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25 – Abril de 2001

 

AS AVÓS NÃO DEIXAM MENTIR

Para falar a verdade não estou certo de quando preguei minha primeira mentira. Também esqueci qual foi a última. Claro que minto. Se dissesse que só falo a verdade, vocês me chamariam de mentiroso, no que estão certos. Não sei se os filósofos e os barbeiros do tempo em que se afiava a navalha espanhola na tira de couro – lembram? – concordam comigo: mas a mentira é a segunda pele de todo sujeito sincero. Nos genuínos salões de barbeiro, aos quais me refiro com o maior respeito, dava-se à mentira o eufemismo de lorota. Mentiroso, mentiroso carimbado, era barrado com os olhos em qualquer salão que tivesse nem que fosse uma única cadeira Ferrante e estufa de aquecer toalha de amaciar barba. Barbeiro sabia impor limites. O que se tolerava, até com simpatia, eram loroteiros. A lorota era um passatempo lúdico, contraponto à seriedade da fotografia emoldurada do Getúlio Vargas, que os barbeiros mais compenetrados de sua missão histórica faziam questão de exibir na parede pintada a têmpera. Mais ia se tornando falecido o sorriso do Getúlio na parede, mais os loroteiros iam tomando liberdades. No fim era uma esculhambação, como velório virtual; mas sem defunto. No entanto, por mais cabeluda que fosse uma lorota, por mais exagerada, nunca chegava a ser uma mentira de verdade.

Às vezes dava de acontecer que uma lorota de barbearia até sem pretensão, mera conversa de andorinha, fosse oficializada e acabasse tendo a dimensão e a respeitabilidade ou os estragos de um boato de rua, de bairro, de comarca. Esse negócio de dizer que conversas leva-as o vento tem muito a ver. Quanta reputação foi para o monturo a partir de uma lorota que parecia inofensiva como um perdigoto de resfriado. No entanto, não foi apaziguada a tempo com um pedido de desculpas, um perdão, um errei-sim, manchei o teu nome. Por fim deu no que deu.

Bem verdade que há mentiras e mentiras. As mais triviais são as mentirinhas de ocasião. Tenho a impressão de que secretárias bilíngües, as estenógrafas, as que atendem ao telefone durante o expediente, são mulheres geniais treinadas para mentir com classe. Principalmente secretária de político. Acho que sem essas deusas protetoras os políticos mal teriam tempo de estar ocupados o tempo todo e não poder atender no momento, quer deixar recado? O bom das secretárias, e digo isso com o maior dos meus cavalheirismos, é que elas mentem tão sinceramente que convencem estar sempre falando a verdade. Sem as mentirinhas das secretárias a verdade do mundo seria insuportável.

Houve uma época em que a cidade de São Paulo teve cinemas apoteóticos. Nos filmes não havia efeitos especiais como agora. Mas o luxo das salas era feérico. O Cinemundi era o contrário; não tinha a menor vaidade. Tenho a impressão de que o Cinemundi, antes de ser implodido e ter ido para o inferno, existiu com a única e precípua razão meritória de estimular as mentiras do menino adolescente que cabulava aulas e dizia em casa que tinha ido à escola. Não estou defendendo o cinema, longe de mim tal idéia. Mas o Cinemundi passava bons filmes educativos de faroeste.

É comum mentir-se falando a verdade. Não sei se já aconteceu a algum de vocês parar no farol vermelho do cruzamento e o guri vir correndo perguntar se você tem uma moeda. Sempre acontece. No começo, no século passado, até que eu dava. Depois achei melhor mudar o script. Falei que não tinha dinheiro, nem bala de hortelã, nem chiclete. É chato. Moleque não acredita nessas durezas. Então passei a inventar a verdade:
– Minha avó não me deu dinheiro hoje.

Leva uns segundos para o fulaninho se tocar. Não é acreditável que um sujeito de cabelos brancos, panca de avô, embora não seja avô, ainda dependa de uma avó. Não dependo mesmo. Minhas duas avós descansam em paz faz tempo. Nunca me deram grana. Mas o guri que descola moedas no farol não é programado para encarar esse tipo de desculpa verdadeira. O moleque olha sério, duvidoso. Depois sorri: dá a impressão de que acaba de descobrir que não é o único neto desassistido da avó na cidade. Nisso acende o farol verde. Lá vai você, desfraldando no trânsito seu farrapo de verdade. Não deu a moeda e não foi preciso mentir. Tudo muito confortador. Verdade que se todo o mundo apelar para esse mesmo recurso para desvencilhar-se dos faróis nos cruzamentos, daqui a um tempo não vai haver originalidade na desculpa. O guri pode achar, com razão, que você é um loroteiro. Vai ver que sua avó lhe deu dinheiro, tio. Você é mentiroso, tio. Nesse caso, seja franco. Diga apenas, rápido:
– Hoje vou ficar devendo, garoto.


Texto por Lourenço Diaféria,
especial para o ALMANAQUE BRASIL
 
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