Água potável cai do céu no Semi-Árido

{novembro de 2005}


O Programa 1 Milhão de Cisternas, desenvolvido pela ASA e apoiado pela Fundação Banco do Brasil, chega a 11 Estados brasileiros que enfrentam seca. Com 106 mil reservatórios construídos até agora, revoluciona a vida dos sertanejos com solução simples: o armazenamento da água da chuva.

Cisterna no quintal: 16 mil litros, abastecimento para oito meses.

Articular é unir, manter contato para realizar algo. No Semi-Árido, é sinônimo de sobrevivência. Enfrentar seca e sol quase o ano inteiro é coisa para guerreiros. A região compreende parte dos nove Estados do Nordeste mais Minas e Espírito Santo. Por lá, chove pouco e em períodos determinados. Para aliviar a falta
d’água, surgiu em 1999 a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), união de organizações que congrega 750 entidades em 900 municípios.
A ASA gerou frutos e, por meio de programas de formação e mobilização, vem conquistando resultados expressivos. O principal projeto, o Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC), estabeleceu em 2003 a meta de construir 1 milhão de reservatórios de água. Até agora, já construiu 106 mil. Cada cisterna atende a uma família. Feita de placas de concreto, guarda água da chuva que cai no telhado. Com capacidade para 16 mil litros, é capaz de abastecer uma família de cinco pessoas por até oito meses.
As cisternas representam a independência dos carros-pipa, das caminhadas em busca de água barrenta em cacimbas, a diminuição de doenças e, também, a geração de emprego e renda para os moradores das comunidades participantes.
O primeiro passo do projeto é realizar cursos para os trabalhadores rurais. Só tem direito a cisterna quem participa da formação. O programa atua em diferentes frentes. Orienta as famílias a usar adequadamente a água e como fazer a manutenção das cisternas. Além disso, capacita gente da própria comunidade a construir os reservatórios. Agricultores assistem a cursos e aprendem o ofício de pedreiro, passando adiante o conhecimento.
Em quatro dias de trabalho a cisterna fica pronta. Enquanto realiza o serviço, o construtor se hospeda na casa da família beneficiada. Todos trabalham, da mulher que oferece o almoço ao filho que ajuda como servente de pedreiro.

Sem luz, mas com cisterna
Exemplo do bom resultado é a ASA Paraíba. O Estado, dividido por Unidades Gestoras Microrregionais (UGMs), abriga região bem seca, o Alto Sertão. A Central das Associações dos Assentamentos do Alto Sertão Paraibano (Caaasp) coordena os trabalhos. Já atende a 44 municípios.
Nas casas dos vizinhos Aldeide Pedro de Araújo e José Correia, em Cajazeiras, as cisternas já fazem parte da paisagem. Há três anos, em meio a bananeiras, mamoeiros e hortaliças dos quintais, vê-se o tanque branco, orgulho das casas.
“É o nosso pote grande, cuidamos com carinho”, diz Aldeide. “No inverno é um paraíso; água que não tem poluição”, emenda José.

Aldeide, as filhas e o vizinho José: Água no quintal.

Os dois moram no Assentamento Santo Antônio. Antes da cisterna, andavam quilômetros para chegar a um
açude e trazer água nos jegues. Faziam várias viagens por dia, debaixo de sol quente. Hoje, têm tempo para outros afazeres.
Situação semelhante acontece no vilarejo de Peba dos Vicentes, a 14 quilômetros de São José de Piranhas. Lá vivem 11 famílias e, desde 2002, nove casas têm cisternas. O morador Damião Gomes da Silva, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade, diz que o trabalho só tem resultado quando a comunidade dá as mãos e luta pelos objetivos. Ele, a mulher e os três filhos sabem dos cuidados para manter a cisterna: limpam-na anualmente e racionam o uso para não faltar água. A casa não tem energia elétrica. Há 30 anos Damião espera que o poder público instale os postes. Mas, antes da luz, chegou a água: “Isso não podia faltar.”

O pedreiro Antônio e o beneficiado Zé Preto.

Ir embora? Nem pensar
Final de tarde. Na casa de Zé Preto, comunidade rural de Cachoeirinha, em Cajazeiras, reina trabalho intenso. Dia de Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro. A bênção certamente virá com a cisterna cheia d’água.
Antônio Luís Rodrigues, pedreiro há dois anos, perdeu a conta das cisternas que construiu. Agricultor, aprendeu o novo ofício aos 56 anos. Hoje o consideram um dos mais caprichosos da região. Há cem pedreiros capacitados a construir cisternas e basta conversar com eles para descobrir a força do projeto. Antônio se emociona ao lembrar cada família que o acolheu. Partilha da emoção e chora ao falar das dificuldades que enfrentou Otácio Emídio de Oliveira, da comunidade de Cocos. Chegou a ir sete vezes a São Paulo para trabalhar no corte de cana. Agora tem profissão: pedreiro. Otácio construiu 29 cisternas e vai iniciar mais dez até o fim do ano. Ir de novo para São Paulo?

Otácio e Rosimar, em cocos.

“Nem pensar, não consigo mais deixar minha família.” Ele e a mulher, Rosimar, lembram que já foi mais difícil: “Criamos nossas filhas pegando leite dos outros, hoje tenho minha vaquinha.”

Pouca água, muita alegria
Em Poços, Cajazeiras, a situação é difícil. As cisternas estão prontas há meses, mas a chuva não chega. Raimunda de Santana é uma das que espera. Gasta a manhã toda em viagens à cacimba. Mas não desanima: “Comigo não tem tristeza. Nunca tive inveja de nada nesta vida, mas, quando ia na casa das minhas amigas, sentia, por terem água em casa. Agora também vou ter.”
Para fortalecer as ações do P1MC, a Fundação Banco do Brasil estabeleceu parceria com a ASA para ampliar a capacidade operacional das 48 UGMs existentes e implantar mais dez novas unidades. O objetivo é
alcançar a meta de 1 milhão de cisternas, além de propiciar condições para a implantação de outras tecnologias sociais que visem a captação de água da chuva para atividades produtivas.

Raimunda, enquanto a água não chega.

São exemplos: barragens subterrâneas, tanques pedra, barraginhas, cisternas calçadão, entre outras. A presidente da Associação do P1MC, Valquíria Lima, aposta na parceria: “Só assim poderemos multiplicar o aprendizado e, através de tecnologias simples, mudar concretamente a vida das pessoas”.

PERISCÓPIO
Projeto prova que consciência é base da alimentação
Com o objetivo de sensibilizar, esclarecer e mobilizar comunidades para o uso de alimentos de baixo custo e alto valor nutritivo, a Fundação Banco do Brasil adotou o projeto Alimentação Sustentável em diversos locais onde atua. Baseado em pesquisas da nutróloga e pediatra Clara Brandão, o projeto conscientiza famílias em matéria de saúde e nutrição, bem como sobre os benefícios alcançados quando se adota uma alimentação saudável. O trabalho procura recuperar também a importância das plantas medicinais e identificar na natureza os nutrientes que ela oferece.
Uma das principais orientações do Alimentação Sustentável é a capacitação de educadores para que realizem ações preventivas, disseminem práticas de consumo ecologicamente responsáveis e criem uma rede de segurança alimentar nas comunidades onde vivem.

Mariana Proença
Nenhum comentário. Comente!
Compartilhar



Tags: , , , , , , ,