Histórias do Brasil Samba

Cristo mendigo agitou o Carnaval de 1989

“Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta de luxo.” A célebre frase de Joãosinho Trinta foi a forma de responder aos críticos, que reclamavam dos gastos excessivos para promover os desfiles da Beija-Flor. No Carnaval de 1989, porém, o carnavalesco resolveu surpreender. Sob o enredo Ratos e Urubus, Larguem a minha Fantasia, a intenção era denunciar a hipocrisia reinante e a miséria da população brasileira.

As alas seriam formadas por gente da rua: mendigos, prostitutas, desvalidos de toda espécie. As fantasias deveriam ser feitas com materiais encontrados nos lixos. O carnavalesco conclamou: “Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com a nossa terra, com a nossa gente, com o nosso Brasil. Nós sabemos fazer carnaval: é o nosso ofício. E que seja através dele que a gente proteste”.

O carro abre-alas traria uma grande imagem do Cristo Redentor. Com um detalhe: vestido apenas com trapos, como se fosse um mendigo. Só que o arcebispo dom Eugênio Sales não gostou nada da história. O religioso entrou na Justiça e conseguiu a proibição do uso da imagem. Decepção e nervosismo na escola. Até que, na véspera do desfile, alguém deu uma sugestão melhor do que a ideia original: cobrir a estátua com rústicas lonas pretas. E a inscrição: “Mesmo proibido, olhai por nós”.

A entrada da Beija-Flor na avenida foi considerada um dos momentos mais impactantes do Carnaval carioca. Burburinho do público, espanto com o enorme saco preto que escondia a imagem do Cristo. Ladeando o carro abre-alas, mendigos com roupas esfarrapadas. Até que a plateia, deslumbrada, começou a entoar o cântico vindo do intérprete: Sai do lixo a nobreza / Euforia que consome / Se ficar o rato pega / Se cair urubu come. A cada ala, críticas sociais: da Igreja Católica às guerras, do desperdício de comida aos políticos. Tudo sem luxo. Só lixo e talento, criando um momento único e apoteótico da história dos desfiles carnavalescos.

Joãosinho Trinta tornou-se assunto no País todo. Ninguém tinha dúvidas de que a escola de samba se sagraria campeã. No dia da apuração, porém, a Beija-Flor terminou empatada com a Imperatriz Leopoldinense. Por três notas de desempate, teve de amargar a segunda colocação.

No desfile das campeãs, uma semana depois, Joãosinho fez questão de levar ainda mais mendigos para as alas. Sobrou provocação. O carnavalesco levou bonecos de três judas, representando os jurados que concederam notas baixas ao desfile da escola de Nilópolis. E, a pedido do público, os componentes retiraram – por conta própria – a lona preta que cobria o Cristo mendigo.

Por Bruno Hoffmann