Entrevistas

Claudia Zuppini: “Todos têm o direito de receber uma educação de alto nível”

Como diretora de uma escola pública na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, a pedagoga Claudia Zuppini Dalcorso conseguiu transformar positivamente o cotidiano dos professores e alunos. Chegou a conquistar o prêmio Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita, em 2007. Uma série de decepções, porém, a fez sair do ensino público e criar a Elos Educacional ao lado da parceira Silvana Tamassia, que desde 2011 auxilia professores e gestores do setor em todo o País.

A Elos Educacional – criada com apoio da Fundação Lemann – é uma consultoria educacional que forma professores e equipes de direção com ênfase na gestão e na prática em sala de aula. Já ajudou a formar quase 18 mil gestores e docentes de 3.248 escolas, com impacto em 1,7 milhão de alunos de 24 estados brasileiros. Ela própria não para de estudar. Formada em Pedagogia e especializada em Ensino Fundamental e Gestão Escolar, é mestre em Educação e está a caminho para se tornar doutora.

A autora dos livros O Planejamento Estratégico – Um instrumento para o gestor de escola pública e Formação de Professores (ambos pela Paco Editorial), Claudia conta nesta entrevista ao Almanaque como a educação pública no País pode se desenvolver, suas inspirações na área e o perigo do educador tirar a confiança dos alunos – principalmente os que vivem em bairros periféricos.

Perguntada se acredita que o Brasil pode se tornar um país melhor, garante: “Eu acredito muito. É exatamente por isso que trabalho com educação”.

Você começou sua carreira como gestora em uma escola pública. Era um desejo inicial?
Sempre estudei em escola pública e fui professora de escola pública. Reconheço a importância da escola em minha vida e na de tantas outras pessoas. Desejava ser diretora para poder transformar a escola em um lugar de mais qualidade e participação popular, da maneira como sonhava. Só pude iniciar o curso superior em Pedagogia aos 29 anos – antes, não tinha condições financeiras de estudar. Logo me especializei em administração escolar. Em 2001, assumi a direção de uma escola de 700 alunos e três turnos na periferia de Santo André.

Quais foram os desafios?
Eram imensos, pois o despreparo dos profissionais e o desejo de mudança em educação ainda são incipientes pelo tamanho do trabalho que isso dá para fazer. Depois de cinco anos nesta escola fui transferida para uma mais desafiadora ainda, com 1.200 alunos, três turnos, em um bairro mais pobre ainda que a primeira, também em Santo André. Foi nessa escola que ganhamos o prêmio de Escola Nota 10 Victor Civita, em 2007.

O que tirou dessa experiência?
Trabalhar como diretora foi o maior aprendizado profissional que pude ter. Acredito muito no poder de transformação que este cargo possui dentro de uma escola, e hoje continuo estudando o papel da gestão na educação pública.

O que mais te encanta quando o assunto é educação pública?
O que me move profissionalmente é poder fazer parte do processo de aprendizagem de uma criança, jovem ou adulto. Tive muitos problemas familiares na minha infância e poderia ser considerada o que tantos profissionais da educação equivocadamente rotulam como crianças de famílias desestruturadas. E, por isso, desacreditam na capacidade de aprendizagem delas. Aprender é transformador, mudou a minha vida, e é isso que a escola pública deve fazer na vida de cada criança, jovem ou adulto que está sob sua tutela. O que mais me encanta é a capacidade que este espaço pode ter de transformar a vida das pessoas. O que precisa melhorar é nossa crença. Devemos acreditar que todos têm o direito de receber uma educação de alto nível de qualidade.

Qual mal que um rótulo negativo pode trazer à formação de crianças de periferia?
Quando rotulamos nossas crianças pela sua condição social as condenamos ao fracasso escolar. Isso contamina o ambiente dentro da escola e sua cultura. Devemos proporcionar um ambiente de qualidade, limpo, organizado, respeitoso e digno para todos os alunos, e isso é o que eu fazia como diretora.

Por que saiu da educação pública?
O trabalho que realizamos na última escola em que fui diretora foi maravilhoso. Porém, o cargo que eu tinha era por indicação. Com a mudança de prefeito, ele tirou toda a direção da escola e colocou outros profissionais, com critérios políticos. Achavam que eu tinha muita influência com a comunidade e não fui considera apta para continuar no cargo.

Como se sentiu?
Este fato foi muito decepcionante para mim, muito mesmo. Na época eu era muito ingênua, acreditava que todos os resultados positivos seriam levados em consideração, como um prêmio de reconhecimento nacional, melhora no índice do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), melhora na aprendizagem dos alunos, engajamento dos professores e comunidade. Nada disso, porém, foi levado em consideração. Infelizmente, essas situações ainda é muito forte em nosso País.

Foi, então, que você resolveu criar a Elos Educacional?
Exatamente. Com a decepção, resolvi seguir com a minha carreira em educação por outros caminhos, não mais no serviço público. Comecei com o mestrado e depois, com o apoio da Fundação Lemann, eu e a minha sócia Silvana Tamassia abrimos a Elos Educacional em 2011. Hoje, a Elos já formou 17.834 gestores e professores, 3.248 escolas, impactando 1.700.00 alunos em 24 estados brasileiros.

Quais são as suas referências na área de educação?
Celso Vasconcelos, Heloisa Lück, Marcos Masetto, Telma Weiz, Antonio Nóvoa, Zabalza, Imbernón, Bernadete Gatti, Pedro Demo, Mario Sergio Cortela, Hanna Harendt, Michael Apple, Rui Canario, Vera Placco. Se eu for pensar mais um pouco a lista vai aumentar…

O Almanaque tem como patrono Câmara Cascudo, que dizia que o melhor do Brasil é o povo brasileiro. Acredita também nessa afirmação?
O mais importante em tudo são as pessoas, sempre. Devemos acreditar no seu potencial e investir na educação. Eu acredito na capacidade do brasileiro de se reinventar, de se superar. Desejo muito que tenhamos um futuro com políticos que acreditem nisso e valorizem o seu povo.

Você acredita que podemos ser uma nação melhor?
Eu acredito muito. É exatamente por isso que trabalho com educação.

Quais são as personalidades brasileiras que você mais admira?
Mario Sergio Cortella, que foi meu professor e tive o privilégio de conviver com ele. Uma pessoa íntegra, sábia e coerente em viver na prática o que diz em seu discurso; Denis Mizne, fundador da ONG Sou da Paz e diretor da Fundação Lemann, um visionário e grande apoiador das causas da educação; José Francisco Soares, o Chico Soares, professor e matemático que esteve à frente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Suas ideias são uma referência para mim; e Taís Araújo, por sua luta pelas mulheres e pelos negros. Hoje, ela nos representa na ONU como uma das 100 mulheres negras mais influentes do mundo.

Por fim, o que você espera para os próximos anos na educação brasileira?
Eu espero que a nova Base Nacional Curricular seja implementada em todas as escolas, garantindo o direito de educação de qualidade para todos os nossos alunos de ponta a ponta do País. Gostaria que a arrogância e o conflito de egos que predominam nos intelectuais da educação se rendam ao bom senso para que possamos progredir para uma educação mais equitativa com qualidade, a favor dos alunos e não a favor de interesses pessoais.

Por Bento Andreato