Entrevistas

Helena Singer: “Sonho que toda escola seja um ponto de cultura”

O Brasil erra ao manter um projeto educacional quase igual em todas as suas cidades e regiões – e, pior, inspirado em modelos importados, sem se ater às realidades culturais e sociais do País. Com essa convicção, a doutora em sociologia Helena Singer se dedica há décadas em criar uma educação brasileira, inovadora e transformadora. “Não se pode querer ter uma mesma escola na Chapada dos Veadeiros e na avenida Paulista”, explica.

Singer se destacou por seu trabalho como consultora em projetos de pesquisa e formação em educação e inovação social. Entre muitas atividades na área, em 2015 se tornou assessora especial do Ministério da Educação (MEC), quando mapeou as escolas transformadoras em todas as regiões do País. Ela revela – diferente do acreditado pelo senso-comum – que a maioria dessas instituições inovadoras é pública, não particular.

A autora de livros sobre educação e Direitos Humanos explica que o modelo educacional atual vai ruir em pouco tempo e que o ambiente escolar deve se preocupar não apenas com o futuro, mas, sobretudo, com o presente das crianças e adolescentes.

As instituições de ensino, explica ela, não devem separar a educação da cultura local. “Essa dissociação entre cultura e educação é um equívoco tremendo. Devemos apostar na cultura brasileira como uma fonte para a educação das novas gerações. Aí, sim, teremos um projeto de País bacana”.

A educação é o caminho para criar um futuro melhor ao Brasil?
Não é a única salvação, mas é fundamental que se reconheça sua importância no processo de um projeto de País. E, sempre digo, o importante é que se faça um projeto de educação brasileiro. O projeto por aqui foi universalizado a partir dos países do norte, sem levar em conta a nossa cultura. O Brasil não cabe nesse currículo escolar e nas estruturas burocráticas das nossas escolas. A educação vai ser realmente um vetor de transformação quando o País reconhecer tudo o que vocês do Almanaque reconhecem: a riqueza da cultura brasileira como a grande ferramenta da educação. Essa dissociação entre cultura e educação é um equívoco tremendo. Devemos apostar na cultura brasileira como uma fonte para a educação das novas gerações. Aí, sim, teremos um projeto de País bacana.

Escola é um lugar de produção de conhecimento e de cultura. Deve refletir o lugar onde está e, assim, fazer um processo de socialização das novas gerações dentro da sua cultura. Nenhuma escola transformadora é igual a outra.

Quais são as características das escolas transformadoras?
Uma delas é justamente valorizar os conhecimentos da cultura brasileira e fazer um diálogo com a acadêmica. Também são instituições que reconhecem a comunidade em que estão e que, portanto, são completamente diferentes uma das outras, como deve ser. Não se pode querer ter uma mesma escola na Chapada dos Veadeiros e na avenida Paulista. Não faz sentido algum. Escola é um lugar de produção de conhecimento e de cultura. Deve refletir o lugar onde está e, assim, fazer um processo de socialização das novas gerações dentro da sua cultura. Os jovens são estimulados a serem mais empáticos e a se reconhecerem como agentes transformadores do seu lugar. Nenhuma escola transformadora é igual a outra.

Um dia o Brasil terá uma maioria de escolas transformadoras?
O Brasil já traz uma grande contribuição nessa área. Por ser um país com uma enorme diversidade geográfica, cultural e social, temos uma quantidade de instituições que desenvolvem seu projeto pedagógico diverso o suficiente. Temos escolas transformadoras públicas e privadas, budistas, quilombolas, indígenas, em periferias, no campo e na cidade. Mas essas instituições só vão se tornar acessíveis para todos quando tivermos políticas públicas que as favoreçam. São, na verdade, duplamente vitoriosas. Porque criaram um projeto pedagógico inovador e ainda lutam contra uma série de obstáculos do sistema de avaliação, de financiamento e de regulação do sistema escolar. A gente precisa tirar esses obstáculos e criar novas possibilidades para torná-las acessíveis a toda a população.

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Helena Singer (foto: Bento Andreato)

Como foi sua passagem pelo MEC?
A experiência foi muito boa. Eu pude liderar uma iniciativa para inovação na educação do País. A gente partiu não de um projeto de inovação que fosse disseminado no Brasil todo, mas justamente da premissa de que o brasileiro é criativo o suficiente e, portanto, deveria inovar nos diversos contextos do País. Fizemos uma chamada e não nos surpreendemos ao receber centenas de inscrições em pouquíssimo tempo. Reconhecemos quase 200 instituições inovadoras no País, em diferentes contextos. Foi uma experiência muito bonita, apesar do momento complicado de crise política.

