Entrevistas

Repórter iniciante foi a primeira jornalista a entrevistar Drummond

O poeta Carlos Drummond de Andrade completaria 75 anos em 31 de outubro de 1977. Natural que parte da imprensa preparasse reportagens para celebrar a data redonda. Só havia a certeza que ninguém o entrevistaria. O poeta não abria sua casa e intimidade nem aos amigos próximos, o que dirá a jornalistas. Nunca dera uma entrevista à imprensa. Neste ano, porém – e até hoje não se sabe bem por quê -, Drummond aceitou receber uma repórter iniciante em seu apartamento na zona sul do Rio.

A protagonista da façanha foi Nanete Neves, então com 24 anos, jornalista recém-formada. Ela trabalhava em um jornal paulistano chamado Shopping News. O editor resolveu enviar um repórter à capital fluminense para uma reportagem especial. A missão, porém, não era falar com o poeta, mas com as pessoas que o cercavam.

Houve um sorteio entre 10 jornalistas para decidir quem iria ao Rio, e Nanete ganhou. Ela sabia quem era Drummond mas não tinha intimidade alguma com sua obra. Alguém da redação lhe passou o telefone do jornalista e escritor José Louzeiro (que morreu recentemente, em 29 de dezembro de 2017), amigo do poeta. Nanete ligou a Louzeiro, e recebeu uma tempestade de água fria: “Falar com o Drummond é impossível, nem pense nisso! Mas venha direto do aeroporto para cá e vejo como poderei te ajudar”.

No dia seguinte, a repórter fez o combinado. Louzeiro lhe passou contatos de amigos que poderiam falar sobre a obra do autor de No Meio do Caminho: Ferreira Gullar, Nélida Piñon, Antonio Callado, Affonso Romano de San’Anna, Antônio Houaiss e Pedro Nava. Ele voltou a destacar que falar diretamente com o escritor era uma missão inglória. Contou que costumava atender o telefone com voz de mulher, mesmo que fossem amigos íntimos do outro lado da linha, para não ser importunado.

Nanete conseguiu entrevistar todas as personalidades, e com algumas mais, nos quatro dias em que passou na cidade. Almoçou com Houaiss no Rio Minho, o segundo restaurante mais antigo do Brasil ainda em funcionamento. O preparo do peixe servido foi supervisionado pessoalmente pelo intelectual – ela descobriu depois que Houaiss também gostava de se aventurar pela cozinha. De Nélida Piñon ouviu o conselho valioso: “Ele não gosta que o chamem de Drummond, nem de poeta, nem de doutor. Prefere ser tratado simplesmente como Carlos”.

Na casa de Carlos
Nanete decidiu ir ao prédio de Drummond, na rua Conselheiro Lafaiete, 60, entre os bairros de Copacabana e Ipanema. Pensou em deixar algumas perguntas que acabara de fazer na portaria do prédio. Ao espiar para dentro do edifício, viu que o porteiro não estava em seu posto. “Aí veio aquele arroubo de ousadia da juventude”, conta.

Sem pensar muito, entrou no elevador e subiu direto ao sétimo andar. A porta pantográfica do elevador, porém, tinha um cadeado no andar do escritor. Ela tocou a campainha com dificuldade, e a empregada doméstica abriu a porta. Drummond estava ao fundo. Deixou o bilhete com a mulher que a atendeu, deu seu melhor sorriso e se despediu. Estava anotado que ligaria em 20 minutos para saber sua posição em relação à entrevista.

Rodeou o telefone público pelas duas dezenas de minutos. Quando enfim ligou, surpresa: o poeta – que atendeu com voz de homem – disse que lera a mensagem e que toparia dar a entrevista no dia seguinte, às 11h. “Aí eu fiz o que qualquer mulher faz quando está muito feliz ou abalada emocionalmente: comprei uma sandália nova”, lembra Nanete.

No dia seguinte, estreou a sandália azul-marinho no apartamento de Drummond, que estava com sua mulher e a empregada. Sentaram-se num sofá e passaram 45 minutos papeando sobre vários temas, como crianças, a sua irritação com professores que mandavam seus alunos para tentar entrevistá-lo com máquinas fotográficas e gravadores (“O esforço não é deles, mas sim do gravador”) e sobre não gostar de viajar. “Gosto da minha casa, do meu cafezinho, do meu canto”, contou Drummond. Só um assunto não entrou em pauta: literatura. “Ele odiava discutir literatura, de falar do próprio trabalho ou do trabalho dos outros”.

Nada foi gravado. Ao fim da conversa, Nanete perguntou: “Posso escrever sobre tudo o que conversamos?”. “Isso seria importante para você?”, retrucou o escritor. “Seria, muito”, respondeu Nanete. Drummond então concordou, mas deu uma condição: quando a entrevista fosse publicada, ela voltasse para mostrar o resultado.

A reportagem da Shopping News foi o grande sucesso da imprensa paulistana do fim de 1977. Depois, ela fez um novo perfil sobre Drummond para a revista Nova. A publicação feminina, com uma leve cara de pau, grafou na capa: “Maior poeta brasileiro numa rara entrevista que Nova conseguiu”.

Durante aquela viagem ao Rio nasceu uma amizade entre ela e o poeta, com direito a troca de cartas e de telefonemas, até a morte de Drummond, em 1987. “Ele gostava de me ligar em datas comemorativas, como Natal, Dia das Mães e aniversários”, lembra.

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Nanete lançou em 2015 o livro O Poeta e A Foca (Pasatempo), sobre o episódio. A edição logo se esgotou e agora só está disponível em audiolivro. Hoje, é escritora e ministra cursos de escrita literária. Além de O Poeta e a Foca, escreveu outras obras. A mais recente é a novela De Âmbar e Trigo (Alink Editora), de 2016.

No início da entrevista, Drummond perguntou: “Você veio ao Rio só para falar comigo?”. Ao receber a resposta positiva, emendou: “Mas que bobagem desse jornal”.

Por Bruno Hoffmann