Entrevistas

Guilherme Arantes: “Me tornei um classicão da música brasileira”

O paulistano Guilherme Arantes foi um dos maiores compositores de sucessos entre o meio da década de 1970 e o começo da de 1990. Suas canções embalaram os casais apaixonados em 27 novelas globais. O repertório melancólico, sofisticado e popular ao mesmo tempo caiu no gosto do povão. Agradou moradores do Leblon e da Rocinha, da avenida Paulista e dos cantos mais distantes do País. Era essa a intenção.

Ao mesmo tempo que colecionava hits e casas de espetáculo lotadas, precisou lidar com uma certa patrulha artística e ideológica da imprensa. Por vezes era tachado como alguém que buscava apenas o sucesso midiático fácil. O tempo mostrou que os críticos não tinham razão. Suas canções permaneceram no imaginário nacional: Meu Mundo e Nada Mais, Um Dia um Adeus, Cheia de Charme, Amanhã, Planeta Água, Lindo Balão Azul, Êxtase, Aprendendo a Jogar e dezenas de outras músicas.

Hoje, aos 64 anos, Guilherme Arantes mantém uma relação mais saudável com a imprensa, depois de apanhar (e bater) bastante. Sabe que já é considerado um compositor importante na história brasileira. “Me tornei um classicão. Atualmente, gozo de um prestígio como o Alceu Valença tem, o Djavan tem”. E não para de produzir. O último álbum, Flores & Cores, saiu em 2017.

Nesta entrevista ao Almanaque, feita por telefone de sua casa em Lauro de Freitas, na Bahia, o compositor fez uma longa análise sobre o cenário artístico nacional. Diz sentir falta da transgressão estética de décadas anteriores. Mas não deixa de elogiar Racionais, Anitta, Liniker, Tulipa Ruiz e os novos nomes de uma linhagem popular mais sofisticada. “Existe uma geração de ouro em termos de ética, que resiste bravamente a um Brasil que é completamente traidor da criatividade, que só premia a perversão e o lucro mais imediato. Esta geração é heroica”.

Com certa dificuldade de encontrar uma prateleira para sua obra, classifica: “Eu sou da linhagem do moderno piano brasileiro”.

Você já admitiu que, antigamente, era briguento com a imprensa. Por quê?
Fui muito maltratado no passado. Em parte pelo o que eu representava. As pessoas dão mais valor ao que você representa do que ao seu valor intrínseco. Eu era um rapaz de origem aristocrática, filho de um médico, tocava piano, estudava na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP] e cantava baladas em novelas da Globo, numa época de ditadura militar. Isso tinha um preço alto. Apenas deram valor à qualidade das minhas músicas conforme as décadas foram se sucedendo. Meus próprios colegas da FAU somente me valorizaram quando Elis Regina gravou uma música minha [Aprendendo a Jogar, em 1980]. Só então houve uma revisão crítica da minha obra. Isso é ridículo, ridículo. Eu já tinha escrito Amanhã, Êxtase, Cuide-se Bem, Meu Mundo e Nada Mais, mas todo mundo só ficava prestando atenção ao que eu representava. Era algo que me incomodava bastante, mas meu tempo de rabugice já passou.

Me parece que a geração mais nova voltou a valorizar o seu trabalho. Sente isso?
Não quero me superdimensionar, mas me tornei um classicão da música brasileira. A geração atual era criança quando eu estava fazendo Um Lindo Balão Azul, por exemplo, e absorveu muitos fundamentos das minhas músicas. Houve também uma revisão crítica por parte dos jornalistas. Hoje, tenho uma relação muito boa com a crítica musical. Estou maduro para ter essa boa relação, sem tanta mágoa. Sei que, atualmente, não sou nenhum fenômeno, mas gozo de um prestígio como o Alceu Valença tem, o Djavan tem. Nós somos uns clássicos dos anos 70. É algo que me dá muito prazer e alegria.

Em qual prateleira da música popular você se coloca?
Dentro da herança do moderno piano brasileiro. É algo bem claro em mim. Esse piano brasileiro vem lá de trás, com a bossa nova, Tamba Trio, Tom Jobim, Marcos Valle, João Donato, Johnny Alf. E, mais tarde, com Taiguara, Ivan Lins, Wagner Tiso, Antonio Adolfo. Nunca abandonei o piano. Acima de qualquer classificação de MPB ou de pop, o que me fez permanecer na música foi a dignidade do piano brasileiro.

Você sempre elogiou o Taiguara. Ele é um herói musical para você?
É também um herói como cidadão. Foi a minha grande influência naquela época. Taiguara foi uma figura muito maltratada pela inteligência tanto de esquerda quanto de direita, foi muito perseguido. Ele tinha uma independência crítica muito grande. Era autor de músicas românticas de uma beleza incrível, uma voz igualmente incrível e era um grande músico também ao piano. As pessoas hoje não têm noção do que era viver sob o AI-5, aqueles anos de exceção, truculência e ignorância que o Brasil mergulhou. Um período negro que não houve nem festivais. Ao mesmo tempo, foi um tempo importante na minha vida. Foi quando me estruturei para determinar por onde iria entrar na música brasileira.

