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Antonio Brasileiro Jobim

Para Tom, aquela era uma noite como outra qualquer. Depois de mais uma apresentação no Vilarino, reduto da boemia carioca, tomava uma cerveja e torcia para que alguém lhe oferecesse uma carona para casa. Foi quando viu o jornalista Lúcio Rangel e Vinicius de Moraes se aproximarem. “Vinicius, este é o pianista de quem lhe falei.”

O poeta e diplomata procurava alguém para musicar sua peça Orfeu da Conceição. Achava que Tom era a pessoa ideal. Jovem, talentoso, disposto. Explicou os planos e, objetivo, perguntou: “Você aceita?” E Tom, mais preocupado em pagar as contas no final do mês: “Mas tem algum dinheirinho nisso aí?”

Tinha. Dias depois, ficaria pronta a primeira música: nada menos do que o clássico Se Todos Fossem Iguais a Você. Era 1956, início da mais importante parceria de nossa música. Juntos, na voz e violão de João Gilberto, Tom e Vinicius revolucionaram de maneira definitiva a canção brasileira. E mundial. Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Eu Sei que Vou te Amar, Canção do Amor Demais. Tantas outras.

ARQUITETO DOS SONS
Antonio Carlos Brasileiro Jobim nasceu no Rio, em 25 de janeiro de 1927. Começou a estudar piano na adolescência. Passava horas debruçado sobre as teclas de marfim. Logo começaria a tocar nas boates, a compor. Chegou a estudar Arquitetura. Menos de um ano depois, abandonou o curso, convencido que seu caminho era outro.

Com a mesma exatidão com que pretendia construir prédios e casas, o quase arquiteto foi construindo sua obra. Precisão que faria Edu Lobo declarar, anos mais tarde: “De todos os arquitetos de música que conheço, Tom Jobim é, sem dúvida, o de traço mais amplo e perfeito. Dele surgem projetos sólidos, feitos para abrigar o coração do mundo.”

Em 1958, Canção do Amor Demais vira música-título do LP de Elizeth Cardoso. Arranjos de Tom, músicas de Tom e Vinicius. No violão, João Gilberto dava forma pela primeira vez ao que seria a Bossa Nova. Meses depois, João lança compacto com seu primeiro sucesso: Chega de Saudade. A Bossa Nova torna-se êxito nacional, ultrapassa fronteiras com o espetáculo de 1962 no Carnegie Hall, em Nova York. A música brasileira ganha uma projeção nunca antes vista.

CRIAÇÃO: ATO DE AMOR
Tom constrói sólida carreira nos Estados Unidos. Faz apresentações na tv, é reconhecido nas ruas. Realiza um sonho: grava com Sinatra Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, escolhido pela crítica americana como o melhor álbum vocal do frutífero ano de 1967. Em vendas, só perdeu para o arrasador Sgt. Pepper’s, dos Beatles.

Entretanto, sua suposta alienação e a carreira internacional pareciam incomodar críticos por aqui. Quando Sabiá, parceria com Chico Buarque, venceu o Festival Internacional da Canção de 1968, o público vaiou. Preferia a segunda colocada, Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré. Meses mais tarde, editado o AI-5, Sabiá se tornaria uma espécie de hino de saudade dos exilados: Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para meu lugar.

Nos anos seguintes, Tom faria apresentações nos quatro cantos do mundo. Levava uma música que guardava, dentro de suas harmonias e letras, pedaços de um Brasil luminoso. “A criação é um ato de amor, alguma coisa que se comunica a toda a humanidade. Um artista não pode fazer nada que contribua para piorar o mundo.”
Em 8 de dezembro de 1994, o coração de Tom parou. Centenas de balões brancos e pretos subiram ao céu do Rio de Janeiro, representando as teclas do piano que sempre amou. A multidão cantava Chega de Saudade. E todos sabiam que a saudade apenas começara.