Entrevistas

Rappin Hood: “A maior riqueza do Brasil é o povo brasileiro”

Um carro vermelho para abruptamente no meio de uma pacata rua da Vila Arapuá, em São Paulo, numa tarde nublada de quinta-feira. “Você é o Rappin Hood, não é? Sou muito seu fã. Posso tirar uma foto com você?”. O homem de meia idade recebe sinal de positivo, desce do veículo e consegue a selfie desejada após trocar algumas breves palavras de admiração.

Antônio Luiz Júnior, o Rappin Hood, 46 anos, é referência por aquelas bandas. Mora no bairro desde os 10 anos de idade, período que antecedeu seu sucesso nacional alcançado pela mistura entre rap, samba e boas pitadas de malícia. Também chegou aos quatro cantos como apresentador de programas de rádio e de tevê, como o Manos e Minas, da TV Cultura, que comandou entre 2008 e 2009.

Entre um aceno e outros gracejos com os vizinhos, o músico conversa com o repórter Gabriel Luccas e o coordenador editorial do Almanaque Brasil, Bento Andreato, num campo de futebol, onde relembra a carreira recheada de parcerias com grandes nomes da música brasileira. Não deixa de lado as opiniões políticas, que contrastam com sorrisos frequentes e uma maneira aparentemente suave com a qual leva a vida.

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(foto: Gabriel Luccas)

Rap abrasileirado
O hip hop ganhou força e identidade no Brasil no início da década de 1990, com o reconhecimento nas emissoras de rádio de nomes como Thaíde & DJ Hum e Racionais MCs. Rappin Hood chegou pouco depois como integrante do Posse Mente Zulu. Logo ganhou o mesmo respeito dispensado aos precursores do gênero.

Já tinha na bagagem uma boa dose de conhecimento musical. Seu pai o colocou para ouvir samba desde pequeno: Candeia, Aniceto do Império, Martinho da Vila, Jovelina Pérola Negra, Originais do Samba, Jorge Ben (“o samba rock é samba também”), entre tantos outros nomes. Aprendeu, ainda adolescente, a tocar trombone. Ao mesmo tempo, ficou encantado pelo rap e os bailes blacks que pipocavam pela cidade.

 

As suas primeiras misturas entre rap e samba se deram em rodas musicais do bairro. “Eu estava inserido no contexto do samba e passei a cantar o meu rap ali no meio. Não dava para ligar os toca-discos, então os sambistas diziam: ‘Canta o rap aqui no samba, mano. A gente faz a parada e você vai’. Começou ali, no improviso mesmo. Os caras mudavam o tom da batida do cavaco e eu começava a cantar”.

A fusão foi legitimada em todo o País ao gravar Sou Negrão, ao lado de Leci Brandão. No início da música, a sambista anuncia o que estava por vir: O rap é o novo partido. Rappin Hood é o partideiro. Salve o samba. Salve o rap brasileiro.

“Eu sempre gostei de misturar ritmos e colocar elementos da música brasileira, que davam uma cara peculiar ao que era feito por aqui. Lembro de levar essa esse rap numa fitinha cassete para ela. A Leci ouviu e me disse: ‘Vamos gravar eu e você, do mesmo jeito que você canta aí na sua quebrada’. A partir daquele dia a música explodiu e passamos a aparecer nos principais programas da mídia com essa mistura. Samba com rap. Essa é a parada!”, explica.

“O rap pode se misturar com qualquer gênero musical, da música clássica ao reggae. Mas no Brasil a influência do samba é muito forte. O samba é a batida natural brasileira”.

Ao ser perguntado pelo Almanaque se o futuro do rap passa pela união com o samba, afirma: “O rap pode se misturar com qualquer gênero musical, da música clássica ao reggae. Mas no Brasil a influência do samba é muito forte. O samba é a batida natural brasileira”.

Parcerias com figurões
A união de sons proposta por Rappin Hood se justifica, também, pelo convívio com diferentes figurões da música nacional. O rapper fala com empolgação de menino ao lembrar de quando conversou com Tim Maia em um camarim.

“Eu tinha uns 18 anos. Fui me apresentar para o Tim e ele me disse que já tinha ouvido falar de mim. O pessoal dizia que ele só andava chapado, mas o pensamento dele sempre estava à frente dos outros”, conta Hood, pouco antes de lembrar que teve reconhecimento parecido de Jorge Ben. “Os dois dominavam tudo que acontecia na música. Eram muito antenados com tudo”.

As parcerias com Caetano Veloso (em Rap du Bom Parte 2) e Gilberto Gil (em Axé) também não foram esquecidas. “O Caetano foi o primeiro a chegar em mim para gravar. Aí um dia o Gil reclamou: ‘E eu? Você só vai gravar com o Caetano mesmo?”, diverte-se.

Outro músico notório de quem se aproximou foi Bezerra da Silva. Recebeu elogios e conselhos para explorar a versatilidade que tinha dentro do samba durante um show que fizeram juntos em São Paulo. “Ele me dizia: ‘Continua fazendo do seu jeito. Se alguém reclamar de alguma coisa você manda falar comigo”.

O rapper da Vila Arapuá enaltece que houve quem fizesse o caminho contrário. Ou seja, sambistas que incluíram trechos de rap em suas canções, como Thiaguinho, Péricles e Xande de Pilares. Além dos dois primeiros, Hood ainda formaria parcerias com Arlindo Cruz, Jair Rodrigues, Mário Sérgio (do Fundo de Quintal) e Dudu Nobre.

“Racismo velado e revelado”
Tema recorrente no rap, os preconceitos social e racial também são abordados por Rappin Hood em várias frentes. Além de shows, o rapper discute os temas em palestras e reuniões do movimento negro, assim como no movimento punk, que, segundo ele, tem ideias semelhantes sobre a questão. Também afirma ainda sofrer discriminação mesmo com sua notoriedade nacional.

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(foto: Bento Andreato)

“O racismo no Brasil é velado e, às vezes, também revelado. Basta olhar o caso da Titi (filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank). O ser humano ainda não entendeu a diversidade. Mesmo com a fama, ainda existem pessoas que fazem questão de mostrar que não gostam de mim, de rap ou de negros. Mas isso é inspiração para continuar cantando e instruindo as novas gerações. O brasileiro é inteligente, se liga, dá um jeito e corre atrás”.

“A maior riqueza do Brasil é o povo brasileiro. E essas pessoas, em sua maioria, são negras. O País precisaria de um presidente negro. Alguém que pudesse enxergar as coisas por um outro viés”.

Hood cita o exemplo de Barack Obama à frente dos Estados Unidos como um avanço para a sociedade, e sonha ver algo parecido no Brasil. “A maior riqueza do Brasil é o povo brasileiro. E essas pessoas, em sua maioria, são negras. O País precisaria de um presidente negro. Alguém que pudesse enxergar as coisas por um outro viés. Uma pessoa assim saberia como trabalhar com esse povo. Seria um avanço.”, sentencia.

Mas não imagine ver o rapper com a faixa presidencial. Perguntado se pretende fazer parte diretamente da política, lembra rapidamente do desgaste da amiga Leci Brandão no meio e se esquiva. “Vish, me deixa fora disso”.

Por Gabriel Luccas