Artes Visuais Bons exemplos

Fábrica de Movimento

Desde 1971, o grupo mineiro já colocou nos palcos mais de mil bonecos. Um
acervo que faz de seu museu, que acaba de ser reinaugurado em Belo Horizonte, o
maior do gênero em toda a América.

Vassouras com cabeça. Eram basicamente assim os primeiros personagens do Giramundo, hoje um dos mais respeitados centros de teatro de bonecos do mundo.
Mas mesmo nos personagens ainda bem simples, nos anos 1970, já estava presente a “marca que faria da companhia um estilo e uma referência na área”, diz Marcos Malafaia. Segundo o atual diretor artístico do grupo, a principal peculiaridade do Giramundo desde o começo é “a concepção do boneco como obra de arte”. O artista plástico Álvaro Apocalypse foi quem primeiro abraçou a ideia do teatro com bonecos, depois de desistir de fazer animação pelos altos custos do processo na época. “Se não posso animar os personagens, os apresento ao vivo”, pensou, tomando um passo que o transformaria em grande mestre bonequeiro. A solução virou a paixão dele, de sua companheira, Terezinha Veloso, e de
Maria do Carmo Martins, amiga do casal.

A partir de A Bela Adormecida, com personagens feitos de vassoura, em 1971, o grupo encenou 40 montagens infantis e adultas. Para isso, foram confeccionados mais de mil bonecos de todos os tipos, formas e tamanhos. As marionetes, que medem de 30 centímetros a três metros de altura, podem ser de corda (manipuladas por cima), de varetas (manipuladas por baixo), de balcão (por trás) ou de luva; feitas de madeira, isopor, papel machê ou fibra de vidro.

No começo, a própria casa dos artistas na Grande Belo Horizonte abrigava a oficina. Depois, o grupo foi parceiro da UFMG por uma década, até se tornar independente, em 1999. Atualmente, com 50 integrantes, tem teatro, museu e até escola. Mesmo com a morte de Álvaro e Terezinha, em 2003, o trabalho continuou,
já que o restante do grupo conhecia bem seus ensinamentos. A produção de bonecos e materiais cênicos, afinal, sempre foi feita em ateliê, de forma artesanal.
Além da maestria na manipulação e confecção de bonecos, os artistas desenvolveram uma forma única de apresentação: mistura do teatro de bonecos tradicional com várias outras linguagens. Hoje, por exemplo, a produção conta com animações, técnicas cinematográficas e de robótica. “Contar história através do movimento é a raiz do Giramundo e do teatro de bonecos”, resume Malafaia. E completa: “O teatro que a gente faz procura dar uma resposta de por que a gente vive”.