Histórias do Brasil Literatura

Surrealismo ditou vida e morte de Campos de Carvalho

Ranzinza, de poucas palavras e de uma ironia rascante. Essas eram as características mais perceptíveis de Walter Campos de Carvalho, tido como o primeiro surrealista da literatura nacional. Caía sobre ele, também, a fama de louco, que não se preocupava em desmentir.

O mineiro nascido em Uberaba em 1916 e radicado em São Paulo enveredou pela literatura ainda jovem. Sua obra, porém, é relativamente curta. É autor de seis livros, em que se destacam imagens fantásticas e nonsense e críticas à religiosidade. “Fui religioso até os 16 anos. Um dia perguntei a mim mesmo por que eu acreditava em Deus. Neste momento eu tive a noção de que Deus não existia”, explicava.

Entre seus livros estão A Lua Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961) e O Púcaro Búlgaro (1964), sua obra derradeira. Colaborou com periódicos, entre os quais O Pasquim. Certa vez, Jorge Amado leu A Lua Vem da Ásia e, estupefato, comprou 30 exemplares para distribuir aos amigos.

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Campos de Carvalho (foto: Luciana Francesco/Divulgação)

Em dado momento, Campos de Carvalho deixou as letras de lado, sem grandes explicações. Deixou também uma legião de saudosistas. “A pequena obra de Campos de Carvalho parece ter essa força: ela aproxima os seus leitores, forma confrarias”, comenta o escritor Nelson de Oliveira. Para o cronista Antonio Prata, o mineiro se tornou “o escritor obscuro mais famoso do Brasil”.

Em 1998, numa Sexta-Feira da Paixão, Campos de Carvalho caminhava por São Paulo quando se sentiu mal. Disse à mulher: “Acho que é por causa de um sorvete que tomei”. A morte no mesmo dia da de Jesus Cristo e a explicação nonsense não foram as únicas esquisitices daqueles momentos derradeiros, como conta o escritor Mario Prata. “O que ele nunca poderia imaginar é o nome do motorista do carro fúnebre: João de Jesus”.

Por Bruno Hoffmann