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“Nosso texto tem menos crase, mas ainda assim é literatura”

Há 18 anos, o primeiro sarau da Cooperifa não juntou mais do que 15 pessoas. Hoje, cada edição semanal reúne ao menos duas centenas de visitantes no bar Zé Batidão, na Chácara Santana, região que só costumava atrair a atenção da mídia pela pobreza e criminalidade. Os saraus despertaram um número incontável de leitores e escritores, se estenderam para outras ações culturais e receberam visitantes ilustres, como o escritor moçambicano Mia Couto. E mais: tornaram-se modelo para movimentos semelhantes pelo País afora. “A ideia virou um rastilho de pólvora”, explica Sérgio Vaz, criador da Cooperifa e autor de sete livros, entre eles, Colecionador de Pedras (Global, 2013). Vez ou outra, explica, os frequentadores são vistos como “poetas exóticos” pelo círculo acadêmico tradicional. “O que há de exótico em um mecânico escrever?”, questiona. “Para quem a gente deve pedir autorização? Para a Academia Brasileira de Letras?.”

Como você definiria o objetivo da Cooperifa? Revelar novos poetas?
A Cooperifa não é um movimento de escritores, é um movimento para criar leitores. Se surgirem escritores, e sempre surgem, ótimo. Mas essa não é a ideia. Na minha infância não havia teatro, museu, cinema, nada. Os únicos espaços públicos eram o bar e a igreja. O fato de a Cooperifa acontecer na simplicidade de um bar fez com que a ideia virasse um rastilho de pólvora. Hoje, sei de mais de 50 saraus de periferia espalhados pelo País. Há saraus inspirados na Cooperifa em Salvador, Porto Alegre, Minas, Arcoverde.

O que o Zé Batidão tem de especial?
Fui praticamente criado lá. O bar foi do meu pai, cresci trabalhando ali. Fora isso, ele está perto da sede da escola de samba, do time de várzea, da associação de amigos do bairro. Esse negócio simples de pegar o microfone e falar a poesia naquele lugar foi o que mais atraiu o pessoal. O que mais tem neste mundo é poeta. Pode não ter livros de poeta, mas todo mundo tem uma poesia dentro da gaveta. As pessoas então começaram a desenterrar suas poesias. O Zé Batidão virou um grande quilombo. As pessoas vinham como se estivessem indo a Palmares, fugindo da mediocridade, do marasmo. O bar, que era a minha senzala na infância, se tornou o que me liberta. Lá refundamos a amizade. É um lugar onde o pessoal conversa. E não é um gueto de intelectuais do gueto. Nós moramos na periferia, estamos longe do centro geográfico, mas não estamos na periferia da informação. Estamos longe do centro de São Paulo, mas não do nosso próprio centro.

Também tem cinema no Zé Batidão?
Segunda sim, segunda não, apresentamos filmes e documentários. É o Cinema na Laje. Mas nada de filmes de Hollywood ou blockbusters. Às vezes os diretores ou atores comparecem para falar do trabalho. A ideia não é passar cinema para quem não tem dinheiro. É formação de público. Até porque defendo que todos têm dinheiro para ir ao cinema. Quem não vai é porque não tem o hábito. Há também um paradoxo no Brasil: há cada vez menos cinema e cada vez mais filmes.

Quais são os outros projetos da Cooperifa?
Fazemos várias ações. Poesia no Ar, quando são soltas poesias em bexigas. O Ajoelhaço, quando, no Dia Internacional da Mulher, os homens pedem perdão de joelhos às mulheres. A Mostra Cultural, com diversas apresentações gratuitas de cinema, teatro, dança, música e literatura. O Poesia contra a Violência, com saraus em escolas públicas. Também fornecemos uniformes para times de várzea da quebrada. Em troca, os jogadores e suas famílias têm de frequentar a Cooperifa por um mês. Ou seja, pagamos para o cara ouvir poesia. No ano passado fizemos o Natal de Livros, distribuindo gratuitamente oito mil livros. É para ninguém mais falar que não lê por causa do preço do livro. Nosso trabalho é de porrada na comunidade. Não tem nada de “pedagogia do coitadinho”. Coitadinho nada. Reclamar faz parte, mas é preciso fazer. Antes, eu adorava filosofar sobre os problemas em mesas de bar, mas não fazia nada. Agora, a filosofia é: reclamar como sempre e agir como nunca.

Como foi o processo de atração dos primeiros frequentadores?
O cara via o vizinho fazendo poesia e pensava: “Eu faço também”. A diferença daqui é que a poesia é que se mostrou humilde. A poesia que pediu licença para entrar na vida das pessoas. Não as pessoas pediram licença para ter acesso à poesia. A ordem se inverteu. Quem quer trabalhar com o povo primeiro tem que entender o povo. Para entrar no sarau, Jorge Amado, Neruda, Adélia Prado precisam tirar o sapato. Tudo foi acontecendo pela gentileza e sem arrogância. A literatura foi tratada como uma arte qualquer, no bom sentido. Uma vez uma pessoa falou que eu estava ensinando as pessoas a escrever errado. Eu expliquei que quando alguém diz nóis vai é porque nós vamos. E vamos mesmo. A poesia entrou na vida das pessoas através da simplicidade, e esse é o grande barato.