Taiguara foi uma figura muito maltratada pela inteligência tanto de esquerda quanto de direita, foi muito perseguido. Ele tinha uma independência crítica muito grande. Era autor de músicas românticas de uma beleza incrível, uma voz igualmente incrível e era um grande músico também ao piano.

Qual foi o caminho?
A televisão, as novelas. Pensava: “É nisso que quero entrar, é isso que me interessa”. Não me interessava os movimentos de resistência política e ideológica, de subterrâneo, mas chegar ao povo das favelas, dos vilarejos, daquele Brasil recôndito mais distante. Foi um grande acerto. Fui um cara dessa geração de grupos de baile, fui um baileiro que deu certo. Eu pensei em cantar em inglês, mas muito por causa do Taiguara, do Milton Nascimento e do Clube da Esquina – que foi uma grande revelação poética para mim -, fiz letras em português. Minha oportunidade de ouro foi emplacar Meu Mundo e Nada Mais na novela Anjo Mau [1976, na Globo], por meio do produtor Otávio Augusto, a quem devo muito. Claro que eu desejava a nobreza de um Chico Buarque, a beleza das letras poeticamente bem acabadas. Mas, na verdade, o que eu queria mesmo era a popularidade do auditório, chegar ao povo, fazer o crossover social. Aliás, crossover social é um termo-chave na minha carreira.

Como assim?
Fui um cara que conseguiu fazer o milagre do crossover social. Ou seja, agradar os salões com uma certa sofisticação estética e, ao mesmo tempo, atingir o povo do Brasil mais pobre. Chico Buarque também fez o mesmo com Construção, Carolina, Januária, Quem Te Viu Quem Te Vê, Com Açúcar com Afeto. Toquinho e Vinicius alcançaram essa posição com Tarde em Itapuã. Além de Lulu Santos, Marina Lima, Zizi Possi, Sandra de Sá, Fafá de Belém e tantos outros. Nós tivemos essa grande qualidade. E houve também os compositores da classe trabalhadora que fizeram o caminho contrário: Nelson Cavaquinho, Cartola e Adoniran Barbosa compuseram uma obra extremamente sofisticada, apreciada nos salões da alta sociedade. É interessante como o Brasil já foi capaz de produzir esse crossover. É isso que o Brasil precisa desesperadamente.

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Guilherme Arantes na década de 1970 (foto: reprodução)

Mas parte do País não têm uma certa má vontade com o que é popular de fato, como o funk?
Existe esse preconceito. O problema é que as classes não estão se misturando muito. No caso do funk, o ritmo nasceu com o miami beat, aquele batidão extremamente poderoso para os sistemas de som. Mas acabou se reduzindo a uma coisa minimalista, uma latinha batendo e um cara falando um monte de besteiras: “Bate o bundão, bate o bundão”. O grande problema está na perversão da linguagem, que transformou o costume do povão numa coisa extremamente careta. Não é mais uma coisa transgressora.

O que é transgressor?
É algo que propõe uma transformação, um estranhamento. Mas estamos em um tempo em que o marketing é voltado apenas para a confirmação. O próprio rock’n roll caiu numa de entretenimento. Bandas como AC/DC e Iron Maiden viraram atrações de de circo. O cara vai ao show para confirmar uma expectativa, passa por um rito que propõe apenas uma confirmação. Isso para mim é circo, é Holiday on Ice. Não existe estranhamento. Estranhamento é algo de épocas privilegiadas, como foi a da minha juventude. Domingo no Parque, de Gilberto Gil, representava uma reviravolta em toda a estética, na maneira de fazer a letra, na maneira de se apresentar. Ali estava a transgressão. Mas não sou tão reativo contra artistas pops atuais, como a Anitta.

O que acha da Anitta?
Gosto muito. Ela rompeu barreiras que outros artistas pop não conseguiram. A Anitta está, de fato, navegando numa linguagem mundial de reggaeton, de outros ritmos, e está funcionando. Mas a cena atual é bastante complexa. Está tudo muito pulverizado. É uma época fascinante e ao mesmo tempo angustiante. O momento não é favorável para o surgimento de Construção [álbum de Chico Buarque, de 1971]. Hoje é tudo menorzinho e fracionado. O entretenimento passou a ocupar o lugar da arte.

Os Rolling Stones hoje são clones de si mesmos. Se transformaram numa jukebox gigante que repete a expectativa do público. No Brasil, Luan Santana, Jorge e Matheus e Wesley Safadão, por exemplo, reúnem mais público toda semana que Woodstock ou que Gilberto Gil poderia sonhar.

