Entrevistas

Roberto Tranjan: Empreendimentos mais bem-sucedidos são os que nascem com a alma brasileira

União em vez de produtividade; dignidade em vez de objetividade. E, acima de tudo, compreensão da alma brasileira. Junte os ingredientes e você terá um pouco da fórmula do que é a Metanoia, um conceito inovador desenvolvido pelo empresário, educador e escritor Roberto Tranjan entre as décadas de 1980 e 1990 – e espalhada em empresas nacionais sob sua consultoria até hoje.

As suas primeiras ideias de uma gestão humana e comunitária estão no livro A Empresa de Corpo, Mente e Alma, lançado em 1997 – e de lá para cá já lançou outros três. A palavra Metanoia significa mudar o próprio pensamento, mudar de ideia. Desde então, prestou consultoria a empresas para oferecer metodologia, ferramentas e processos para essa transformação. E, garante, todo mundo sai ganhando com as mudanças.

“Os empreendimentos mais bem-sucedidos são os que nascem com a alma brasileira. Os mais mal-sucedidos são os que querem copiar modelos lá de fora”, afirma Tranjan. Ele não usa termos em inglês em suas reuniões de trabalho. Não por preconceito. Mas porque, explica, há uma fonte brasileira para se inspirar que será melhor para todos: empresários, consumidores e funcionários.

O consultor trouxe para o ambiente corporativo o conceito de metanação – que ele explica o que é na entrevista a seguir. Com uma forte ligação com a cultura brasileira – principalmente com a nossa música -, Tranjan afirma: “A ideia também é trazer poesia para este mundo árido e ácido dos negócios”.

Você sempre fala da influência da cultura brasileira em seu trabalho. Como se dá isso?

Há uma frase de Nietzsche: “O vosso mau amor de vós mesmos faz da vossa vida um cativeiro”. As empresas e o Brasil não se resolvem enquanto não houver amor por quem está neles. E quem está são brasileiros. O que gostam de chamar de mão-de-obra são brasileiros. Não gosto desse nome porque parece que nunca perdemos a herança da escravidão – nossa origem que ainda não acertamos as contas. Essa herança da escravidão depois recebeu o nome de mão-de-obra durante a industrialização. É um pequeno reparo na vida das pessoas, mas continua mais ou menos do mesmo jeito. Falo muito de Brasil por amar o Brasil e o brasileiro. O brasileiro é o grande depositário da nossa cultura. Temos uma das culturas mais resistentes do planeta. É impressionante como ela é bombardeada de todos os lados e se preserva. E quem a mantém não é a elite, é o povo brasileiro, esse que é chamado de mão-de-obra e que outrora foi escravo. Esse que atualmente continua sendo item de custo nas folhas de pagamento. A base da Metanoia tem muito a ver com a brasilidade.

É verdade que a Metanoia evita o uso de termos em inglês dentro de ambientes corporativos?

É verdade. Há quem não goste muito desse nosso jeito, mas não usamos nenhum termo norte-americano. Hoje, se você entrar numa reunião com líderes de uma grande organização, metade da conversa será com termos norte-americanos. É a pátria do management. Não é por preconceito. Só que a gente tem uma fonte própria e bebe dela. É para dizer que este é o modelo de gestão brasileiro, que bebe na fonte do coletivo. A gente fala muito de trabalhos em equipe. Somos bons nisso por natureza. Se tiver um bom líder, um líder que não seja preconceituoso e tenha amor por essas pessoas, leva essa equipe para onde ele quiser.

Como esse modelo de gestão brasileiro é desenvolvido dentro das empresas?
Fazemos o resgate da alma brasileira nas empresas que adotam a Metanoia como cultura. De começo, isso acontece por meio de uma carta de valores. Não trabalhamos com valores organizacionais, que é o padrãozão do modelo norte-americano: organização, competitividade, objetividade, lucratividade Esses padrões organizacionais não conversam em absolutamente nada com a alma brasileira. Quando começamos a fazer uma carta de valores, aparecem as coisas humanas: união, respeito, dignidade, amor. Em organizações nos moldes tradicionais não entra amor nem que a vaca tussa. Eles acham que isso não combina com o tipo de negócio que têm na cabeça. Mas isso combina com o tipo de negócio que a Metanoia tem na cabeça.

A Metanoia também não chama as empresas de organização. Por quê?

Para nós são comunidades de trabalho. Faz uma diferença enorme. Esse negócio de comunidade de trabalho é um pouco voltar às nossas origens. Se você for um garoto do interior como eu, vivia em comunidade. E era filho de todos, não só da sua mãe e do seu pai. Toda a vizinhança cuidava de você. E é esse espírito de comunidade, que ainda existe no interior do Brasil, que queremos que tenha nas empresas. Em que cada membro de equipe cuide de todos, como uma coisa só. É diferente dos organogramas, aquele negócio de uma caixinha em cima, cheia de caixinhas embaixo, aquele modelo de controle e comando, que ainda se ensina o formato de organização. Nós trabalhamos com comunidade.

