SOLTEIRO, SOLTEIRÃO
Por Lourenço Diaféria
As revistas femininas nas bancas de jornais devem ter seções especializadas para explicar o que entende exatamente uma mulher solteira. Pelo visto, se é que entendi direito o que uma cantora disse outro dia na televisão, a mulher do nosso século pode ser totalmente independente até para ser mãe. Não precisa ter marido; e não carece nem mesmo ter um único companheiro. É livre, ponto final. Será verdade? Não sei por quê, estou me lembrando da Marquesa de Santos, dona Maria Domitila. Foi solteira, casou com o alferes Pinto, a seguir desquitou, ficou viúva, se engraçou com o imperador Pedro I (que era casado), o
imperador morreu, dona Maria Domitila casou outra vez com o brigadeiro Tobias de Aguiar, tornou a ficar viúva, teve vários filhos (que educou e aos quais deixou bens), por fim faleceu com 70 anos, numa boa. Isso tudo não é fofoca, não. São fatos da história do Brasil, acontecidos no século 19. Acredito que a Marquesa seria capa colorida de qualquer revista de sala de espera de cabeleireiro. De modo que, a rigor, com exceção da explosão das duas torres nos Estados Unidos, não há grandes novidades sob o Sol. Portanto vou deixar de lado considerações sobre mulher. Vou falar de homem solteiro. Disso entendo um pouco.
Não sei se sabem, fui solteiro até meus vinte e cinco anos. Nesse período tive experiências corriqueiras. Fui convidado para ingressar no escotismo (que recusei, não gosto de circular por aí mostrando as pernas peludas), cabulei aulas de Matemática e Geometria, comi pastéis e tomei garapas, tive meu primeiro emprego como fiel de cartório, aprendi a desmontar e montar de olhos fechados uma arma altamente destruidora chamada fuzil, me formei soldado raso no extinto Quarto Regimento de Infantaria de Quitaúna, comprei meu primeiro automóvel, um fusca vermelho no qual capotei espetacularmente na cidade catarinense de Curitibanos, e tive várias paixões eternas que duraram pouco. Antes de casar, sobrevivi, só.
Só, é modo de dizer. Tinha mãe. Meu pai, seu Felipe, já havia morrido. Ser solteiro, com mãe viva, é outro departamento. Não sei se vocês já tiveram ocasião de assistir a um solteiro tentando tirar rugas do colarinho de camisa de seda. E pregar botão, já viram? Sabe quando cai o botão da calça que deve estar exatamente naquele lugar da cintura em que é fundamental haver um botão? Já tentaram achar na gaveta um par de meias para substituir a meia furada, e encontrar as meias enroladas, uma cinza, a outra preta? Já chegaram em casa e foram obrigados a assistir a um programa especial da madrugada, uma hora vendo milagres simples, uma dor de estômago que passou, uma frieira que parou de coçar, um lumbago que sumiu de repente, outra hora vendo a naturalidade com que são expostas ao público com insônia situações que você não gostaria de contar nem sob tortura nos bons tempos da ditadura? Já fritou ovo queimado? Já abriu a geladeira e viu que estavam estouradas as quatro latinhas de cerveja que havia botado para gelar na véspera? Já atendeu ao telefone e uma voz feminina, que você logo imagina ser a da Flávia Maria, lembra?, pergunta se por acaso você estava dormindo, você estava começando a pegar no sono, você fica feliz, recorda quando ela disse que ia viajar, não pensasse mais nela, adeus, Mariozinho, vê se me esquece, e, de repente, não é a Flávia Maria, a voz é parecida, mas não é, é a atendente de plantão do pronto-socorro perguntando se é da residência do senhor Moreira, se pode vir depressa, a senhorita Amélia sofreu um acidente.
– Senhorita Amélia? Que Amélia?
– Aí não é da residência do senhor Moreira?
– Aqui é o Mário. Aqui não tem nenhum Moreira.
– Então desculpa, seu…
– Mário.
– Desculpa, seu Mário. Foi engano.
Todo o mundo nasce solteiro. É normal. Depois, dependendo de como corre o rio para o mar, muda de rumo. Às vezes muda por causa do signo. Do mapa astral. Ou muda por curiosidade. Não tinha nada que ir ao pronto-socorro àquela hora da madrugada dar apoio à senhorita Amélia. Que Amélia?
– Amélia agora é esposa do ex-solteirão.


uando se fala em solteiro, solteirão, pessoa solteira, a primeira idéia que ocorre é de homem que escolhe abrir

mão da convivência com mulher. Não se pensa, por exemplo, em mulher. Mulher solteira é a que sobra. A que fica para tia. Será que essa não é uma visão machista, como a minha? De qualquer forma, não pretendo dar palpites sobre o que se passa na cabeça de uma mulher, quando decide querer viver sua vida livre e desembaraçada de marido, de companheiro, de amante. Não preciso dizer que cada um é um.