Histórias do Brasil

Unificador da Nação

A verdadeira preferência nacional. Seu caldo figura entre os primeiros alimentos salgados do bebê. Somos o maior produtor e maior consumidor mundial. Podemos dizer que o brasileiro é dependente físico do feijão. Tem gente que não passa um dia sem ele.

Antes de Colombo aportar na América, incas, maias e astecas já conheciam essa fabácea, prima da lentilha, ervilha, soja. Também na velha Europa a cultivavam. Greco-romanos usavam feijões inclusive para votar: branco significava sim, preto significava não.

No Brasil, tornou-se parte da identidade nacional. Feijão com arroz, mais uma “mistura”, é o prato nosso de cada dia. Em nosso falar cotidiano, ele surge em saborosas expressões, como quando se diz de alguém: não vale o feijão que come. Equivale para nós ao arroz dos orientais. Na Tailândia, “pegar um arroz” é almoçar. Aqui, dizemos “vou pegar um feijão”.

E tem as variações sobre ele: a nacional feijoada, o gaúcho feijão tropeiro, virado à paulista, tutu à mineira. Mocotó e dobradinha com feijão branco. Acarajé, fritura de massa de feijão-fradinho. Abará, outro bolinho, este cozido no vapor. E vai na salada, seja o grão cozido, ou o broto. Até doce se faz!

Das centenas de variedades, os feijões mais comuns no Brasil são: preto, branco, mulatinho, rosado, vermelho, jalo – grão grande, vermelho rajado de branco. Cada lugar tem seu predileto. No Nordeste e na Amazônia, é o feijão-de-corda, de outra espécie, Vigna unguiculata. Em Salvador, o mulatinho ou carioquinha – usam até na feijoada! Em Florianópolis, o vermelho. Em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, o preto. Tão arraigada cada preferência, que uma vez, lá por 1980, faltou feijão preto no Rio. Meu amigo João Antônio, o premiado escritor de Malagueta, Perus e Bacanaço, mandou-me um aerograma desesperado. Pedia, “por caridade”, procurar em São Paulo, onde se come todo tipo de feijão, o seu pretinho, que não via a cor havia semanas. O despacho saiu mais caro que o feijão, mas era questão de compatriotismo.

Não à toa, em Sobrados e Mucambos Gilberto Freyre se inclui entre os estudiosos que consideram o feijão “fator de unificação brasileira”.

Um dois, feijão com arroz
Os dois são ricos em proteínas, carboidratos, ferro, sais minerais, vitaminas, fibras. O amido do arroz, além de energético, facilita a absorção da proteína do feijão. Alguns aminoácidos, essenciais ao crescimento da criança, se faltam em um, você encontra em outro: arroz é pobre em lisina, abundante no feijão, pobre em metionina, que o arroz tem de sobra. A dupla ainda previne câncer, bom funcionamento intestinal, protege o coração, combate a anemia. Um casamento perfeito que nosso povo intuiu.

O que a laranja tem a ver com a feijoada?
Sábado, dia de feijoada em milhares de restaurantes de várias regiões. Invenção dos negros, que transformaram em prato nobre cortes do porco que a casa-grande desprezava. Acompanha arroz branco, couve refogada, farinha de mandioca, molho de pimenta. E laranja: mais uma genial intuição popular. Sua vitamina C eleva de 10% para até 40% a absorção de ferro do feijão. E ajuda na digestão de um prato de sustança – o humorista Stanislaw Ponte Preta dizia que a boa feijoada é aquela que inclui uma ambulância na porta.

E dá samba
Em Saco de Feijão, o portelense Chico Santana critica a inflação do tempo em que acabou o mil-réis: Eu ia no armazém do seu Manuel com um tostão/ Trazia um quilo de feijão/ Depois que inventaram o tal cruzeiro/ Eu trago um embrulhinho na mão/ E deixo um saco de dinheiro.

Em Feijão da Dona Neném, de Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, a personagem convida para seu famoso pitéu no fogão de lenha, mas põe todos a cobrir sua casa. Diz o verso: Primeiro a laje, depois o feijão. Paulinho da Viola celebra “o feijão da Vicentina”. Mas é Chico Buarque quem dá a receita em Feijoada Completa. Avisa a mulher que leva amigos. E instrui: Prepare as linguiças pro tira-gosto. Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão. Mulher, você vai fritar um montão de torresmo pra acompanhar. Arroz branco, farofa e a malagueta. A laranja-bahia ou da seleta. Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão. Depois de salgar, faça um bom refogado, que é pra engrossar. Aproveite a gordura da frigideira pra melhor temperar a couve mineira. E vamos botar água no feijão.

SAIBA MAIS
Farinha, Feijão e Carne Seca – Um tripé culinário no Brasil Colonial, de Paula Pinto e Silva (Senac, 2005).
Feijão, texto de Danusia Barbara, fotos de Sergio Pagano (Senac, 2005).

Matéria publicada no Almanaque Brasil revista impressa escrito por Mylton Severiano da Silva (Myltainho)