VIDA IN NATURA
Por Lourenço Diaféria
Embora a Lua, o satélite, que fará parte do roteiro turístico, tenha até guia e representação cartográfica, não se pode compará-la com a lua, com letra minúscula, que ilumina os telhados barrocos da cidade mineira de Tiradentes. São coisas iguais, porém completamente diferentes. A Lua pode ser medida, examinada e calculada com computadores; já a lua depende só do modo de olhar e sentir.
Uma coisa é a estrela, qualquer estrela, que pulsa na ponta de um telescópio, na cúpula do observatório astronômico; outra coisa é a estrela que tremeluz no veludo da noite.

rata-se de lugar-comum, mas na vida somos reflexos de
experiências pessoais (e, se não estou equivocado, intransferíveis).
A Natureza, que tanto se badala – tem até um dia no calendário para ser comemorada –, depende de
sensibilidade. De que valem o arrebol, o crepúsculo, o luar, a aurora boreal, o ruço que lambe as montanhas azuis, se não houver sentimento para deles usufruir? De que valem os pombos que circulam entre os fordes, os fuscas e os chevrolés urbanos se não existirem almas generosas que deles se apiadem e desviem o tráfego para não atropelá-los? Para que servem os pardais e tico-ticos vagabundos, comedores de migalhas e quireras, se todos fossem insensíveis como o magnífico italiano Seu Amérigo, que os capturava com ratoeira ao pé de
humilhada. Jamais será uma vaca lírica. Seu mugir será apenas um lamento sem harmonia com o universo. Uma falta de imaginação atroz.
Penso que cadaum veja a lua e as estrelas de maneira própria. A Lua pode ser de todo o mundo; já a lua uma hora é de beltrano, outra hora é de fulano. A lua é dos uivos, dos lobisomens, dos bebuns. Essa lua é
um mistério em aberto.
Talvez o mesmo se possa dizer do mar. O mar pode ser bem-explicado nos
cursos de Oceanografia. Qualquer grumete, qualquer capitão de longo curso, qualquer marinheiro de cabotagem tem tudo a dizer do mar. Conhecem as cambalhotas dos peixes-voadores, dos golfinhos, das orcas. Mas a emoção do mar principia nas redes dos pescadores. Quando se conhece o mar ele gruda nas retinas, o cheiro cola nos poros. Ninguém descobre o mar e faz de conta que não mudou em nada. O mar impregna. Com o tempo o mar pode até tornar-se um episódio burocrático. Funcionário da Alfândega olha o mar e não vê o mar. Vê guias de importação, memorandos, ofícios, tabelas. Todavia o verdadeiro mar é abissal. Vai fundo. Isso vale para tudo.
Ai do estatístico que ao ver uma vaca pondera apenas a quantidade de leite que o quadrúpede produz, sua ficha genética, seus índices de reprodução. Uma vaca assim é uma vaca
uma torneira no jardim, para juntar um bando e fazê-los ensopados com polenta? Para que serviria o Rio Guaíba sem o debrum lilás-arroxeado de seu cair da tarde? Para que serviriam os filhotes de gatinhos se as pessoas todas fossem pragmáticas como Dona Juvência, a boa senhora que, para não deixá-los sofrer
abandonados sem dono nos jardins públicos, tratava de afogá-los enquanto ainda recém-paridos enfiando-os num saco de aniagem mergulhado no tanque cheio de água?
Consta que a Natureza é sábia. Mais uma razão por que não entendo o pretexto para erguer um monumental prédio de escritórios em frente da janela do meu aporrinhado sobradinho, com a parede nua e crua tapando para sempre a visão paradisíaca do velho Pico do Jaraguá, que me transmitia, todas as manhãs, a sensação de ser um homem livre como um urubu na Natureza urbana onde pretendo ser feliz. Estão nos roubando a Natureza, essa é que é a tragédia. Não obstante, continuaremos a comemorar seu dia. Sempre haverá nalgum aeroporto um avião à espera de passageiros românticos, à janela de cujo aparelho nossos olhos se lançarão em vôo ansioso na busca do horizonte, sem arranha-céus, sem tapumes, sem paredes, sem muralhas. Mesmo sendo a vida in natura um sonho útopico, não podemos descartar a imaginação. Mesmo os helicópteros que roncam são simpáticos. Com boa vontade, lembram bicos-de-lacre e coleirinhas em revoada.
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Lourenço Diaféria é jornalista e escritor