Ilustres Brasileiros Musica

Eu sou o folclore

Se seguisse o desejo da mãe, Heitor Villa-Lobos teria sido médico. Preferiu abandonar a família e viajar pelo País, impregnando-se de nossos sons e ritmos. Apresenta-se na Semana de Arte Moderna de 1922, entre vaias e aplausos, regendo de chinelo. Tinha machucado o pé, mas entenderam como rebeldia. Fascina o pianista Arthur Rubinstein, que deseja ouvir suas composições. Villa responde: “Não falo com pianistas. Eles só tocam Chopin, Beethoven e Mozart”. Vai para Paris, onde deixa claro: “Não vim estudar com ninguém. Vim mostrar o que fiz”.

Guinchos, Pios e Baques
Heitor Villaobos nasceu em 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro. Autodidata, é apresentado ao mundo musical pelo pai, Raul. Funcionário da Biblioteca Nacional e instrumentista amador, Raul exige o máximo do filho: quando ouviam o guincho da roda do bonde, um pio de pássaro ou o baque de um objeto de metal caindo, Heitor tinha de dizer a qual nota musical correspondia aquele som. Se errasse, castigo. Aos seis anos, o garoto já toca violoncelo. Seria seu instrumento preferido. Aprende clarinete e, escondido da mãe, violão. Com a morte do pai, passa a frequentar rodas boêmicas do Rio,convivendo com sambistas e chorões como Anacleto de Medeiros, Sinhô, Donga, Ernesto Nazareth. Desses encontros nasceriam as séries de Choros e as Bachianas. Na estreia em Paris (1923), Villa se surpreende com artigo da jornalista Lucie Delarue Mardrus; pequena biografia conta fatos inusitados, como uma aventura na floresta amazônica, com tribo de canibais e danças rituais. A francesa lhe atribui a autoria de Viagem ao Brasil, do alemão Hans Staden (século 17). Villa não desmente, contribuindo para aumentar o mito a seu respeito.

Música para o povo
Durante anos, muitos associaram o nome dele ao Estado Novo e criticaram sua atuação na ditadura Vargas. Os biógrafos afirmam que ele se aproveitou do apoio estatal para realizar antigo sonho: educar musicalmente o povo brasileiro,
a partir da infância. Comanda gigantescos corais. Organiza o Guia Prático, com peças populares para ensinar música em escolas públicas.

Ouvido D’Alma
O método de composição intrigava: criava ouvindo novela de rádio ou burburinhos infantis. Tom Jobim o visitava. Certo dia, vendo-o compor com gente tocando violão, flauta, ouvindo música, perguntou: “Maestro, o senhor não se sente incomodado com essa barulheira toda?”. Ele respondeu: “Meu filho, o ouvido interno não tem nada a ver com o externo”.

Sodade do Cordão
No final da década de 1930, Villa-Lobos cria o rancho carnavalesco Sodade de Cordão. O pesquisador Jota Efegê, em Meninos, Eu Vi, conta: “Lembro dele na frente, sorrindo feliz, de terno branco, chapéu gelot, charuto no canto da boca,
agitando os braços, puxando o bloco, inesquecível”.

Oração musical
Em 1948, descobre que está com câncer. É operado em Nova Iorque. Arminda Villa-Lobos, dona Mindinha, a última mulher, narra: “Na véspera da operação, ele compôs uma maravilhosa música. Deu-lhe o nome de Ave Maria. Não era um homem religioso, mas foi aquela a forma que encontrara para rezar. Depois da doença, suas músicas ganharam uma característica diferente: eram mais violentas, mais fortes. Ele gritava”. Villa morre em novembro de 1959, deixando obra monumental.