Os eventos hoje atraem muita gente de classe média. Como vê esse fenômeno?
Eu jamais vou reproduzir preconceito, detesto segregação. Pelo contrário, adoro juntar pessoas. Qualquer um é bem-vindo. Desde que saiba respeitar o espaço. A Cooperifa é o que é há 12 anos. É a pirâmide do Egito: vai ruir, mas vai continuar daquele jeito. Um dia desses, uma mulher de classe média foi à Cooperifa pela primeira vez e me chamou: “É você que cuida disto aqui? Eu gostei muito. Vou te ajudar a melhorar tudo”. Eu não tinha outra coisa a responder: “Quer me ajudar? Então não vem mais, não”. Ela não entendeu o que é a Cooperifa.

“Nós moramos na periferia, estamos longe do centro geográfico, mas não estamos na periferia da informação. Estamos longe do centro de São Paulo, mas não do nosso próprio centro”

Você acredita que existem características comuns entre os escritores que frequentam os saraus das periferias brasileiras?
A literatura periférica tem um estilo. Nasce da dor. A literatura que fazemos não é melhor nem pior do que a do intelectual que, em palestra, começa a citar autores do século 13, 14 em francês. Nossa literatura tem menos crase, ponto e vírgula, mas ainda assim é literatura. Quando você escreve sobre dores de amores, sente o coração bater. Se o personagem toma um tiro, você escuta o barulho, consegue ver o sangue escorrer. É outro tipo de literatura. É o texto dos sofridos. Me perguntam: “Posso escrever literatura periférica morando em Moema?”. Não pode. Ou até pode, mas não vai ficar bom. A literatura grega é feita pelos gregos, a literatura romana é feita pelos romanos. A literatura periférica é feita por gente que mora na periferia. Não é arrogância. É que é coisa nossa.

Já sentiu preconceito por sua origem?
Algumas vezes. Em eventos e debates, de vez em quando surgem participantes que quase destacam: “O Sérgio Vaz é poeta, mas é poeta da periferia. Vamos devagar com ele”. Já perguntaram em debate se eu já vi gente morrer. Dá vontade de responder: “Eu li Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, podem ficar à vontade de falar de literatura”. Muitos querem falar sobre crime ou miséria comigo. É como se eu fosse um estrangeiro. Como se eu tivesse vindo da Palestina, não da mesma cidade deles. Em vez de falar de poesia, me perguntam: “E o MC Daleste, o que você acha que aconteceu?”. Sei lá, cara, eu não trabalho na Rota nem sou bandido. Li 300 mil livros na vida, sou doido para falar sobre eles, mas em muitos lugares não consigo. Parece que falar sobre Neruda, García Márquez é só com os que fizeram faculdade.

Qual é a reação dos círculos literários diante da produção dos frequentadores da Cooperifa?
Há quem se assombre: “Ah, um mecânico escrevendo poesia!”. O que há de exótico em um mecânico escrever poesia? Para quem a gente pede autorização para escrever? Para a Academia Brasileira de Letras? Tem gente que consegue se incomodar com a dona Maria, dona de casa que escreve nas horas vagas. Parece que há pessoas que só ficam bem, só se sentem boas, se houver 1 milhão de analfabetos. Em uma comunidade às vezes tem 70 poetas. Aí o cara critica a qualidade das poesias. Irmão, não é um campeonato. As pessoas estão escrevendo sobre suas dores, destilando seus ódios e rancores em forma de poesia. Depois, a poesia vai mudando a pessoa e a pessoa vai mudando a poesia. Esse tipo de crítica só pode ser falta de generosidade. Se alguém diz pra mim que não gosta da minha poesia, tem todo o direito. Não gostar da minha poesia dá o direito de não me chamar a uma feira de livro ou de não comprar meu livro. Mas ter raiva pelo fato de a gente escrever é outra coisa.

Mas a recepção, em geral, costuma ser boa, não?
A gente se impôs. Eu já fui fazer palestra na Alemanha para falar da minha literatura. Estive em Londres, Paris, México. Não é possível que os gringos vejam coisas boas e, por aqui, ainda nos considerem exóticos. Um cara escreveu que eu era como um ornitorrinco, porque gostava de ler e morava na periferia. Por outro lado, conheci muita gente bacana de verdade, como Heloísa Buarque, Eliane Brum, Cacá Diegues, Luiz Alves Júnior. Gente que poderia estar em qualquer lugar, mas está sempre na Cooperifa, e aonde eles vão falam do nosso trabalho. Isso é generosidade.

De onde vem sua ligação com a literatura?
Meu pai era leitor contumaz. Apesar da simplicidade, na minha casa nunca faltou nem alimento nem livros. Aos 14 anos, abri Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Däniken. Não entendi nada. Meu pai se ligou e começou a me dar livros para a minha idade. Por ser um garoto tímido, fui lendo cada vez mais.

