Entrevistas Literatura

Ferréz: “A literatura está na rua, como um bom despacho”

“Seria gostoso ser o escritor bucólico, com olheiras, chapéu panamá. Mas não dá, mano. O bagulho por aqui é agir para trazer mais gente para a literatura”. A frase, dita num misto de ênfase e bom humor, é a definição de Ferréz sobre a diferença entre os círculos tradicionais de escritores e os autores de periferia. Ou os da “literatura marginal”, como prefere definir o estilo do qual é um dos expoentes.

O Almanaque foi à Interferência, projeto social que mantém no Capão Redondo com atividades lúdicas e educativas para crianças. O editor Bruno Hoffmann e o coordenador editorial Bento Andreato passaram quase três horas com o autor de Capão Pecado (Planeta), livro lançado em 2000 e que levou o morador da zona sul de São Paulo à notoriedade nacional. E mundial.

Capão Pecado vendeu 110 mil cópias e recebeu ao menos 20 traduções. Por sua causa, o escritor conheceu mais de 45 países. Faz questão de sempre voltar ao Capão. Lá se considera importante e coleciona inspirações para suas novas histórias. Gosta, também, do jeito comunitário do qual as pessoas convivem. “Vou em festa de apartamento de amigo [de classe média] e o cara não sabe quem é o vizinho dele. Aqui todo mundo conhece todo mundo”.

Admirador de punk e de rap, Ferréz fala a sério sobre o papel da literatura em transformar mentes e realidades. Costuma mais negar do que aceitar os convites (que vêm do mundo inteiro) para entrevistas e participações em documentários. Sente que não pode falhar ao contar sobre o seu bairro, que chegou a ser considerado um dos mais violentos do mundo na década de 1980.

Além da literatura marginal, Ferréz também publicou obras infantis e sobre temas universais. Sempre volta, contudo, a descrever o seu lugar. Perguntado se acredita no Brasil, respondeu: “Eu acredito nas pessoas. As pessoas são boas demais”.

O que mudou no bairro de quando você escreveu Capão Pecado e agora?
É difícil falar, estive aqui o tempo inteiro. Mas vejo pouca evolução. Em relação ao ensino parece ter havido até uma desconstrução. Já vi escolas que eram melhores e hoje não estão tão boas assim. A Berrini [região nobre de São Paulo] evoluiu demais, mas a quebrada continua a mesma.

Mas a periferia não está reivindicando mais seus direitos?
Até mais ou menos um ano e meio atrás rolou um boom, todo mundo estava reivindicando, falando sobre esses assuntos pela internet. Depois, morreu. Claro que tem gente indignada em tudo o que é lugar na periferia, mas não sabe o caminho para agir. É muito louco que todos falam que deve haver um levante da periferia. Não tem levante da classe média ou da elite, por que tem que ter um da periferia? Dizem que são os nossos direitos que estão sendo perdidos. Mas vai respingar em todas as classes sociais, não somente para nós.

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(foto: Bento Andreato)

O que ansiava quando começou a escrever?
Eu era um moleque que tinha a grande pretensão e a loucura de achar que podia transformar o cotidiano das pessoas pela escrita. Ainda continuo com um pouco desse moleque aqui dentro. Permaneço acreditando que a palavra, a literatura, a música e as artes em geral mexem em alguns portais e abrem caminhos. A arte transforma você em uma nova pessoa. Ela tem essa coisa maravilha de você respeitar a vida do outro porque respeita a sua primeiro. Seja nascendo no Capão ou na avenida Paulista, se se entender como ser humano você trata bem o outro. Esse ensinamento, porém, muitas vezes não chega.

Por que defende o termo literatura marginal?
Porque marca território. Alguém pode falar que é algo estereotipado. É estereótipo, sim, tio. Tem estereótipo para tudo. Por que o samba chama samba? Por que o rap chama rap? Por que não chama só música? Porque o cara quer saber se vai num show de rap, num show de samba ou num show de rock. A elite sempre criou vários jargões. Quando chega a nossa vez não se pode? Nós não somos literatura contemporânea, literatura da geração noventa ou literatura do novo século do Brasil. Nós somos literatura marginal, que veio da margem. E é a margem que enche os rios.

Quais são os escritores marginais brasileiros que surgiram antes de você?
Plínio Marcos era um deles. Era tido como um cara independente do teatro que enchia o saco dos outros para vender livros na rua. As pessoas não sabem da importância de Plínio Marcos. Também não sabem a importância de João Antônio, que foi um cara esquecido no Brasil. Quando fui para a Alemanha, fiz uma camiseta com um texto dele. Eu devo muito ao João Antônio e ao Plínio Marcos, que vieram antes e nunca fora legitimados como uma literatura autêntica brasileira. Há também a Carolina de Jesus, a grande rainha da literatura marginal. Uma mulher fenomenal e também relegada.

Nós somos um país em que a literatura estrangeira está bem exposta na livraria, mesmo que seja horrível, e a brasileira está perto do banheiro.

O Brasil, então, põe em segundo plano sua própria literatura?
Hoje, as livrarias brasileiras têm oito ou nove traduções atuais de O Diário de Anne Frank. Versão encadernada, versão de capa mole, versão de não sei o quê. Tem até em bancas de jornal. Mas não se encontra um livro da Carolina de Jesus recém-lançado. A gente não valoriza nem o nosso próprio sofrimento. Nosso complexo de vira-lata é tão enraizado que não se reconhece nenhum tipo de cultura nossa e só consegue valorizar a estrangeira. É triste. Não estou sendo nacionalista, o Brasil não merece que seja nacionalista. É apenas saber o valor que a arte tem, aquele sofrimento, aquela labuta. Nós somos um país em que a literatura estrangeira está bem exposta na livraria, mesmo que seja horrível, e a brasileira está perto do banheiro. Estamos nos destruindo e perdendo tempo usufruindo de uma pseudo-arte, sendo que temos uma arte maravilhosa em tudo. A arte reflete o povo, e o povo é maravilhoso.