Neste prédio está escrito na entrada: “Nós somos um pedaço de Brasil que dá certo”. O que quer dizer?
Nós chamamos essa comunidade de trabalho de metanação. Não é uma metapátria ou um metapaís. País é isso que o Brasil ainda é. O Brasil virará uma nação algum dia, mas nós já queremos antecipar. Queremos ser uma nação dentro de uma pequena população, de uma pequena comunidade. Um país é feito de crescimento do PIB, de política econômica, de legislação, de fiscalização, de política fiscal e cambial. Os tecnocratas criam um país. Mas uma nação só um estadista pode criar. Uma nação é feita de propósitos, valores, tem rituais. Por isso chamamos de metanação, uma nação além da nação, que tenha a alma de nação e a alma brasileira.

Estão surgindo empresas que têm essa alma brasileira?
Há muita coisa sendo feita. Os empreendimentos mais bem-sucedidos são os que nascem com a alma brasileira. Os mais mal-sucedidos são os que querem copiar modelos lá de fora. Há uma frase: “O homem que imita as ondas apenas dá piruetas”. Há empresas que nascem com nomes não bons, em inglês. Já começam copiando, dando piruetas, e não com a nossa essência. As empresas bem-sucedidas são aquelas que estudam a alma brasileira, os consumidores, as pessoas que vão trabalhar nelas. No nosso tipo de empresa o pronome mais importante é quem. Para as empresas tradicionais é quanto. Quanto vai render, quanto precisa investir, quanto vai ser o lucro, quanto vai gerar de caixa. Nós estamos preocupados em quem vai comprar, o que eles buscam, quais são as necessidades, quais os desejos. E quem vai trabalhar com a gente? O que eles buscam, quais são as suas necessidades? O quanto vem depois, porque também é necessário. Mas o quem precede o quanto. Se você já começar pensando assim, começa o empreendimento com o pé direito.

Você acabou de lançar O Velho e o Menino (Buzz Editora, 2017). A publicação trata sobre quais temas?
Conto um pouco sobre minha vida. Do menino que veio do interior e aportou em São Paulo aos 14 anos sem lenço e sem documento. Foi quando fui trabalhar como office-boy numa instituição financeira. Foi um choque quando me deparei com o modelo de organização dessa instituição. Eu fui um menino que brincava na liberdade dos quintais. É algo que não sai da minha alma até hoje. O quintal é um mundo bem-sucedido. E, quando se entra numa empresa, a sala é quadrada, a mesa é quadrada, o computador é quadrado, e, às vezes, o chefe é quadrado também. Então você fica extremamente reprimido e oprimido em seus talentos e dons. Naquilo que extravasava quando você vivia nos quintais: ser criativo, fazer cabaninha, fazer estilingue, subir em árvore, criar um monte de ideias, imaginar histórias. É um baque ainda maior aos 14 anos. Você está saindo da infância e entrando na adolescência, e não entende bem o que está se passando. Começa a perceber que o mundo do adulto é cruel.

Algo em especial te marcou nessa época?
Uma vez fui revistado porque havia tido um roubo na empresa. Para mim foi uma afronta. “Vocês estão duvidando de mim?”. Entendi que no mundo do adulto não há confiança, e que, por isso, as empresas tinham tanto controle e tanto comando. A razão era uma só: ninguém confiava em ninguém. O menino confia no outro menino. Um podia até sacanear o outro, mas era amigo e havia confiança. Saí do paraíso dos quintais e entrei no inferno dos controles.

O que mais o livro conta?

Quando, pouco depois dos 30 anos, abri a minha própria empresa de consultoria e de processos de educação. Então resolvi fazer as coisas diferentes. Criei uma empresa sem nenhum tipo de opressão como aquela que tinha vivido. E até hoje quero proporcionar a outras empresas essa condição também, de não ser ambientes deformadores de seres humanos. Pelo contrário. Que elevem a experiência humana dentro da empresa, para que as pessoas sejam seres humanos também enquanto trabalham.

