Entrevistas Musica Samba

“GOSTO DE SER UM ZECA QUALQUER”

Quem conheceu Zeca Pagodinho de perto no início da carreira não dava muito tempo de vida para aquele magricela meio folgado, que bebia todas e derrubava qualquer um improvisando nos partidos-altos de Cacique de Ramos. Mas passadas três décadas de carreira, ele está aí com a mesma popularidade, apesar das marés da indústria musical. Quanto às farras que fizeram dele um dos maiores boêmios do País, Zeca diz que já não é mais aquele. “Mas também não deixei de ser aquele, só que um pouco mais envelhecido.” Uma das vantagens da idade talvez tenha sido conseguir controlar um pouco mais os impulsos. Embora às vezes eles ainda saiam de controle. “Tem dia que eu sou Jessé, tem dia que sou Zeca Zeca Pagodinho”, brinca, citando seu nome de batismo: Jessé Gomes da Silva Filho. E explica: “No dia do Jessé sou mais fechado, mais chato. Quando sou Zeca Pagodinho, aí é tudo ou nada. Vou pra favela, saio por aí, andando de ônibus…” A fama não causa embaraços, seja na Barra da Tijuca, seja em Xerém, onde vive uma vida pacata de interior. Mas é no distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que ele se sente em casa. “Lá não tem frescura. Vou para a praça ler jornal, vou ao mercado, à feira. Para o povo de lá eu sou um Zeca qualquer.”

Qual era seu plano de vida antes do sucesso?

Meu plano de vida era viver. Eu já estava endereçado para esse mundo da música. Não fui eu quem procurou isso. Na verdade, fiz tudo para não dar certo: a minha rebeldia com televisão, com rádio, com imprensa. Os caras da gravadora ficavam na minha porta implorando para eu atender a mídia. Mas eu era muito louco.

A gravação do clipe de Camarão que Dorme a Onda Leva, com Beth Carvalho, foi um momento de virada na sua carreira. O que mudou naquele ano de 1983?

Foi ali que a Beth me botou no mundo. E eu só aceitei fazer porque foi com ela. Eu tinha pavor dessa coisa de televisão. Mas a madrinha mandou, eu tinha que fazer. De lá para cá nunca mais tive sossego. O clipe foi uma porrada que me jogou lá nas estrelas. Eu acordava com 10 repórteres na minha sala. Queriam que eu participasse dos programas da Xuxa, do Chacrinha. Não era isso que eu queria, não. Aí comecei a me invocar. Meu negócio era fazer música. Fazer partido-alto, versar. Aí inventaram de me botar para cantar, veja só no que é que deu. Agora tô aqui.

Essa história de que você parou de beber é verdade?

Parei de beber o quê? Quem falou isso?

Você andou dizendo que não é mais um cara da noite…

Não deixei de ser aquele, só que um pouco mais envelhecido. Não dá mais, né? Tenho muito compromisso, entrevista, show. Se eu saísse ontem, não estaria aqui hoje com vocês. Tem dia que eu sou Jessé, tem dia que sou Zeca Pagodinho. No dia do Jessé sou mais fechado, mais chato. Quando sou Zeca Pagodinho, aí é tudo ou nada.

E quem está aqui hoje: Zeca Pagodinho ou Jessé?

Estou meio a meio. Estou quase lá. Mas o Zeca Pagodinho não pode vir hoje, não. Deus me livre! Amanhã tem show. Senão depois ele não vai querer ir embora. Vai pra favela, sai por aí, andando de ônibus.

Você faz isso hoje em dia?

Faço. Outro dia, saindo da festa da filha da Giovanna Antonelli, que era perto da minha casa, eu decidi ir a pé. Mas para o cara bêbado tudo fica mais longe, né? Aí vinha passando um ônibus, eu fiz sinal, entrei e ali mesmo fiquei. Nem passei na roleta. Dei 20 “mirréis” para a cobradora, disse para ela ficar com o troco e fui batendo papo com o motorista. Quando cheguei em casa, o povo disse que eu estava maluco. Maluco por quê? Não posso andar de ônibus, não? Em Xerém eu só ando de ônibus. Levo as crianças para a feira. Minha filha e meu neto têm que andar de ônibus para saber como é. A gente pega topic, van, carroça. No que passar a gente embarca.

Você é reconhecido como um sujeito que, apesar do sucesso, não ficou
besta. Muitos colegas seus perderam a humildade?

Cada um tem uma cabeça. Tem gente que não sabe lidar com a fama. Às vezes são os outros que se incomodam com a fama alheia. Tem vez que, quando alguém faz alguma coisa para mim, eu ouço: “Ah, é só porque o Zeca é artista…”. Aí é a hora de ir embora. Até dentro de casa já passei por isso. Não é porque sou artista, é porque é meu primo, que gosta de mim e quer fazer um agrado. Por isso é que gosto de Xerém. Xerém não tem nada disso. Lá eu xingo todo mundo, eles me xingam também. Não tem essa frescura. Lá eu vou para a praça ler jornal, vou ao mercado, à feira. Para o povo de lá eu sou um Zeca qualquer.

Do que é que você tem medo hoje? A saúde é uma preocupação?

Claro. Comecei bacana, quero terminar bacana. Vou morrer de bobeira? Medo de morrer, eu não tenho, não. Tenho medo é de sair daqui. Olha essa praia, quanta mulher bonita! Os botequins cheios, o samba rolando. Se tiver outro lugar como este, eu não me incomodo de morrer, não. Agora, largar meu neto, meus filhos, meus amigos, minhas amigas, isso é ruim. Meu problema é esse. Vai saber o que vou encontrar. Se eu ficar lá no céu com um vestidinho daqueles, tocando uma harpinha, não vai pegar bem pra mim. A malandragem vai comentar. Aí é melhor ir para o inferno mesmo, que lá deve ter pagode e boate.