Bons exemplos Brasil hoje Histórias do Brasil

O sertão nos pés

A profissão de seleiro está na alcunha de Espedito graças à tradição da família: aprendeu o ofício com seu pai, que aprendeu com o pai dele, o primeiro dos Seleiros na região do Cariri. Acontece, porém, que os vaqueiros começaram a rarear no sertão cearense, e a sela, gibão e instrumentos de montaria viraram coisa do passado. Há décadas, Espedito Seleiro, por batismo Espedito Velozo de Carvalho, tratou de reinventar a arte em couro. Percebeu que as mulheres eram vorazes consumidoras de sandálias e que as combinações de arabescos e cores não se esgotavam: “O pessoal mais sabido chama design, eu digo desenho colorido”.

O estilo das formas que desenha no couro renova a estética do cangaço e a identidade nordestina. “Me inspirei nos antigos clientes, tropeiros, vaqueiros e ciganos”, conta. Hoje, com uma linha de produção na pequenina Nova Olinda, a 500 quilômetros de Fortaleza, ele assegura: “Mesmo quando faço uma coisa parecida, boto uma diferença”. Verdadeiro ponto turístico na cidade, a oficina funciona com a mesma máquina de cortar couro que foi do pai de Espedito, Raimundo Seleiro. “Se a máquina falasse, contava a história bem melhor do que eu”, brinca o artesão. Os seis Seleiros da quarta geração também trabalham na loja-ateliê,
que funciona desde as sete da manhã.

Ainda se veem por lá algumas peças de gibão, tapete e montaria, mas o carro-chefe são mesmo as sandálias – modelo Maria Bonita (feminina) ou modelo Lampião (masculina) –, além de carteiras e bolsas. Em um mural na parede, fotos e recortes de revistas mostram até onde os calçados sertanejos já foram. Gente como a apresentadora Regina Casé e o cineasta Guel Arraes posa com o sertão nos pés. As peças aparecem em desfile da Cavalera, na São Paulo Fashion Week de 2004, e em filmes, como 2 Filhos de Francisco, de 2005. “Acho que se meu avô e meu pai vissem o que fizemos não iam acreditar”, conclui Espedito.