Histórias do Brasil Literatura

João Cabral driblou dor de cabeça por 50 anos

Mesmo depois de garantir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto ainda dizia que uma de suas grandes frustrações era não ter sido jornalista. Ele achava, inclusive, que foi depois de ser rejeitado por um jornal, aos 16 anos, que começaram as dores de cabeça que o acompanharam vida afora.

Não era uma dorzinha qualquer, não. O pernambucano passou 50 anos incomodado com a tal enxaqueca do lado esquerdo. Era um verdadeiro enigma para a medicina – doutor nenhum foi capaz de fazê-la cessar. Teve até um parente que recomendou um sanatório. Experiência traumática: “Foi uma internação que durou cerca de seis meses. Mas, apesar disso…”, brincava, “não produziu qualquer resultado positivo. Só deixou más lembranças”.

O jeito foi apelar para as aspirinas. João chegava a tomar 10 comprimidos por dia. Regularmente, pelo menos um a cada quatro horas – prática que não o deixava nem mesmo dormir uma noite de sono inteira. Mesmo assim, era só gratidão ao “sol artificial”, que homenageou no inusitado poema Num Monumento à Aspirina: Sol imune às leis de meteorologia / A toda hora em que se necessita dele / Levanta e vem (sempre num claro dia).

Claro que os mais de 70 mil comprimidos ingeridos ao longo da vida lhe causaram úlceras. Mas, como há males que vem para bem, a cirurgia emergencial teve inusitado efeito colateral. Aos 66 anos, o autor de Morte e Vida Severina pôde comemorar: depois da operação, a dor de cabeça desapareceu.

Da Redação do Almanaque Brasil