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“Antes de ser artista, sou um comunicador”

Ele não se importa com o preço da fama. Orgulha-se dos papéis que fez nas novelas mais do que de muitos personagens que viveu nos tablados. A audiência da telinha ele transforma em plateia cheia no teatro. E dispensa patrocínios: “Sempre defendi que quem tem de pagar o trabalho do ator é o público. O patrocínio deixa você mole”.

Atualmente, você está gravando novela no Rio e está em cartaz em São Paulo. Não é difícil transitar de um personagem para o outro?
Não tem mistério. Talvez seja difícil para os atores que, digamos, são “tomados” pelo personagem. Eu costumo brincar que só é tomado quem faz macumba. A gente não é tomado. É um trabalho muito racional. É preciso entender o contexto do personagem, onde ele está inserido, quais são as razões políticas, sociais e econômicas dele. Entender os sentimentos, os preconceitos. Acaba-se formando uma imagem intelectual do personagem que é facilmente separada das outras. Não consigo entender os colegas que são tomados. Como é que eles interpretam um suicida? Se matam no fim, ou se matam antes, no laboratório?

Há uma espécie de mistificação do trabalho do ator nessas situações?

Sem dúvida. Você não vai ser um cortador de cana cortando cana durante um mês, até porque, depois das gravações, você volta para o seu apartamento com ar condicionado, toma um uísque, passa um cremezinho na mão. Quem faz laboratório é químico. É uma bobagem isso. Já que é para brincar, vamos brincar seriamente. Vamos estudar como foi a formação dos cortadores de cana na história do Brasil, como eles viveram, que tipo de exploração eles sofrem, como sobrevivem quando não há cana para cortar. Aí você vai trazer para o seu personagem dados muito mais importantes do que fazer dois ou três calinhos na mão.

Não há o risco de estabelecer uma relação fria com o personagem?

Sempre parto do princípio de que atuar é um trabalho intelectual. Mas, quando leio uma obra, a primeira leitura que faço é como a do público, com emoção. Depois procuro transportar para a cena todo aquele frescor que descubro na primeira leitura, que me faz rir, me emociona, me faz querer chegar até o fim. Não esqueço desse pedaço da emoção. Tem uma mescla, mas o trabalho intelectual é maior. Assim sou capaz de fazer qualquer tipo de personagem.

Nesse trabalho intelectual entra a capacidade do público de compreender a peça?
Tenho um amigo que adora os atores ingleses. Um dia ele pediu que eu fizesse alguma coisa como eles. Eu respondi: “Se você me der o público inglês, a cultura inglesa e pagar o ingresso em libras, talvez eu possa fazer algo próximo”. Não faz sentido eu usar a técnica do ator inglês se meu público é brasileiro. Tenho que me comunicar com essa plateia. Eu faço bate-papos depois de todos os espetáculos. Sei o que ela pensa. Há algum tempo o IBGE fez uma pesquisa com o público frequentador de teatro. A média de frequência é uma vez por ano. Isso quer dizer que, em 10 anos, o sujeito vê 10 espetáculos. Isso não forma ninguém. Por isso, depois que li e gostei de determinado texto, me vem a pergunta: e o seu José e a dona Maria, o que eles vão achar?

O que pesa mais nas suas escolhas, a comunicação com o público ou o desejo de sucesso?
É a mesma coisa. Se você não busca o sucesso, está fazendo o quê? Meu trabalho é de comunicação. Antes de ser artista, sou um comunicador. Eu posso ser artista sem ser comunicador. Posso ser comunicador sem ser artista. Eu gosto das duas coisas. Eu quero ser artista mas quero comunicar o meu trabalho para o maior grupo possível de pessoas. Claro que eu quero o sucesso. Mas não apenas o sucesso.

Há muito tempo você se queixa das dificuldades de produzir teatro no Brasil. Qual a avaliação que faz das leis de incentivo?
Eu faço teatro há 47 anos e tive três patrocínios na carreira. Sempre defendi que o que tem de pagar o trabalho do ator é a bilheteria, é o público. O patrocínio deixa você mole. Você não tem que pesquisar para montar um texto. Ele também isenta você da comunicação. Já está tudo pago, então posso fazer qualquer droga. É o que está acontecendo hoje. Acredito que o patrocínio, do jeito que está sendo feito no Brasil, impõe uma censura como nós nunca tivemos, nem na época da ditadura. É uma censura econômica. Quem seleciona o seu trabalho é o gerente de marketing de uma multinacional ou de um banco. O governo se isenta da responsabilidade. O gerente de marketing pode ser culto, inteligente, mas não entende coisa nenhuma de teatro ou de comunicação nessa área. Em Vermelho, sobre Mark Rothko, eu tinha um sócio que fez questão de pedir patrocínio porque a produção seria muito cara. Na primeira apresentação do projeto, a gerente de marketing responsável recusou a peça, afirmando que ela era “cultural demais”. Posso até tomar prejuízo, mas não me submeto a isso.

