José Hamilton Ribeiro

“A música caipira é um tesouro cultural”

{junho de 2007}

Para falar das caipirices do País, convidamos o mais importante dos nossos repórteres. Aos 70 anos, Zé Hamilton continua à toda. Além de nos trazer achados do campo no Globo Rural, do qual é repórter há 26 anos, lançou recentemente o livro Música Caipira – As 270 maiores modas de todos os tempos. Figura ímpar, este vencedor de sete prêmios Esso é pessoa simples. E espirituosíssima. Faz piada até com o trágico acidente que lhe amputou a perna: “Mais difícil do que ser repórter com uma perna só é ser repórter com quatro”.

O que é ser jornalista?
Segundo a lei atual, jornalista é quem fez escola de Comunicação. Para mim, jornalista tem que ter qualquer diploma de nível superior. É preferível que tenha quatro anos de universidade, por pior que ela seja, do que ser analfabeto. Tem que estar preparado. É uma profissão delicada, envolve política, liberdade de expressão.

Do que precisa um jornalista para ser bom?
Vocação, como em qualquer outra profissão. As escolas de Jornalismo de hoje é que não são boas. Mas, se for para fechar as escolas ruins, deve-se começar pelas de Medicina, depois as de Engenharia e por fim as boates, que são as faculdades de Direito. Eu mesmo fiz Direito numa cidade a 500 quilômetros daqui sem ter ido a nenhuma aula. E ainda fui o orador da turma!

Ainda lhe fazem muitas perguntas sobre a cobertura da Guerra do Vietnã?
Em Santa Catarina, fui convidado para fazer uma palestra em uma reunião anual de amputados. Não sabia o que falar, então contei que, depois do acidente, fui para o hospital. Uma das enfermeiras simpatizou comigo, passava a mão no meu cabelo, me consolava. Lá pelo terceiro dia, comecei a ter ereções permanentes. Ficava pensando no meu constrangimento se ela esbarrasse naquilo quando fosse me tomar a temperatura. Eu morreria de vergonha. Contei a situação para o médico. Ele explicou que, por eu ter perdido a perna, estava tendo uma reação comum, momentânea. A cabeça demora a entender a perda e continua jogando sangue lá pra baixo. “Então, doutor, me dê o seu cartão, porque daqui a 50 anos, coisas da idade, talvez eu precise que o senhor me arranque a outra…”

Fiz Direito numa cidade a 500 quilômetros daqui sem tr ido a nenhuma aula. E ainda fui orador da turma!

Há quanto tempo você está no Globo Rural?
O programa tem 27 anos. Estou lá há 26. Era diretor de um jornal de Campinas quando fui para a Globo. Achava que estava arrasando. Um dia, a Ponte Preta veio jogar em São Paulo. Depois do jogo, fui ao vestiário, onde, no meio daquele monte de jogador pelado, encontrei Conceição, torcedora-símbolo da Ponte. Assim que ela me viu, abriu aquele sorriso: “Mas doutor Hamilton, o senhor trabalhava num jornal tão bom em Campinas, e agora está fazendo um programa de tomate?!”. Que figura… O Globo Rural é um dos maiores telejornais do Brasil. O ibope fica entre 14 e 15 pontos. E isso na cidade de São Paulo – tem cidade do interior em que a audiência é muito maior. É um telejornal voltado para o homem do campo, não fica só nos detalhes técnicos. Fala do jeito que o homem do campo vive, da sua música, sua dança, sua comida, seu lazer, e até das suas patifarias.

Por falar em patifaria, que história é essa que na sua terra o povo costuma caçar tirisco?
Santa Rosa do Viterbo é uma cidade muito pequena e, toda vez que chegava gente de fora, era um acontecimento. Para alguns – só para os que mereciam o investimento -, não deixávamos de aprontar as nossas. Levávamos o sujeito para o bar e, lá pelas tantas, contávamos sobre um animal misterioso, o tirisco: “É um bichinho do mato. Fica entre o coelho e a perdiz. Carne igual não existe”. Então saíamos todos para o cerrado. O sujeito ficava com um saco de estopa numa mão e, na outra, uma vela acesa. Esse era o pato, o cara de fora. O negócio era ficar batendo numa caixa para atrair o bichinho pra dentro do saco. Enquanto isso, os outros se espalhavam pelo mato para tocar o tirisco. Na verdade, deixávamos o cara sozinho. Por horas. Íamos para o bar, beber, dar risada e esperar que o coitado percebesse que era tudo gozação…