Pode dar alguns exemplos?
É coincidência, claro, mas, dos quatro Beatles, morreram os dois transformadores. Só ficaram Paul e Ringo, os dois entretainers que mandavam beijinhos para as garotas – e falo isso sem diminuir o valor deles. Mas é muito marcante a transformação de todo mundo em entretainers. Os Rolling Stones hoje são clones de si mesmos. Se transformaram numa jukebox gigante que repete a expectativa do público. No Brasil, Luan Santana, Jorge e Mateus e Wesley Safadão, por exemplo, reúnem mais público toda semana que Woodstock ou que Gilberto Gil poderia sonhar. Isso de uma certa forma humilhou os conceitos da minha geração de qual era a serventia da arte. A arte se tornou totalmente utilitária. Mas, ao mesmo tempo, o pop mundial vive uma efervescência. Há um esplendor com Sam Smith, Bjork, Sia. São artistas importantes, criativos e maravilhosos. Bruno Mars é um gênio. Entretainer, mas gênio. De certa forma a eficiência dessas bandas ocupou o lugar da arte.

Quem você curte na nova geração?
Os Racionais já pertencem a um panteão dos grandes transformadores da sociedade. O Liniker é fantástico, genial. Me lembra muito Prince, coisas da música negra americana, e ao mesmo tempo algo andrógino. Admiro muito o idealismo de Céu, Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Tiago Iorc, Tiago Pethit, Tiê. É uma turma que está lutando com muito idealismo. Talvez seja esse grande diferencial. Quem trabalha com idealismo e quem trabalha só para endinheirar.

Você não está falando de idealismo político, mas artístico, não?
Exato. Uma estética idealista. Essa geração dos meus filhos é muito sofrida. Eles precisam ter muita firmeza de caráter para não se vender para o óbvio, que dá grana pra caralho. Existe uma geração de ouro em termos de ética, que resiste bravamente a um Brasil que é completamente traidor da criatividade, em que só é premiada a perversão e o lucro mais imediato. Essa geração é heroica. Não sei se a minha geração resistiria como ela está resistindo a um ambiente tão hostil.

O que falta para esta geração ser mais valorizada?
Falta um Chacrinha, que foi tão fundamental para os artistas da minha época. Hoje o cenário é dominado por uma turma que fez MBA, marketing e business de sei-lá-o-quê. Esse pessoal destruiu a transgressão da cultura brasileira a partir da década de 90, com procedimentos e protocolos escrotos do marketing. Virou tudo uma caretice. A juventude precisava de um Chacrinha para se apresentar. Há muito apresentador hoje em dia que é o anti-Chacrinha.

É verdade que a ideia da música Planeta Água nasceu num terreiro de candomblé da Bahia?
Mais ou menos. Em 1977, vim tocar em um festival na Bahia, ao lado de João Bosco, Belchior, João Nogueira e Clara Nunes. Fomos a um terreiro de candomblé no bairro de Paripe, em Salvador. O pai de santo me disse que eu era filho de oxum e que deveria fazer uma música para a água doce. Foi algo que marcou na minha cabeça. Anos depois, me pediram uma música para Ney Matogrosso, que estava fazendo um disco sobre a amazônia brasileira. Falei: “Guarda o tema da água para mim!”. Fui para casa e em 15 minutos saiu Planeta Água. A música é uma guarânia. Ela remete às viagens que fazia com meu pai a Foz do Iguaçu, onde ouvia muita guarânia, quando tinha 12 anos. O elemento espiritual do Brasil é a água doce. Planeta Água vai muito além da questão da água, tem vários elementos espirituais. O Brasil é um país feminino regido pela água doce.

A melancolia é um trunfo preciosíssimo num mundo que vende a alegria e a felicidade. É uma marca nobre da da música popular, de Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Taiguara. A história da boa música brasileira tem sempre um toque de melancolia.

Você considera sua obra melancólica?
Acho que sim. A melancolia é um trunfo preciosíssimo num mundo que vende a alegria e a felicidade. É uma marca nobre da da música popular, de Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Taiguara. Pode não parecer, mas a bossa nova era extremamente melancólica. A própria jovem guarda e a black music nacional têm um acento melancólico. É por isso que tenho muitas músicas em tom menor. A história da boa música brasileira tem sempre um toque de melancolia.

Hoje, aos quase 65 anos, como vê sua carreira?
Com muita beleza. Acabei de reclamar um montão sobre o cenário da música atual, mas, no meu caso, estou longe de poder reclamar. Chegar aos 65 anos e ver que, com todos os esforços, emplaquei 30 músicas de sucesso, está muito bom. Faço um paralelo com Drummond. O poeta é conhecido pelo povo por duas frases: “E agora, José?” e “No meio do caminho tinha uma pedra…”. Mesmo Beethoven é lembrado por “tchan, tchan, tchan, tchan” e por Für Elise, por ser a música do caminhão de gás. Não posso reclamar em nada em relação a minha trajetória.

Por Bruno Hoffmann