Qual acredita que seja a solução para resolver esses problemas?
Quando o governo encher o saco e, numa penada, acabar com a Lei Rouanet, as coisas vão mudar. E isso logo logo vai acontecer. Aí a turma vai ter que se virar. Quando isso ocorrer, os únicos que estarão fazendo teatro seremos nós.

Nós quem?
Eu. Porque estou me preparando para isso há muitos anos. As pessoas se desacostumaram, não sabem mais como trabalhar, como reduzir custos. Elas têm preguiça. Conseguem um milhão de reais para montar uma peça, então dá. Não é delas… O custo subiu muito, enquanto o ingresso baixou muito. Como não se depende da bilheteria, tanto faz quanto se cobra. Aqui cobramos 50 reais. Há sete anos, montei uma peça no Cultura Artística e cobrava 90 reais. Se fizer correção só na base da inflação, teria que cobrar 150 reais. A Folha de S.Paulo fez uma pesquisa anos atrás calculando a inflação da Constituinte para cá: feijão, 648%; arroz, 534%. Lá embaixo estava o teatro: menos 6%. Ou seja, houve deflação.

Você fala com muita propriedade desses números. Você se mete nas planilhas?
Eu sou produtor desde 1975. Sei fazer a parte administrativa toda, conheço os números. Fora isso, tenho um olhar para o maior. Não estou vendo só a minha produçãozinha. Estou vendo o teatro, as políticas culturais. Estou atento.

Como reage quando dizem que a televisão é um gênero menor?
A televisão foi muito injustiçada no Brasil. Durante muito tempo, ela supriu a ausência de leitura no País. Ela teve um papel educacional importante em um lugar com 40% de analfabetos funcionais. Apresentou obras de altíssima qualidade. A teledramaturgia brasileira é respeitadíssima no mundo inteiro. Na Venezuela, por exemplo, chamam as nossas novelas de telenovela de ruptura. Ou seja, novela de protesto. Abordamos temas sociais, políticos, econômicos como nenhuma outra produção no resto do mundo. Agora os americanos estão começando a fazer esses seriados maravilhosos. E, como sempre, eles aprendem, prestam atenção, veem o que é melhor e fazem melhor ainda. Vamos acabar consumindo como ninguém a obra deles. Até haver uma nova revolução na nossa dramaturgia. Tenho muito orgulho das telenovelas de que participei. Às vezes, até mais do que de algumas peças que fiz. Tenho profundo respeito pela televisão. Acho que as pessoas que falam mal da tevê não a assistem. Ou então assistem a programas errados.

Seu personagem de Amor à Vida está dando o que falar. Ele é um exemplo do papel que a novela pode ter?
As novelas são capazes de trazer discussões para a sala de jantar. Esse meu personagem, por exemplo, é profundamente homofóbico. Ele criou debates intensos. Imagine na favela de sei lá onde, o cara que tem um filho homossexual se vendo retratado na novela da Globo. Essa discussão acaba sendo muito rica. Foi feita uma pesquisa, e 50% dos entrevistados achavam que o meu personagem está certo, que tem que dar porrada no filho mesmo. Mas como será que pensam os outros 50%? Isso dá conflito, gera uma boa discussão.

É esse o talento dos nossos autores?
Esses caras são geniais. O problema é que eles estão sujeitos a um sistema mercadológico perverso. Eles têm que escrever 200 capítulos de uma novela. Essa que estou fazendo agora vai a 220 capítulos. São 220 capítulos de uma hora de duração. A cada dois capítulos, eles fazem um longa. São três longas por semana. Isso enquanto está indo para o ar. O cara tem que ser genial. Se você pega, por exemplo, Game of Thrones, seriado americano, a temporada de 10 episódios custou 100 milhões de dólares. São 10 milhões de dólares por capítulo. E eles ficam o ano inteiro filmando, com altas tecnologias e pós-produções. Quero vê-los fazer 200 capítulos, com pressões de ibope, fulano que ficou doente, atriz que brigou com sei lá quem… Não fazem.

