E a saudade roda, roda, como um disco de vitrola…

{maio de 2009}


O título acima é o verso de um samba de Lamartine Babo. Uma demonstração de como os discos estão no imaginário nacional. Há 107 anos, o primeiro começou a rodar no Brasil. De lá para cá, eles ditaram modas, causaram polêmicas, emocionaram ouvintes e sofreram diversas transformações. E, apesar das tecnologias digitais, continuam sendo o grande registro musical da alma brasileira.

Não importa o formato. São os discos que registram a história musical do Brasil. Tal qual os livros, têm o papel de preservar uma época ou pensamento e guardá-lo para a posteridade. Dos vozeirões bolerais aos protestos combativos do rap, tudo cabe nesse democrático objeto circular.
O primeiro a ser gravado no Brasil, em 1902, trazia o lundu Isto é Bom, de Xisto Bahia, na voz do cantor Baiano: O inverno é rigoroso / Bem dizia a minha vó / Quem dorme junto tem frio / Quanto mais quem dorme só / Isto é bom, isto é bom / Isto é bom que dói
A gravação era mecânica. Apenas em alto e bom som era possível registrar a voz e os instrumentos. E dá-lhe cantores dó-de-peito, que se esgoelavam ao microfone. Só em 1926 surgiria a gravação elétrica. Uma revolução. A partir daquele momento era possível registrar novas nuances e gingas, e cantores de vozes pequenas ganharam passe livre nos estúdios.
Mas os discos eram de 78 rotações, à base de cera de carnaúba. Neles cabiam apenas duas músicas. Até que em 1950 surgiram os lps (long plays), com várias músicas de ambos os lados. Os discos viraram produtos de massa.
O elepê era o dono do pedaço até o fim dos anos 1980, quando surgiram os Cds (compact discs), menores e com som mais limpo. E, uma década depois – para o terror da indústria fonográfica –, o reduzido formato eletrônico mp3, com a possibilidade de troca gratuita de música pela internet. O que virá pela frente nesse intenso processo de mudanças é impossível saber. Mas, por sorte, um pouco da rica história da música brasileira está guardada nos discos.
E nas próximas páginas deste Almanaque.

Cartola estreou a bordo de um navio
Como parte da chamada “política de boa vizinhança” norte-americana, o inglês radicado nos Estados Unidos Leopold Stokowski atracou seu navio no Rio de Janeiro em 1940. A missão: registrar “a mais legítima música brasileira”. Para tal, pediu ao maestro Heitor Villa-Lobos que reunisse artistas de samba, batucada, marchas de rancho, macumba e embolada.
E assim fez Villa-Lobos. A gravação foi a bordo do próprio navio. Até o capitão foi espiar. Não era para menos: durante oito horas consecutivas passaram pelos microfones Donga, Pixinguinha, Dona Neuma, Zé da Zilda, Jararaca e Ratinho, João da Baiana, além de Cartola, que mandou Quem Me Vê Sorrindo. Estavam prontos os dois álbuns de Native Brazilian Music. O pagamento dos artistas? Entusiasmados cumprimentos… Muitos nem sequer ouviram a gravação. O disco nunca foi lançado no Brasil.

 

  Cartola gravou o primeiro samba em 1940.
Mas só em 1974 lançou o primeiro disco solo,
com canções como Alvorada, Disfarça e Chora
e O Sol Nascerá


 

Olha o Padilha!
“Estou acostumado a acompanhar música. Conversa é a primeira vez”, resmungou um violonista durante a gravação de O  Último Malandro, de Moreira da Silva. O samba-de-breque ainda não havia se popularizado, e aquele jeito de “brecar” a canção para falar ainda causava estranhamento.
O disco continuou a ser feito mesmo com a lendária bronca. Entre as canções, a pérola Olha o Padilha, que narra a história de uma batida policial:  Um tira forte aborrecido me abotoou / (…) E jogou uma melancia pela minha calça adentro / Que engasgou no funil / Eu bambeei, ele sorriu.
O episódio é baseado numa história real. Padilha era um temido delegado carioca dos anos 1950, que costumava colocar um limão dentro da calça de quem considerasse suspeito. Se não caísse no chão, era sinal que a calça era apertada – coisa de vagabundo ou homossexual.
O “meliante” ia direto pra delegacia. O Último Malandro é considerado o melhor elepê de Moreira da Silva.

Pela gravadora Elenco, Cesar Villela fez antológicas capas para boa parte dos álbuns de bossa nova, consideradas revolucionárias até hoje. Veja algumas:

 


 Paulinho da Viola
“Meu primeiro amor morreu como a flor”
Ele tinha (e continua tendo) a fama de artista reservado, que pouco expõe a intimidade. Mas Paulinho da Viola abriu exceção em Nervos de Aço, gravado após a separação de sua primeira esposa. A confissão começa na capa, produzida pelo diretor editorial deste Almanaque, Elifas Andreato. Ela mostra o artista amargurado, às lágrimas, empunhando um ramalhete de flores.
As canções melancólicas vêm uma at
rás da outra: Comprimido (na qual aborda o suicídio), Nervos de Aço, Sentimentos. Além da confissão definitiva: Não quero mais amar a ninguém / Não fui feliz, o destino não quis / O meu primeiro amor / Morreu como a flor ainda em botão / Deixando espinhos que dilaceram meu coração


O jazzista norte-americano Jack Wilson gravou um disco inspirado na bossa nova em 1965. Nos créditos,um misterioso Tony Brazil ao violão. Tratava-se de Tom Jobim. Como tinha contrato com outra gravadora, Tom arrumou o pseudônimo de gosto duvidoso para poder tocar. Ganhou 210 dólares de cachê.