O que diferencia a literatura marginal da feita pelos círculos tradicionais?
A literatura marginal é viva. Não tem isso de “meu público está devagar, vou desistir”. Nós somos de combate, mano. Tenho 20 anos de carreira combatendo e insistindo. De chegar num moleque e falar: “Ó, irmão, vamos que vamos, vai dar certo”; “Mas eu não gosto de ler, dá dor de cabeça”; “Então vamos melhorar essa cabeça aí, mano”. Quando fazemos uma palestra ou um evento, vamos naquele pique de “vem com nós”, mesmo que só tenha cinco pessoas. Tem autor que, se tiver cinco pessoas, não faz o evento. Volta para a casa depressivo. Nós não temos tempo para ser depressivos. Eu queria que desse tempo. É gostoso ser o cara bucólico, com olheiras, chapéu panamá. Mas não dá, mano. O bagulho por aqui é agir para trazer mais gente para a literatura.

Quais têm sido os resultados dessa insistência?
Quando rola evento com os autores das quebradas, como o Alessandro Buzzo, o Edson Veóca e o Ni Brissant, por exemplo, sempre tem público para ver os caras. São motoboys, motoristas, cuidadoras de idosos e faxineiras que se identificam com essa literatura. Os maiores leitores de poesia hoje estão na periferia. Não tem nenhum lugar de elite que junte 300 pessoas para ouvir um texto, ainda mais de alguém que não é conhecido. Duvido uma palestra com escritores na Livraria da Vila [localizada na Vila Madalena] dar mais de 60 pessoas.

O moleque pode se identificar com um escritor de boné e tênis e pensar: “Se esse cara escreve por que eu não posso ler?”. É tirar a literatura do castelo de marfim e devolver para onde veio: a rua.

Como incentivar a leitura na periferia?
Existem várias formas para fazer um moleque ler. A poesia é uma grande arma. Outra é trocar uma ideia e provar que o escritor não é alguém cheirando a naftalina, de barba branca, que morreu há 100 anos. É mostrar que a literatura está viva e que ele consegue trocar uma ideia com o autor. O moleque pode se identificar com um escritor de boné e tênis e pensar: “Se esse cara escreve por que eu não posso ler?”. É tirar a literatura do castelo de marfim e devolver para onde veio: a rua. A boa literatura sempre veio da rua, de Dostoiévski a Bukowski. Ou Tchekhov, João Antônio e Gorki. É louco quando o texto vem da rua e você consegue devolvê-lo para a rua. A literatura está na rua, como um bom despacho.

Os escritores de periferia convivem pouco nos ambientes de literatura da classe média, não?
Os escritores antigos, que já morreram, ficavam reclusos. A periferia também é uma reclusão, porque não estamos envolvido com a elite. Quando aparece alguém da elite por aqui a gente até prepara um café. Não porque vou pagar um pau para alguém vir na minha casa, mas porque é um milagre. Quase não aparece. Ninguém liga para a periferia se não pode extrair nada dela. Então os escritores de periferia convivem entre os nossos. Por isso nosso trabalho acaba sendo diferente. Não posso falar que é a mesma literatura de um cara que está escrevendo em Copacabana.

Quem mais lê seus livros, a elite ou os mais pobres?
‘Tá uma briga, mano. Eu vejo muito moleque de quebrada falando dos meus textos, outras periferias me procuram para palestras, porque algum texto cativou os alunos. Tem muita gente na elite também que sente uma atração. Se a sua literatura não é boa ela não retrata ninguém.

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Tatuagem de Ferréz em homenagem ao ativista sul-africano Steve Biko

O que mais e menos gosta de viver aqui?
O que mais gosto é que em qualquer lugar que encostar você vai tomar um café, o cara vai te chamar para almoçar, você vai entrar na casa dele. Não há esse individualismo que boa parte da classe média e da elite têm. Vou em festa de apartamento de amigo e o cara não sabe quem é o vizinho dele. Aqui, não. Todo mundo conhece todo mundo e sabe da vida de todo mundo. E o que mais odeio: todo mundo sabe da vida de todo mundo, todo mundo te chama para casa para tomar café (risos). Serve para os dois lados. Às vezes estou lendo Dostoiévski e tenho que parar porque chegaram 10 pessoas na minha casa. Eu não gosto de ir na casa dos outros? Na minha as pessoas também vão.

Você acredita no Brasil?
Eu acredito nas pessoas. As pessoas são boas demais. Se a gente não tem uma calamidade pública é porque as pessoas são boas. Quem ganha mil reais dá um dinheirinho para comprar um frango para a vizinha. Se ajuda a remover o entulho do de cima para não cair no barraco do debaixo. A gente vive se ajudando, trocando, se fortificando, e se atrasando também, que faz parte. Quando existe muita proximidade você também atrasa o outro. Todo esse caldo cultural que deixa a gente sobreviver. A gente só está vivo por causa disso. O sistema abandonou a gente faz tempo. Tudo o que o sistema faz para a periferia é para matar. As favelas foram criadas para a gente morrer nelas. Não foi para viver, para fazer quadro, para fazer cultura, para fazer fanzine, para fazer música, para fazer nada. Era para morrer. Só que deu errado…

Qual é o livro da sua vida?
Difícil… Esses dias me deparei de novo com A Batalha da Vida, de Maximo Gorki. Que livro bonito, que livro bonito… Como ele foi digno de escrever tudo aquilo enquanto trabalhava, e por isso se chama A Batalha da Vida. Gorki é fantástico.

Por Bruno Hoffmann