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Etnógrafo francês vira babalaô e fala com o rei Luís

Pierre Verger saiu de casa aos 30 anos, depois da morte da mãe. Deixou a França em 1932 e, acompanhado de sua câmera Rolleiflex, rodou o mundo por 14 anos, sem criar vínculos nem demorar em lugar algum.

“A sensação de que existia um vasto mundo não me saía da cabeça e o desejo de ir vê-lo me levava em direção a outros horizontes”, justificava. Mas, ao desembarcar em Salvador em 1946 e entrar em contato com o candomblé, uma nova perspectiva passou a nortear sua vida e seu trabalho. Tornou-se um estudioso da religião. Foi para São Luís do Maranhão registrar rituais praticados na região. Em 25 de agosto de 1947, numa casa de nagôs, relatou a presença de São Luís, rei da França (Luís 90, morto nas Cruzadas, que deixou reputação de piedoso e justo).

Pierre testemunhou quando aquele augusto soberano voltou para a terra, 672 anos após sua morte, para reencarnar-se no corpo de uma filha de santo da casa. Ao saber que havia um francês na sala, o mítico rei pediu que lhe fosse apresentado: “Foi assim que fui recebido em audiência real, mas foi em português que nossa conversa foi trocada”.

O idioma usado, segundo Verger, significava polidez e consideração com o público reunido, que não poderia seguir uma conversação mantida em nossa língua. Em 1948, Verger embarca para a África, onde estuda mais de perto o culto aos orixás e se torna babalaô – sacerdote do candomblé. Pierre Verger é um dos maiores pesquisadores do tráfico de escravos e cultura africana no Brasil. Mesmo com constantes idas à África, criou laços estreitos com Salvador. Em 1988, ali montou a fundação que leva seu nome. Quando morreu, em 1996, aos 94 anos, era figura querida da cidade. Deixou amigos como Jorge Amado e Gilberto Gil.