Você sempre usa a música brasileira em suas palestras e eventos. Por quê?
A música é o que tem de mais bem sucedido na cultura brasileira. A canção brasileira é obra-prima. Para mim Chico Buarque mereceria ganhar um Nobel, Caetano Veloso mereceria ganhar um Nobel. Só para citar dois, porque nosso elenco é vasto e de primeira. Às vezes me perguntam se eu não gosto de música estrangeira. Respondo que gosto, mas a brasileira me ocupa tanto o tempo… Eu sou do tipo que sento para escutar as músicas ainda. Eu tenho vitrola, tenho vinil. Na cultura brasileira temos a culinária, a dança, outras manifestações, mas o melhor que há é a canção brasileira. Sempre tive a ideia de trazer poesia para este mundo árido e ácido dos negócios. Um mundo competitivo, imediatista, que bota o econômico acima do humano. A música humaniza. Ela não fala de cifras, mas de imagens e de sentimentos. Quero muito que as pessoas amem o Brasil como eu amo. Semana passada havia um grupo estava começando, e fui apresentado por um parceiro meu. “Esse é o Roberto, líder da Metanoia, e ele tem uma característica: amar o Brasil e a cultura brasileira”. No intervalo, um dos participantes veio falar comigo: “Vem cá, mas você acredita mesmo no Brasil?”. Eu não pensei duas vezes: “Eu acredito muito no Brasil!”. Eu queria que as pessoas tivessem esse amor pelo Brasil. Isso resolveria boa parte dos nossos problemas.

Acredita que essa descrença no Brasil seja porque as pessoas estão um pouco contaminadas pelo noticiário político?
Pode ser. Mas com todo bombardeiro, com uma classe política que não nos representa, com uma elite que não ama o Brasil, o País continua. Sabe por quê? Pela nossa cultura. Não tem quem derrube um Círio de Nazaré – e eles tentam. Não há quem derrube as festas de São João do Nordeste – e eles tentam também. O Carnaval conseguiram estragar um pouco, mas ele se refez através dos blocos. Ninguém derruba o Brasil. Nós somos muito do coletivo. Fui conhecer uma festa em Alter do Chão, no Pará, e fiquei impressionado. Aquela história do boto cor-de-rosa, do boto azul, e o respeito que há entre todo mundo. Ninguém vaia o outro. Espera sua vez e ambos se apresentam. Aquilo é colossal. Esse Brasil da Amazônia é lindo. Isso sobrevive a governos, a impeachments, sobrevive a tudo. Existe um Brasil que funciona. É a nação sufocada pelo país do crescimento do PIB, da taxa de desemprego, da política tributária e trabalhista. Temos uma nação que dá certo apesar do país.

Por que é importante mostrar aos empresários o valor da cultura e do povo brasileiro?
Porque é a grande mudança que o Brasil precisa: uma elite educada que eduque. E o primeiro atributo que se adquire com nosso processo é se transformar em intereducador. Vamos lembrar do Paulo Freire: você só educa se você ama. A gente faz isso nas metanações, nos pequenos pedaços de Brasil que atuamos. O líder é estimulado a adotar o papel de educador. E com isso ele cria um vínculo com a equipe dele muito diferente daquele de apenas arrancar desempenho das pessoas. Ele deixa de olhar os ovos da galinha e passa a cuidar da galinha. Ela vai botar ovos, isso é uma consequência natural. O primeiro atributo do nosso processo é ser um líder educador. Mais tarde ele adquire outro: ser um líder inspirador. E um bocadinho mais tarde vai ser um líder estadista de uma metanação. Do mesmo jeito que deveríamos ter um estadista na presidência da república, ele passa a ser o presidente da república daquela metanação. Vira um líder estadista.

Mas essas mudanças não causam preocupação em que as adotam?

Mais ou menos. Depois que você muda o modelo mental para metanoico, você vai transferir autoridade para quem trabalha contigo. Essa transferência de autoridade vai criar uma empresa mais poderosa. Um cara que ainda é muito controlador vai se sentir perdendo o controle. Mas depois sentirá um certo alívio. Era um fardo ter toda a autoridade só para si. Aumenta a potência do seu negócio saber que pode dividir essa autoridade com mais gente. Mas só explicamos isso no momento B. Explicar no momento A é inútil. Só vai achar que está perdendo o seu comando. “Eu vivo do meu comando”, não importa se vai ter infarto aos 50 anos. Mas no momento B ele vai entender que terá uma vida muito mais satisfatória pessoal e profissional, vai apoderar mais pessoas e vai ter um negócio muito mais potente. Não será mais um negócio das suas 24 horas, mas de 240 horas caso haja 10 pessoas.

Por que você acredita no Brasil?
Por tantas coisas. Sobretudo pela alma brasileira. Essa alma é permanente, não é oscilante. Não depende de conjuntura, é estrutural. Faça chuva ou faça sol, mude as estações do ano, caia terremoto, essa alma é permanente. E a melhor coisa que tem que se fazer é se fixar nas coisas que são permanentes. Alguém me pergunta se eu leio noticiário, por qual meio me atualizo, e respondo que gosto de trabalhar com as coisas que são permanentes. A Metanoia nunca vai ser modismo. Ela trabalha com as coisas que são permanentes. E a alma brasileira é permanente.

Por Bento Andreato