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Bispo do Rosário: A dois metros do chão

Ele viveu num manicômio durante 50 anos e, dentro de um quartinho apertado, produziu um dos mais fantásticos conjuntos de obras do País. Tudo alheio ao que acontecia além dos limites do hospício. De forma absolutamente intuitiva, sem frequentar escolas de arte ou ler livros, Arthur Bispo do Rosário deixou acadêmicos abobados com sua expressividade e originalidade.

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(imagem: reprodução)

Pouco se conhece de sua infância e adolescência. O que se sabe é que nasceu na cidade de Jarapatuba, em Sergipe. Uns dizem que em julho de 1909. Outros, em maio do mesmo ano. A data mais aceita é 16 de março de 1911. Aos 16 anos, foi inscrito pelo pai na Escola de Aprendizes de Marinheiros de Sergipe e embarcou num navio como ajudante-geral.

Ficou na instituição até 1933, viajando pelo País e colecionando advertências por comportamentos inadequados. Mas também se tornou um bom boxeador. Foi campeão sul-americano na categoria peso-leve. Quando foi afastado da instituição, estava no litoral do Rio de Janeiro. Sua rotina era perambular pela cidade, fazendo pequenos bicos. Até ser aceito como lavador de bondes da Light.

Um dia sofreu um acidente de trabalho. Ao levar o caso à Justiça, conheceu o advogado Humberto Leone, que, sensibilizado, convidou Bispo para morar num quartinho em sua casa. O sergipano tornou-se ajudante geral da família. Tudo ia bem até que vozes mudaram seu destino.

Reconstruir o mundo
Era dezembro de 1938. Bispo disse ao patrão ter visto anjos e ouvido vozes celestiais. Saiu da casa e começou uma peregrinação por igrejas cariocas. No mosteiro de São Bento, anunciou aos monges: “Sou um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos”. Detido pela polícia e fichado como “negro e indigente”, foi encaminhado ao hospício da Praia Vermelha. Depois, transferido para a Colônia Juliano Moreira, no subúrbio da cidade.

O diagnóstico: esquizofrenia paranoide. A instituição seria sua casa pelos próximos 50 anos. Na Juliano Moreira, Bispo repetia a história para quem quisesse ouvir: “Vozes dizem para me trancar num quarto e começar a reconstruir o mundo”. E assim fez. Produzia sem parar, mesmo sob forte medicação e choques elétricos. Os companheiros de manicômio o ajudavam na missão, buscando entulhos e papelões que serviriam para seu trabalho. Às vezes ficava meses sem sair do quarto, numa jornada de 16, 18 horas por dia.

Sete anos depois, a voz reapareceu: “A obra está concluída”. O que se viu era impressionante. Centenas e centenas de peças de alto valor artístico. Colagens, tapeçarias, estandartes, pinturas, bordados. Tudo com beleza, ineditismo, múltiplos significados. Seguia uma linha convergente ao que se discutia sobre arte contemporânea mundial, mesmo sem ter nenhum contato com influências exteriores.

Cavalheiro e solitário
A fama de Bispo do Rosário se alastrou pela cidade e, depois, pelo País. Houve uma comparação imediata com Marcel Duchamp, o francês que criou o conceito de que objetos do cotidiano poderiam ser levados para o campo das artes. Recebia visitas de estudiosos, artistas, curiosos. Aos que queriam conhecer seu ateliê improvisado, fazia uma intrigante pergunta: “Qual é a cor do meu semblante?”. Se não gostasse da resposta, encerrava a visita.

Para quem o chamava de artista, rebatia: “Não sou artista. Sou orientado pelas vozes para fazer desta maneira”. Tornou-se uma lenda, estudado por várias correntes do conhecimento. “É possível analisá-lo pela Psicanálise, pela Sociologia, pela História da Arte, pela Semiótica e pela Antropologia”, avalia Jorge Anthonio e Silva, autor de Arthur Bispo do Rosário – Arte e loucura (Quaisquer, 2003).

Entre as obras de maior impacto, está o Manto da Apresentação, uma veste com um emaranhado de pequenos símbolos e figuras, como tabuleiros de xadrez, mesas de pingue-pongue, ringues de boxe, crucifixos. Destaca-se também uma espécie de Arca de Noé, construída com papelão e pano, destinada a salvar o mundo. Além de uma nave que o levaria para o céu.

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Manto da Apresentação (imagem: reprodução)

Suas obras foram expostas em galerias de arte da cidade. Mas Bispo não era muito favorável a que elas saíssem do ateliê. As tratava como filhas, perguntava até se estavam bem. Era um homem sério, de poucas palavras. Um cavalheiro com as mulheres. Gostava de andar limpo e ficava semanas sem se alimentar. Sentia-se um enviado de Deus, uma espécie de Cristo. Gostava de concurso de misses e quase nunca era violento. Mas sempre solitário.

“Os doentes mentais são como beija-flores: nunca pousam, ficam sempre a dois metros do chão”, costumava dizer. Em 5 de junho de 1989, se sentiu mal e foi atendido no setor médico. Estava muito magro pelos jejuns. Morreria horas depois, vítima de enfarto, aos 80 anos.

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(imagem: reprodução)

“Ele morreu na solidão de sua cela, sem ver seu império classificado como obra de arte, percorrendo o mundo”, diz a escritora Luciana Hidalgo, autora de Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto (Rocco, 1997). “Mas, aos olhos da crítica e do público, já era um artista.”

Após várias exposições pelo País, a obra de Bispo representou o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, na Itália, em 1995. Hoje a Colônia Juliano Moreira não funciona mais como manicômio. O espaço abriga o Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea.

Por Bruno Hoffmann