Entrevistas Esportes

“É preciso ter orgulho de ser brasileiro”

Nas vésperas de mais uma Copa do Mundo relembramos entrevista dada a equipe do Almanaque por aquele que é até hoje considerado o maior jogador de todos os tempos.

Desde pequeno você era muito melhor que seus amigos?

Sim, tanto que eu jogava com atletas mais velhos. Entrei no Baquinho com uns 12, 13 anos. Quando teve o primeiro campeonato de futebol de salão, meu pai falou: “Você vai se machucar, só tem gente mais velha. Tem até profissional!”. Fui artilheiro do campeonato com cerca de 15 gols. Também jogava aos sábados, na várzea, pelo São Paulinho de Curuçá. Hoje vejo as fotos e me assusto. Jogava com uns barbados…

Dizem que, ao ver seu pai sofrer pela derrota do Brasil na Copa de 1950, você teria prometido que ganharia uma Copa para ele. É verdade?

Em 1950 eu tinha apenas 10 anos. Meu pai, ao lado dos amigos de time, estava ouvindo a partida pelo rádio. Todos com a certeza da vitória. Fizeram até bolo. Meus amiguinhos estavam lá, correndo pela casa. A gente, garoto, nem ligava muito pra Copa. Quando acabou, todo mundo ficou quieto, e meu pai começou a chorar. Foi quando eu disse, com a mão em seu ombro, de um jeito descompromissado: “Chora, não, Dondinho. Eu vou ganhar uma Copa para o senhor”. Oito anos depois, no mesmo rádio em que Dondinho ouviu essa derrota no estádio do Maracanã, ele me ouviu ser campeão na Suécia, em 1958. Tenho esse aparelho de rádio até hoje.

E na Copa de 1958, tremeu? Você tinha só 17 anos…

Era uma responsabilidade grande, mas já tinha maturidade como jogador. Pela própria seleção eu já tinha jogado a Copa Rocca, já tinha jogado finais pelo Santos, torneios no Maracanã. Isso me dava mais confiança. Mas claro que entrava em campo com frio na barriga. Até mesmo em 1970 foi assim. Mas, logo que o hino acabava, a preocupação ia embora.

Que malandragens era capaz de fazer para ganhar?

Inúmeras. Os beques do interior batiam demais. Eu chegava no ouvido de um deles e falava: “Pô, agora que o Santos tá querendo te contratar, você fica aí me dando pancada?”. Aí eles aliviavam. Na hora do tiro de meta, o goleiro tinha a mania de rolar pro beque, que devolvia para o goleiro pegar com a mão. Eu perdi a conta das vezes que, quando o goleiro rolava a bola para o zagueiro, eu corria gritando: “Falta, falta! Para, para!”. O beque se assustava, eu roubava a bola e fazia o gol.

Você e Garrincha nunca perderam jogando juntos, não?

Ficamos 12 anos jogando pela seleção sem perder pra ninguém. O Garrincha era objetivo, mas tinha vezes que matava a gente. Quando o Didi fazia um lançamento e caía certinho no pé do Mané na ponta direita, já íamos correndo para a área, pois era certeza que passaria pelo marcador. Aí, quando chegava em cima da linha, com todo o time esperando o lançamento, ele puxava a bola pra trás. Só faltava o time inteiro se enrolar nas redes de dentro do gol… A gente xingava ele de tudo que era nome. Mas como o Brasil só ganhava, tudo virava graça.

Você sente falta de jogar futebol? Sonha que está em campo?

Se sonho com isso? Dou até bicicletas na cama! Às vezes até grito gol. Ainda sofro pra caramba ao ver jogos, principalmente os da seleção.

Pra finalizar: o que é brasilidade para você?

Em primeiro lugar, tenho que agradecer a Deus por ter nascido no Brasil. Na minha opinião, brasilidade é acreditar que, sem dúvida nenhuma, este é o país do futuro. É acreditar neste país, trabalhar por ele e ter orgulho de ser brasileiro

Fotos Edi Pereira