Como está a educação brasileira comparada ao resto do mundo?
Ainda estamos numa posição ruim. No rankings internacionais, o Brasil vai muito mal. Isso também não nos surpreende. Esse projeto de educação que o País implantou não se adequa à cultura brasileira. Além disso, nunca houve uma verdadeira vontade política de fazer um projeto educativo de qualidade para o País. O resultado, indiscutivelmente, é que a qualidade da educação brasileira não é boa. Os estudantes não se sentem aprendendo, os pais não acham que os filhos estão aprendendo o suficiente e os professores não estão satisfeitos com o trabalho. Em geral, o Brasil não está contente com a sua educação.

Não é necessário ter mais recursos ou infraestrutura para inovar. Claro que todas as escolas precisam de infraestrutura e bons salários para sua equipe, mas não é essa a questão que impede ou garante a inovação.

Há um entendimento que grande maioria das escolas com educação inovadora é particular? É correta essa afirmação?
É um engano. Nessa chamada do MEC, com participação de escolas e de instituições educativas não formais, metade eram públicas, metade privadas. E o número de professores e alunos em instituições públicas é bem maior. Não é necessário ter mais recursos ou infraestrutura para inovar. Claro que todas as escolas precisam de infraestrutura e bons salários para sua equipe, mas não é essa a questão que impede ou garante a inovação.

Quem é o responsável por tornar uma escola inovadora: o diretor, os professores ou a comunidade?
Começa de diferentes formas. Mas o papel de liderança do diretor é insubstituível. Ele pode não ter começado o processo, mas se não assumir o projeto, dificilmente vai liderar a equipe e a comunidade a um caminho sustentável de inovação. As transformações não são fáceis, não são da noite para o dia. Demora algum tempo e, por isso, precisa de uma equipe que permaneça na escola. A escola pública, porém, costuma ter uma rotatividade muito grande de professores. Esse fato impede que os professores se vejam como uma equipe. É básico haver uma equipe que permaneça na escola tempo suficiente para desenvolver essa proposta.

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(foto: Bento Andreato)

Essas escolas pretendem criar alunos que aprendam a refletir no futuro, não apenas a se adequar ao mercado de trabalho, não?
Não só no futuro. Há uma forte característica das escolas transformadoras e das famílias que põem seus filhos nessas instituições de reconhecimento que agora, no presente, as crianças e os adolescentes têm um papel a desempenhar na sociedade. Como a empatia, a forma de lidar com outro e, também, a forma de intervir e transformar a realidade. Essas escolas não estão focadas em formar o cidadão para o futuro, mas em já se colocar como instituição transformadora da realidade de sua comunidade em diversas escalas, com estudantes, professores, pais e funcionários.

O formato escolar, do jeito que a gente conhece hoje, está com os dias contados. Não atende mais às necessidades da sociedade.

Acredita que o Brasil vai passar a pensar seu ensino de uma forma diferente do que faz hoje?
O Brasil e o mundo inteiro. O futuro que as escolas tradicionais prometem aos nossos filhos não existe mais. Elas prometem vantagem competitiva em processos seletivos e em carreiras determinadas, e tudo isso está ruindo ou em transformação. Mesmo as certificações universitárias não são mais como antes. Hoje em dia, é possível se formar em qualquer universidade do mundo por ensino à distância. As carreiras não existem mais. As pessoas vão ter diferentes carreiras ao longo da vida, e as profissões que as crianças atuais vão desempenhar sequer existem hoje. Essa mudança no mundo, gostando ou não, é uma transformação na educação. O formato escolar, do jeito que a gente conhece hoje, está com os dias contados. Não atende mais às necessidades da sociedade.

O que você viu durante sua trajetória na educação que te encantou e que te faz continuar?
Me encanta toda vez que entro numa instituição e as crianças pequenas me apresentam a escola. É algo que demonstra que o espaço, o horário e o currículo fazem todo sentido para quem está ali. Se uma criança é capaz de explicar como é a escola, é porque foi algo amplamente discutido e fez sentido para todo mundo. Me encanta também quando vejo uma escola que está numa área de ocupação, as famílias estão sob risco de despejo, e a instituição se coloca como um agente público – porque é isso que ela é – de discussão da realidade, e então faz com que o ensino de português, matemática, história e geografia tenha a ver com o que os jovens vivem. Presenciei também escolas do alto do Rio Negro que assumem a cultura indígena, com seu próprio idioma e jeito de levar a vida. Esses alunos não precisam negar serem indígenas para serem escolarizados. Ou a escola Luiza Mahin, na Bahia, que está em uma comunidade negra e valoriza o nome de uma liderança feminina negra. Há histórias muito bacanas pelo País.

Qual seu grande desejo para a educação no Brasil?
Eu sonho que um dia toda escola seja um ponto de cultura. Já existem algumas no Brasil. Essa política dos pontos de cultura foi revolucionária no País, realmente reconheceu a nossa produção cultural diversa. Imagine se todas as escolas, que é o equipamento público mais espalhado e acessível a toda a população, fossem pontos de cultura. Espaços apropriados pela comunidade para o desenvolvimento do seu lugar. Seria algo de grande potência para um projeto de desenvolvimento do País.

Por Bento Andreato