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Heleno de Freitas, o craque que gostava de jazz e Dostoiévski

Heleno de Freitas não marcou época no futebol apenas por ser um dos mais habilidosos craques do Botafogo e um dos maiores artilheiros do clube, com 204 gols em 233 partidas. Entrou mesmo para a história por seu comportamento dentro e fora de campo. De família rica, estudara Direito antes de se tornar jogador. Era boêmio, galanteador e boa pinta. Adorador de jazz e de Dostoiévski.

Mineiro de São João Nepomuceno, estreou no time profissional do Botafogo em 1937. Rapidamente chamou a atenção por sua postura elegante em campo e por seu estilo corajoso de enfrentar beques de todos os tamanhos. Logo também mostrou que era difícil de lidar. Bastava receber um passe errado que saía esbravejando. Não poupava sequer o treinador.

Gostava de frequentar cassinos, andar com carros caros e estar ao lado de belas mulheres. Quando soube que o craque iria se casar, Vinicius de Moraes dedicou-lhe um escrito, Poema dos Olhos da Amada. Em campo, era dado a arrumar polêmica com os torcedores adversários. Certa vez, num jogo contra o Fluminense, fez um belo gol de cabeça (uma de suas especialidades), sacou um pente do bolso e arrumou as madeixas. De tanto provocar as torcidas, um dia passou a receber o troco. Um filme fazia sucesso à época: Gilda, protagonizado por uma mulher desbocada e considerada meio histérica, vivida por Rita Hayworth. Toda a vez que Heleno pegava na bola, a torcida adversária gritava, enfurecendo o atacante: “Gilda! Gilda! Gilda!”.

Heleno teve boas passagens pela seleção. Mas, um ano antes da Copa de 1950, brigou feio com o técnico Flávio Costa, que o deixou fora da convocação. Em 1949, também deixaria o Botafogo, sem conquistar um só campeonato. A saída de seu clube do coração aconteceu após suspeitarem que sofria de alguma doença cerebral. Genioso, nunca quis saber de ir ao médico. Transferiu-se para o argentino Boca Juniors, onde ficaria apenas sete meses – tempo suficiente para se tornar amigo da família Perón. Passaria ainda por Vasco, pelo colombiano Junior de Barranquilla – onde até hoje há uma estátua em sua homenagem – e pelo América carioca. Ao abandonar os gramados, cedeu aos apelos e procurou um médico.

Os exames atestaram que estava com estado avançado de sífilis cerebral, o que explicaria suas constantes irritações. A família o internou num asilo em Barbacena, onde morreria aos 39 anos. Numa crônica antológica, Armando Nogueira o definiu: “O futebol, fonte das minhas angústias e alegrias, revelou-me Heleno de Freitas, a personalidade mais dramática que conheci nos estádios deste mundo”.

Por Bruno Hoffmann