36 – Março de 2002


DUAS MULHERES EM PÊLO

Salvo melhor juízo, toda mulher normal tem nebulosidades. Nem todo o mundo concorda com isso, claro. Muito homem no bar bota banca, diz que tira mulher de letra, que nunca tomou umas canjebrinas a mais para curar cicatriz de paixonite. São super-homens, peito de tungstênio, coração blindado. Mas mulher é assunto delicadíssimo, especializado. E não sou do ramo. Preferiria mil vezes falar de manivela de automóvel e motor de arranque. Mas vamos lá.

Há vários tipos dessas criaturas melífluas e ambíguas. Uns as chamam de anjo do Bem; outros, de anjo do Mal. Uns as consideram santas; outros as estigmatizam com nomes impublicáveis numa revista sadia como esta. Portanto serei objetivo, sem firulas. Em primeiro lugar, aviso que sou a favor de mulher de modo geral. Sei que nesse ponto não sou exatamente unanimidade. Acontece que, por tradição, por formação ideológica, por questão de estética, entendo que mulher, qualquer mulher, em especial se não for muito perua, nem minha chefe, nem guarda-noturna, tem meu voto preferencial para qualquer coisa.

Qualquer coisa, em termos. Não consigo engolir mulher beque de espera jogando futebol feminino. Por favor, não me levem a mal. Não me tomem por torcedor corinthiano grosseiro e rude. Aceito e prestigio sem dificuldade juíza de futebol com colar de pérolas, bandeirinha de sutiã, gandula com piercing no umbigo. São profissionais que a meu ver amenizam este vale de lágrimas, independente de opções clubísticas. Fanático algum teria o cafajestismo de xingar a mãe de uma árbitra do nobre esporte bretão ao apitar um pênalti duvidoso contra seu time. Menos ainda um energúmeno chamaria de “burra, burra” uma técnica de futebol que fizesse uma substituição estratégica no decorrer da pugna.

Aliás, pugna é palavra arcaica que tem tudo a ver com o que vou dizer a seguir. Antes, porém, quero insistir num ponto: pra mim não tem esse negócio de que mulher tem de ficar sempre no banco de reserva. Nada disso. Apenas quero deixar claro que mulher tem de ocupar os espaços em igualdade de condições com os homens, salvo raríssimas exceções. Sou a favor da mulher carteira, da mulher borracheira, da mulher maquinista do trenzinho de Campos do Jordão, da mulher motorista da Viação Santa Brígida, da mulher política, da mulher presidente do Banco Central e, noves fora, até prova em contrário, até da mulher presidente do Brasil. Mas aí, colegas, vamos com calma. Não basta ser mulher para passar Gelol na situação. Mulher, em determinados casos – e com o perdão da má palavra – tem de ser macha pra caramba para encarar os desatinos dos homens. Deu para entender aonde quero chegar?

Vamos agora ao que interessa. Sou da geração em que pudor dava ibope. Havia prostituição, enrubescida, e casas de desinfecção, de cara limpa, na Itaboca e na Aymorés, ruas que confinavam mulheres chamadas de má-vida. Ou vida-fácil, o que era a mesma coisa. O pai, médico, de um senhor que depois subiria como busca-pé na política nacional, enriquecia receitando lavagens profiláticas. Havia rendez-vous silenciosos, acoitados. E também gigolôs e colombinas. Mas tudo pundonorosamente discreto e dissimulado.
Por essa época vim a conhecer, de vista, as duas primeiras mulheres nuas da minha vida. As Graças. De bronze, em tamanho mais que natural, as duas estátuas tinham sido esculpidas pelo Victor Brecheret. Permaneciam em pêlo, estáticas, em nu frontal, adornavam a Galeria Prestes Maia. Os moleques, tipo eu, passavam reto por elas, fingindo com o canto dos olhos não ver suas vergonhas. Um dia seqüestraram as duas mulheres brônzeas num museu grã-fino da cidade. Ficaram ali uma temporada. Estão agora de volta. Mantêm o sutil sorriso malicioso nos lábios metálicos. Parecem continuar fiéis e invioladas. Creio que são as mulheres públicas desnudas mais pudicas na cidade. Mas, olhadas bem, de frente, têm suas nebulosidades.


Texto por Lourenço Diaféria,
especial para o ALMANAQUE BRASIL