Chico Buarque
“Deu pra tirar um sarro”
Chico Buarque estava na Itália há mais de um ano quando recebeu a notícia de que as
coisas no Brasil haviam melhorado. Decidiu voltar. Só o que encontrou naquele início de
 1970 foi um cenário de tortura, arbitrariedades e censura. Consternado, compôs Apesar de Você, um recado ao governo de Médici. Enviou para a censura com pouca esperança de que a música fosse aprovada, mas os censores liberaram.
O samba saiu num compacto simples. Em menos de um mês,
100 mil cópias vendidas. Só então os militares se tocaram.
Mas o povo já cantava nas ruas os versos da esperança:
Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia…
A polícia tratou de invadir a gravadora e destruir as cópias do disco. Num interrogatório, perguntaram a Chico quem era o “você” da canção. “É uma mulher muito mandona, muito autoritária…”
Numa carta a Vinicius, comentou o ocorrido: “Deu bolo com o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro”.


Em 1972, Os Novos Baianos lançaram Acabou Chorare,  considerado um dos grandes discos da música brasileira. O título enigmático surgiu após ouvirem uma história de João Gilberto. Sua filha Bebel havia caído e começou a chorar. Após ser acudida pelo pai, decretou: “Acabou chorare”.


 Boemia, aqui me tens de regresso / E suplicante te peço a minha nova inscrição. O samba-canção A Volta do Boêmio, interpretada por Nelson Gonçalves, se tornou em 1957 o primeiro disco brasileiro a chegar à marca de um milhão de cópias vendidas.


 

Sem padre, sem repórter. Sem arma, sem socorro
O Brasil virou os olhos e ouvidos para a periferia em 1997. A força das letras de Sobrevivendo no Inferno tornou os Racionais conhecidos no País todo, e despertou a nação para a miséria e a violência dos bolsões de pobreza escondidos nas grandes cidades.
A primeira música a ganhar projeção foi Diário de um Detento, escrita por um sobrevivente do massacre do Carandiru, em que narra os horrores do episódio: Sem padre, sem repórter / Sem arma,
  sem socorro / Vai pegar HIV na boca do cachorro / Cadáveres no poço, no pátio interno / Adolf Hitler sorri no inferno / O Robocop do governo é frio, não sente pena / Só ódio, e ri como uma hiena.
Mas a letra mais impactante é de Capítulo 4, Versículo 3. Trata-se de um relato violento e realista do cotidiano dos negros pobres do País: Para os manos da Baixada Fluminense à Ceilândia / Eu sei, as ruas não são como a Disneylândia / De Guaianazes ao extremo sul de Santo Amaro / Ser um preto tipo A custa caro.

 

Wilson Batista produziu o disco Polêmica, uma compilação dos sambas compostos a partir da briga com Noel Rosa. Fez uma única exigência a Nássara, que ilustraria a capa. “Me desenhe com a camisa do Flamengo”.

A redescoberta de Noel Rosa
Noel Rosa morreu em 1937. Até 1949 haveria apenas 19 gravações de suas músicas. Muita coisa permanecia inédita, e obras-primas estavam fadadas ao esquecimento. Até que Aracy de Almeida resolveu a questão. Com o apoio de Braguinha, então diretor artístico da Continental, gravou dois álbuns com repertório exclusivo do Poeta da Vila.
 
Entre as preciosidades, Conversa de Botequim, O X do Problema, Silêncio de um Minuto e O Orvalho Vem Caindo. Na capa, uma magistral ilustração de Di Cavalcanti e texto de Lúcio Rangel. “Foram os primeiros lançamentos fonográficos no Brasil a ganharem capas coloridas e textos informativos”, explica o historiador Egeu Laus.

  

Um baiano bossa-nova
Chega de Saudade (1959) é o histórico elepê de estreia de João Gilberto. E, apesar de iniciante no mercado fonográfico, mereceu um texto de exaltação na contracapa: “João Gilberto é um baiano ‘bossa-nova’ de 27 anos. Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores […] Ele é simples, sincero e extraordinariamente musical. PS: Caymmi também acha”.
O autor das linhas? Antonio Carlos Jobim.

 


E o disco
mais vendido
da história
do País é…

Músicas para Louvar o Senhor, do Padre Marcelo Rossi (1998), com 3 milhões e 400 mil cópias.


 

Saiba mais

Confira vídeos com algumas das canções, além de informações completas sobre os discos citados na matéria.


 

Bruno Hoffmann
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