Muitos querem falar sobre crime ou miséria comigo. É como se eu fosse um estrangeiro. Como se eu tivesse vindo da Palestina, não da mesma cidade deles.

“Li 300 mil livros na vida, sou doido para falar sobre eles, mas em muitos lugares não consigo. Parece que falar sobre Neruda, García Márquez é só com os que fizeram faculdade”

A música teve papel importante para a sua formação cultural?
Eu frequentava bailes black, ouvia muito James Brown. Até que comecei a prestar atenção nas metáforas da música popular brasileira. Foi um passo para me interessar pelos poetas: Pablo Neruda, Ferreira Gullar, Eduardo Alves da Costa, Baudelaire, João Cabral de Melo Neto. Havia um grupo de música no meu bairro e os caras falaram: “Por que você não faz as letras?”. Foi aí que comecei a pensar em ser poeta. Mas o que eu queria mesmo era ser jogador de futebol. Queria não: quero. Afinal, os sonhos não envelhecem.

Você define a sua poesia como de protesto?
Sim, ela tem essa característica. Quando comecei, diziam que era demodê escrever poesia de protesto, já que o Brasil vivia uma democracia. Até que li Confesso que Vivi, do Neruda. E também li uma frase do Ferreira Gullar: “Só é justo cantar quando seu canto arrasta consigo pessoas e coisas que não têm voz”. Outro dia, num debate, um cara perguntou: “Quando acabar a fome, a miséria, o racismo, você vai escrever sobre o quê?”. Respondi que escreveria um livro chamado Que Mundo Maravilhoso. Mas, enquanto isso não acontecer, vou ter que falar sobre esses temas. Alguém tem que falar. Não é possível que todos estejam felizes.

Sua poesia tem raiva?
Tem, claro. Eu nunca odiei ninguém, não gosto do ódio. Mas tem raiva, sim. Amor é da hora, mas raiva é fundamental. E não precisa ser pobre pra ter raiva da situação social de tanta gente. Não precisa passar fome para ter raiva da fome. Basta ser uma pessoa mais ou menos normal, ainda que tenha tudo, para se preocupar com os que não têm nada.

Qual o principal papel da poesia na sua vida?
A minha poesia é uma luta. Ela serve para eu não enlouquecer. Escrevo para me vingar do passado. Hemingway já disse: “Pra ser um bom escritor tem que ter tido uma péssima infância”. Eu não queria ser poeta. Mas as palavras ficam me incomodando, me atordoando, me pressionando. Eu escrevo sobre as ruas que os anjos não frequentam. Qualquer tipo de arte tem o poder de ser uma válvula de escape. A educação lhe dá uma coisa cerebral. A arte o torna cidadão.

A poesia é capaz de ganhar a molecada da periferia?
Claro. Em 2010, por exemplo, dei oficinas de poesia na Fundação Casa, ex-Febem. Quando cheguei, os jovens ficaram ali, sentados, com cara de mau. Perguntei se alguém gostava de poesia. E os meninos: “Não, senhor”. Uma coisa bem fria. Aí pedi licença para dizer uma poesia e recitei Negro Drama, dos Racionais: Negro drama / Entre o sucesso e a lama / Dinheiro, problemas / Inveja, luxo, fama / Negro drama / Cabelo crespo / E a pele escura / A ferida, a chaga / A procura da cura… No meio eu percebi que já tinha moleque cantando comigo, ainda meio baixinho. Lá pro fim todos começaram a cantar junto. Um perguntou: “Ei, senhor, Racionais é poesia?”. Eu disse que sim, e ele emendou: “Então nóis gosta”.

Qual é a sua identificação com o rap?
É total. Eu ouvia música popular brasileira, mas estava à toa na vida quando o fim de semana do parque Santo Antônio me pegou. Eu ouvia artistas falar de Ipanema, de Leblon, de Itapuã, e de repente havia uns caras que falavam da minha quebrada. O sentimento que tenho pelo pessoal do rap é de gratidão. Eles foram os caras que acordaram a periferia para a valorização, para a autoestima. Foi escutando Racionais e outros grupos de rap que muita gente descobriu quem era Zumbi, Steven Biko, Nelson Mandela. O pessoal da bossa nova abriu a janela e viu um dia de luz, uma festa do sol, e fez uma música. Tudo certo, é sincero. Mas a gente abre a janela e vê outra coisa, então temos que falar sobre o que vemos. As pessoas hoje marcham na rua para falar de coisas que a gente já dizia havia muito tempo. Quando acabou a ditadura, o Brasil exaltou a liberdade de expressão. Mas a fome continuou, o racismo continuou, a pobreza continuou, e ninguém quis mais falar sobre isso. Aí foi a vez de o sofredor falar. Nosso trabalho é romper com essa invisibilidade.

“No fim da música, todos começaram a cantar. Um moleque perguntou: ‘Ei, senhor, Racionais é poesia?’. Respondi que sim, e ele emendou: ‘Então nóis gosta de poesia’.”

Entrevista publicada originalmente em agosto de 2013 na Revista Almanaque Brasil