Gravar de segunda a quinta não é cansativo?
Como você decora tanto texto? Texto de novela eu decoro na hora. Preciso de uns cinco minutinhos. Teatro é que cansa. A televisão é um rascunho. O que gosto nela é justamente o fato de ser rápida. Costumo brigar carinhosamente com os meus colegas de tevê porque eles querem mais tempo. Eu digo que, pelo contrário, tem que ser rápido mesmo. Com mais tempo não será televisão. E tem mais: se pegar um ator inglês, o Anthony Hopkins, por exemplo, e jogá-lo no estúdio, ele não conseguirá fazer novela. Por outro lado, nós fazemos o que o Anthony Hopkins faz. Com todo aquele tempo e todas aquelas condições, nós fazemos, sim.

Há muito tempo você convive com a fama. O que há de melhor e de pior em ser Fagundes?
A ideia é ser cada vez mais famoso. Porque aí consigo trazer as pessoas para o teatro, para o cinema, crio interesse. Mesmo sendo muito famoso, essa briga é difícil. Hoje, em São Paulo, há 80 espetáculos em cartaz. É difícil escolher. “Ah, vamos ver este aqui porque o título é engraçado: O Rinoceronte”. Depois o sujeito não entende nada e fica três anos sem ir ao teatro. A briga é com essas pessoas. Claro que, quanto mais famoso você for, mais suave essa briga vai ficar. Mas também corro o risco de afastar as pessoas. Eu poderia ter montado Vermelho, sobre Mark Rothko, de um jeito que ganharia todos os prêmios da revista Bravo!, mas não teria ninguém na plateia. Eu optei por dar humanidade ao texto. Quem sabe assim as pessoas que não conheciam o Rothko se interessassem em saber quem ele foi… O mesmo acontece com Tribos, que tem uma dramaturgia difícil.

A peça, que retrata um caso de deficiência auditiva para falar dos preconceitos da sociedade, tem feito sucesso?
Hoje o teatro está lotado, e daqui a meia hora vai lotar para amanhã. Quem vier amanhã comprará para a semana que vem. Aí, se Deus quiser, vai explodir e vamos abrir sessão extra. A ideia é ficar o maior tempo possível para sermos vistos pelo maior número de pessoas. Não é simplesmente um evento. É uma peça com a qual eu quero formar um público. Quero que as pessoas voltem e prestem atenção no meu próximo trabalho. Venho fazendo isso há 40 anos.

E o lado ruim da fama?
É aquela bobagem de não ter privacidade. Mas eu sempre falo: quem quer preservar a privacidade não pode se beijar na praia. Ninguém me vê em estreia, festa de badalação, lançamento de livro. É uma pena. Eu gostaria de ir. Mas sei que não vão me deixar em paz – com quem estou, com quem não estou, com quem cheguei, se peguei na mão. Para evitar isso, compro o livro, leio, mas não vou ao lançamento.

É verdade que você é fissurado em videogame?
Sou. É até meio contraditório: um cara que é “analfabytes”, que não tem nem computador em casa, ser ligado nisso. Videogame é demais. Eu descobri há uns três anos. Quando comprei meu PlayStation, fiquei uns 10 dias sem dormir. Não saía daquilo. Era uma coisa física. Suava, tinha taquicardia. Fiquei louco e maravilhado com aquilo. Depois de 10 dias, percebi que tinha que dar uma maneirada. Aí encostei o videogame, peguei meu livrinho, mas não consegui ler. Fiquei umas duas horas no primeiro parágrafo. Pensei: “Caramba, imagina o cara que nunca leu? Não consegue”. Hoje ainda jogo, mas muito menos. Senão você fica louco.

Qual é seu jogo preferido?
Eu jogo todos. Aqui em São Paulo estou jogando God of War e, no Rio, Tomb Raider. Já acabei os três do Uncharted. Vou até o fim. Estou no quarto do God of War. O visual daquilo é maravilhoso. Às vezes mato todos os carinhas só para ficar andando pelo cenário. God of War é Grécia. Tomb Raider tem aqueles penhascos, umas câmeras. É muito bem-feito e muito bonito. O jogador tem estímulos extraordinários. Mas fica um imbecil, né?

Entrevista publicada originalmente em novembro de 2013 na Revista Almaanque Brasil