia Rapaz Folgado, em que clama ao autor que compre sapato e gravata e deixe de lado a vida boa.

O que poderia parecer apenas um chega pra lá a um iniciante tinha, na verdade, outra motivação: o aspirante havia se envolvido com uma moça que Noel era muito interessado. Wilson, que de besta não tinha nada, viu na polêmica um atalho para o sucesso. Compôs então Mocinho da Vila: Injusto é seu comentário / Fala de malandro quem é otário.

E Noel decidiu dar um basta. Escreveu a definitiva Feitiço da Vila: Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba / São Paulo dá café / Minas dá leite / E a Vila Isabel dá samba. Acreditava que assim calaria de vez o adversário. Estava enganado.

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Capa do disco Polêmica, de 1956, que compilaria a briga musical entre os sambistas (imagem: divulgação)

O incansável Wilson compôs Conversa Fiada, obrigando Noel a replicar com a desmoralizante Palpite Infeliz: Pra que ligar a quem não sabe / Aonde tem o seu nariz? / Quem é você que não sabe o que diz?

E Wilson perdeu as estribeiras. Emendou a nada sutil Frankenstein da Vila, em alusão ao defeito que Noel tinha no queixo: Entre os feios és o primeiro da fila / Todos reconhecem lá na Vila. Aí Noel se magoou. Há quem diga que, furioso, foi de banca em banca comprar todos os exemplares do Jornal da Modinha, que havia publicado a letra.

Indagado se não teria passado dos limites, Wilson desconversou: “Noel era homem. Não há mal algum em chamar homem de feio”. Os dois ainda trocaram farpas com João Ninguém, de Noel, e Terra de Cego, de Wilson. Mas a briga que rendeu algumas das mais saborosas músicas da história nacional tinha chegado ao fim.

Por Bruno Hoffmann