Essa cultura caipira está desaparecendo?
Bem, o Almeida Jr. morreu, mas sua obra continua. O Villa-Lobos também morreu, mas é o compositor brasileiro mais importante de todos os tempos. O que foi feito em música caipira de 1920 a 1970 é um tesouro cultural. É um arcabouço cultural da história do homem brasileiro do interior do sudeste. Naquela época, os poetas do meio rural seriam eventualmente grandes escritores, grandes poetas se tivessem sido levados para a escola bem cedo, se depois fossem para conservatórios e academias. Mesmo a maioria sendo analfabeta, descreveram brilhantemente o Brasil.

Qual a saída para a música caipira?
Acho que existem três caminhos: o primeiro é o que trilham os sertanejos modernos, como o Zezé di Camargo e o Luciano, o Chitãozinho e o Xororó. O segundo é o tradicionalista, com viola, dupla e temática rural. A terceira vertente, na qual eu acredito mais, é a que pegou a viola caipira e a transformou em um instrumento quase erudito. Nomes como Roberto Corrêa, Ivan Vilela, Almir Sater e outros fazem parte dessa corrente. Hoje, cada cidade grande do sudeste tem uma orquestra de viola. É um fenômeno.

Compete ao poder público manter a tradição?
A Rádio Cultura FM, de São Paulo, tem quatro programas de música americana. E nenhum de música caipira. Música americana é uma maravilha mundial. Mas quem deve ter esse tipo de programa é a Rádio Cultura do Alabama. Rádio Cultura em São Paulo tem que ter música caipira.

Música americana é uma maravilha. Mas quem deve ter esse tipo de programa é a Rádio Cultura do Alabama.

Com o tempo, o adjetivo “caipira” acabou ganhando conotação pejorativa, não?
Não se pode ter vergonha de ser chamado de caipira. Certa vez, perguntaram para o Villa-Lobos qual era a diferença entre música popular e erudita. Ele respondeu: “Meu filho, música é uma só. Sendo boa, manda ver!”.

E qual a diferença entre o caipira e o sertanejo?
Para Zuza Homem de Mello, sertanejo é o que vem do sertão. E sertão tem no Brasil inteiro. Tem no Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul, em São Paulo. Essa música caipira de que trata meu livro é a música sertaneja dentro dessa área geográfica do Brasil. Sertanejo é o gênero; caipira, a espécie. Caipira é aqui do Sudeste.

Os artistas do sertanejo moderno costumam ser muito criticados. Qual é a sua opinião sobre eles?
São grandes artistas, mas não são mais rurais. E também não são urbanos. Não encontraram ainda seu lugar. São sub-urbanos. A música caipira aconteceu em um tempo quando o Brasil tinha mais de 80% da população no campo. Hoje é o contrário. Como fazer música caipira hoje se quase não existe mais carro de boi, ranchinho de beira-chão, baile na roça? Vai fazer música caipira com o quê?

É fatalismo dizer que a música caipira vai acabar?
A questão fundamental é o cenário. O cenário do samba, por exemplo, está lá, continua inalterado. Já o cenário da música caipira acabou. Hoje ninguém mora nas fazendas. O tratorista, que opera colheitadeira, mora na cidade, tem o carro do ano. De manhã, pega o carro, vai até a fazenda, encosta na garagem, pega a máquina, com ar condicionado, e vai gradear, colher, preparar a terra, passar veneno. De tarde, pega o carro e volta pra casa. Vai para o ar condicionado, vê a novela da Globo. É um sujeito urbano.

Em seu livro você revisita o repertório de outros tempos, não?
A música caipira é um tesouro cultural brasileiro. Principalmente quanto à letra. É um repositório, um documentário que precisa ser preservado. Por exemplo, uma musiquinha do Tonico e Tinoco tem uma estrofe assim: Caju dá no cajueiro / Taboa dá no tabuá / Madeira de canjarana não segura marroá / Falar com quem não escuta, não adianta gritar. No livro tem uma centena dessas coisinhas.

