Histórias do Brasil Musica

Gilberto Mendes quis beijar o chão da Bahia ao ver filme nos Estados Unidos

O maestro e compositor santista Gilberto Mendes foi um dos pioneiros da música concreta brasileira, um estilo que flertava com a poesia concreta, em voga no País na década de 1960. Professor universitário da USP e da PUC-SP, logo ganhou reconhecimento internacional e foi convidado na década de 1970 a passar um ano na Universidade de Wisconsin, em Milwaukee, nos Estados Unidos, na qualidade de professor visitante.

O músico foi todo feliz para a potência do norte. Era grande admirador da canção negra americana, que, explicava ele, influenciou desde o tango argentino até a música caribenha. Passar uma temporada em terras estrangeiras como professor universitário faria bem para seu desenvolvimento pessoal e sua carreira, acreditava.

Nos primeiros dias, fez amizade com uma freira norte-americana admiradora da cultura brasileira. Ela o convidou: “Está passando um filme brasileiro no cinema, vamos ver?” Era Dona Flor e seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. Havia cenas picantes, que deixou Mendes constrangido. “Eu estava com uma freira ao meu lado vendo aquela dupla do filme na maior esfregação”, divertia-se.

Para o músico, que estava há poucos tempo na cidade e ficaria ainda um ano longe de seu país, ver sua terra na telona causou uma das maiores emoções da sua vida. “O drama desse filme é que aparece a Bahia, aparece o Brasil. Eu tive uma saudade do Brasil que me comove até agora de falar. Uma saudade física”, explicou em um documentário sobre sua vida de 2012. “Eu quis entrar na tela e beijar o chão, beijar as paredes, beijar as palmeiras”, contou, entre lágrimas.

Se foi feliz para os Estados Unidos, voltou ainda mais para o Brasil no ano seguinte. Visitaria ainda dezenas de países, mas apenas para receber homenagens por suas composições. “O exterior é legal mas acaba cansando. Eu sou de Santos, uma cidade tropical. Quero ficar conhecido como Gilberto de Santos”, dizia. Continuou a produzir sua obra – sempre com temática brasileira – até o fim da vida, em 2016, quando morreu em solo nacional aos 93 anos.

Por Bruno Hoffmann