Histórias do Brasil Literatura

Símbolo da indolência foi escrito a toque de caixa

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar exclamava: – Ai! Que preguiça!… e não dizia mais nada.” Assim começa Macunaíma: O herói sem nenhum caráter (1928), de Mário de Andrade. Uma das maiores obras de nossa literatura. Aig, preguiça em tupi, virou “Ai! Que preguiça!…”, desabafo-chave que percorre toda a rapsódia e tradução de suposta indolência nacional.

O autor também se confessava um pouco Macunaíma. “Exerço a preguiça sistematicamente porque a considero como uma necessidade para os povos de climas quentes.” E explicava: “Meu maior sinal de espiritualidade é odiar o trabalho, tal como ele é concebido, semanal e de tantas horas diárias, nas civilizações chamadas cristãs. O exercício da preguiça, que eu cantei em Macunaíma, é uma das minhas maiores preocupações”. Preocupação nem sempre levada à risca. Mário escreveu o livro a toque de caixa, em oito dias, enquanto passava férias em Araraquara, interior de São Paulo.