Deu trabalho selecionar 270 canções?
Um dos critérios do livro é que as escolhidas deveriam ter boa música e boa letra. Eu não fiz o livro sozinho porque não sou músico. Sou mais ligado na letra. Chamei dois músicos para me ajudar. Um é de Bom Despacho, Minas Gerais, catireiro e violeiro: o José Maria Campos. O outro é um violeiro de Uberaba chamado Júnior Borges. A idéia inicial era fazer com 100 músicas. Mas muita coisa boa ficou de fora. Aí fomos para 150. Acabamos fechando em 270. Mesmo assim, muita gente me liga e diz: “Poxa, você não pôs aquela música…” Eu respondo o seguinte: podemos ter excluído uma ou outra música boa, mas bagulho não entrou nenhum! Como diz uma amiga jornalista, cabeça de compositor de música caipira é que nem bunda de galinha: você não sabe se vai sair um ovo – uma obra-prima – ou se vai sair titica…

Qual é a música mais engraçada que vocês recolheram?
A mais engraçada que eu acho é Horóscopo, de Alvarenga e Ranchinho. Muito bem-feita. Fala sobre o melhor mês pra casar. Janeiro não é bom por isso, fevereiro não é bom por aquilo, junho não é bom porque é um mês muito fogueteiro, o menino nasce soltando pum desde o começo. Quando chega em dezembro, ele fala: “Olha, amigo, se você ficou até aqui sem casar, por que vai estragar a sorte do ano inteiro?”. Outra que compete é uma de Cornélio Pires, com a dupla Zé Mulato e Cassiano. Ela compara o homem e a espingarda. No começo, a espingarda dá tiro em qualquer passarinho. Manda bala em qualquer rolinha. Quando chega aos 40 anos, começa a escolher. Lá pelos 60, 70, só dá tiro no pé. Acabou a mola! Uma vez me perguntaram: “Como é entrar nos 70 anos?”. Eu disse: “Meu amigo, entrar nos 70 não é nada, o duro é sair dos 69!” É dureza… Dizem que o sujeito percebe que está ficando velho quando aparecem dois sintomas: o primeiro é quando começa a esquecer das coisas. O segundo… ahn… qual o segundo mesmo?

Cabeça de compositor de música caipira é que nem bunda de galinha: você não sabe se vai sair ovo ou titica.

De quem é a primeira gravação da música caipira?
É da dupla Mariano e Caçula, em 1929. A música é do Cornélio Pires: Jorginho do Sertão. A dupla é formada pelo pai e pelo tio do Caçulinha, o sanfoneiro do Faustão. Ele é a grande sanfona de algumas das melhores coisas de música caipira, inclusive Índia, que tem aquela sanfoninha bonita que a gente ouve.

Além do Música Caipira, você lançou mais três livros quase de uma só vez…
É verdade. Além dele, estou na praça com O Repórter do Século, Os Tropeiros e o Livro das Grandes Reportagens. Isso só mostra uma coisa: que não sou escritor profissional. Escritor que é escritor não faz isso… No Livro das Grandes Reportagens, só entrei com uma pequena história. Eram perfis de grandes personalidades. Um escreveu sobre o aiatolá Khomeini, outro sobre Pelé. Eu escolhi o Zé Bilico, um mineirinho do interior que mantém o costume de capar o galo, porque assim ajuda a galinha a chocar. Na casa dele, vi uma foto de um menino de oito anos, e ele com uns 84. “É seu neto?”, perguntei. E ele: “Não, é meu filho”. “Mas Zé Bilico, você com essa idade…”. E ele: “É que aqui na fazenda a gente só capa os galos…”

[Zé Hamilton, repórter incansável, resolve fazer ele mesmo a pergunta final]

Vocês não perguntaram, mas eu vou responder. A entrevista depende da resposta, certo? Às vezes a pergunta é boa, mas a resposta, não. Então vou contar umas histórias. Eu fiz 50 anos de reportagem. A pergunta que mais me fazem nas escolas de Jornalismo, desde então, é: “O que você aprendeu nesses 50 anos?”. E eu respondo: “Duas coisas. A primeira é que a torneira de água quente nos banheiros geralmente é a da esquerda. A segunda é que azeitona preta é tingida. O resto você tem que aprender todo dia”. E pra finalizar vou contar que, certa vez, num programa de auditório, o apresentador perguntou: “Zé Hamilton, você foi ferido no Vietnã, mas continua repórter. É difícil ser repórter com uma perna só?”. E eu: “Olha, é mais difícil do que com duas, mas é bem mais fácil do que com quatro”.

Da redação
7 comentários. Comente!
Compartilhar



Tags: , , , , , , , , , , ,