Histórias do Brasil

Anjo de Hamburgo burlou diplomacia para salvar mais de 100 judeus

Uma única brasileira tem seu nome no Bosque dos Justos, no Museu do Holocausto, em Israel. Em 1937, quando o papel da mulher quase nunca ia além de servir aos marido, Aracy de Carvalho salvou mais de 100 judeus alemães da câmara de gás ao facilitar a entrada deles no Brasil.

A paraense crescida em São Paulo e formada na Suíça passou por uma separação quando desquite era palavra fora do dicionário e da lei. Anos mais tarde, uniu-se ao escritor Guimarães Rosa, mas foi muito mais do que a mulher do autor de Grande Sertão: Veredas. Quem folhear o romance, aliás, notará a dedicatória: A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro.

Já sem o primeiro marido, aos 26 anos, Aracy embarcou em um navio com o filho pequeno nos braços. Filha de alemã, passaria uma temporada com a tia em Hamburgo. Lá conseguiu um emprego no consulado brasileiro, por dominar português, alemão, francês, espanhol e inglês. Seguia rotina burocrática na seção de vistos para imigrantes, até que uma circular secreta do Ministério das Relações Exteriores chegou a todos os funcionários do Itamaraty: a partir de 1937, o país presidido por Getúlio Vargas restringia a entrada de judeus em seu território. Era preciso evitar “pessoas perigosas para a segurança nacional” ou que “não interessavam à composição da raça brasileira”.

A partir daí, Aracy criou um arsenal de táticas mirabolantes para conceder visto aos perseguidos pelo regime nazista. “Ela defendeu que não estava lidando apenas com papéis ou categorias de visto, mas sim com seres humanos”, diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro. Uma forma de driblar as ordens era embaralhar muitos papéis para que o cônsul não percebesse o que estava assinando. Outra: conseguir passaportes sem o “J”, de judeu, para os imigrantes. Aracy chegou até a usar o carro consular para atravessar a fronteira da Alemanha com um perseguido do regime. Passou a ser conhecida como Anjo de Hamburgo e atendia gente vinda de diversas partes do país.

Guimarães Rosa, que além de escritor era diplomata, entrou na história quando assumiu o posto de cônsul adjunto na Alemanha em 1938. Conhecia os feitos de Aracy, sabia que eram perigosos e a apoiava. Relatos dão conta de que ele chorava com os judeus seus problemas e angústias.

A união de Rosa e Aracy teve início na Alemanha e continuou quando o país cortou relações com o Brasil na Segunda Guerra, em 1942. De volta à terra natal, Aracy manteve relações muito próximas com uma das alemãs que ajudou a exilar. Margarethe Levy falava sobre a amiga: “Ela tinha uma bondade enorme. Ajudou muitos judeus. Eu quis recompensá-la com presentes, mas ela não aceitava dinheiro de ninguém, eu sou testemunha”.

Da Redação do Almanaque Brasil